Editora Encontro
   
   
     



























 
  capa
 
| Blima Bracher |
| Fotos Geraldo Goulart |
Como identificar o ciúme considerado normal do patológico, problema que vem causando tragédias entre casais. Só em BH, foram sete crimes passionais nos últimos seis meses


Do amor ao ódio

 
 

Obcecado por pensamentos de infidelidade, Otelo acusa Desdêmona de traição. Ela jura inocência, mas envenenado pelo ciúme ele sufoca a esposa até a morte. O crime passional descrito em Otelo, o Mouro de Veneza, tragédia de Shakespeare, inspirou estudiosos do assunto a classificar o comportamento homicida, motivado por ciúme, de síndrome de Otelo.

 

 

 

Freud explica

Ciúme normal: para Freud, no ciúme normal o que está em jogo é um mecanismo de defesa e proteção. Projetamos fora de nós desejos e ambições. O sujeito que tem ciúme normal, na verdade, ele próprio queria trair. Ele projeta no outro o próprio desejo de traição

Ciúme patológico: pode ser expressão de um desejo homossexual. O ciumento se identifica com o sexo oposto e inconscientemente deseja o mesmo objeto de desejo do outro

 

 

Sintomas do ciúme patológico
(Fonte: Solange Mendonça Campos)

Não existe fato concreto; o ciumento cria o enredo da traição e acredita nele, apesar das evidências contrárias. Enxerga segundas intenções em tudo.

Há anulação do outro como ser humano, ele passa a ser visto pelo ciumento como mero objeto, do qual ele pode dispor como bem entender.

A relação deixa de ser prazerosa. O amor cede espaço ao ódio. As brigas são constantes.

O ciúme passa a ser linha-mestra na vida do ciumento, com alteração da rotina para conferir horários e vigiar os passos do outro

O ciumento perde a referência social, passando a dar escândalos em público e ameaçar pessoas.

O ciúme vem associado ao transtorno obsessivo-compulsivo, com rituais de conferência de agendas, celulares e e-mails, mania de cheirar objetos e interrogatórios repetitivos

 

 

Fernanda*: namorado pedia que ela andasse dois passos à frente para observar como reagia aos olhares na rua. O ciúme pôs ponto final no relacionamento, onde ainda havia amor

 

 

Alda Vilas Boas: “ O psicótico pode tentar resolver seus problemas numa atuação real”

 

 

 

 

 

 

 

 


Últimos crimes em BH

20 de maio de 2008:
o corretor de imóveis Glayson Alexandre Teixeira Vasconcelos, 31 anos, desferiu quatro tiros na ex-namorada Kalila Costa Carvalho

Abril de 2008:
o promotor de eventos Rodrigo Vasconcelos Nassif, 31 anos, tentou matar, no campus do UNI-BH, a ex-namorada Danielle Jequeline, 21 anos

Novembro de 2007:
a universitária Érica Alves Arantes, 22 anos, foi morta com 13 tiros pelo ex-namorado Roberto Márcio Marra, 25 anos, aluno do curso de Direito do Centro Universitário Newton Paiva

 

 


 

Para entendermos melhor o problema, é preciso deixar claro que nem todo ciúme é destrutivo. Ao contrário, na dose certa, o sentimento é normal e inerente à natureza humana. “Seria um comportamento de defesa da espécie e preservação do par”, explica a psicanalista Alda Cristina Vilas Boas. “Sentimento tão primitivo que pode ser visto em animais, como cães e gatos de estimação”, acrescenta a psiquiatra Solange Mendonça Campos. Há também o ciúme fruto de situação real: ocorre quando houve traição. “Este ciúme traz muita insegurança e desconfiança”, explica Alda Cristina, diretora de Educação da Clínica Espaço Aberto.

Mas quando cruzamos a tênue linha da normalidade e atingimos o terreno da patologia? “Isso acontece quando não existe motivo, a não ser na cabeça do ciumento. É uma convicção baseada em falsa suposição”, analisa Solange. Outra característica da síndrome de Otelo é a anulação do outro, ou seja, ele deixa de ser visto como ser humano, dotado de sentimentos e liberdade para se transformar num objeto meu. Na cabeça do ciumento patológico este tem inclusive o direito de eliminá-lo, de dispor da vida do ser amado como bem entender. Casos que não raro acabam em tentativa ou assassinato. Em Belo Horizonte, por exemplo, só nos últimos seis meses foram sete registros de crimes passionais, mais de um a cada 30 dias, em média. No mais recente, o corretor de imóveis Glayson Alexandre Teixeira Vasconcelos, 31 anos, disparou quatro tiros contra a ex-namorada Kalila Carvalho, de 24. Segundo testemunhas, Glayson tentou se matar em seguida, mas a arma falhou. Em abril, o promotor de eventos Rodrigo Vasconcelos Nassif tentou matar a ex-namorada Danielle Jaqueline. Ele disparou cinco tiros contra a moça no corredor da faculdade onde ela estuda, mas sobreviveu.

No entanto, antes que o pior aconteça, alguns sinais podem indicar um relacionamento já fadado ao fracasso (ou à tragédia). Outro sintoma típico do ciúme doentio é quando a relação deixa de ser prazerosa. O ciúme passa a ser o evento principal, o amor cede lugar ao ódio e à desconfiança. Surge um comportamento tirânico do ciumento em relação ao objeto de afeição. Ele se torna eixo de toda a vida emocional. “Às 8 horas acorda e vai para a porta da pessoa ver se ela saiu no horário. Ao invés de ir para o trabalho vai verificar à tarde se a pessoa foi ao dentista como falou”, exemplifica Solange. Assim, o ciúme passa a interferir no trabalho e em outras esferas da vida do ciumento.

Foi o que viveu Gabriela*. “Fiquei dez anos da minha vida movida pelo ciúme doentio. Poderia ter estudado mais, me empenhado na profissão e hoje estaria numa situação melhor.” Mas não foi só profissionalmente que a advogada perdeu. O relacionamento começou quando ela tinha 19 anos e o ciúme foi num crescendo. “Ele não me dava motivos, mas eu enxergava segundas intenções em tudo: vasculhava celular, e-mails, agendas, cheirava roupas. Cheguei a invadir o trabalho de uma ex-namorada dele e ameaçá-la. Mas o pior foi depois de um churrasco: só porque ele cumprimentou uma moça, na volta para casa tomei o volante e joguei o carro em direção à lagoa da Pampulha. Nossa sorte foi que ele conseguiu controlar o carro.” Hoje depois de freqüentar o grupo de apoio Mulheres que Amam Demais Anônimas (Mada), fazer análise e tomar remédios, Gabriela* retomou a relação e finalmente vai se casar. “Quase perdi o amor da minha vida, mas sei que sou como um alcoólatra que não pode tomar o primeiro gole. Tenho uma doença que está controlada, mas não tem cura”, reconhece.

O ciúme patológico pode ou não vir associado a outras doenças psiquiátricas. Existem ciumentos mórbidos que não chegam a ter doença mental. “O que vemos nesses casos é uma codependência afetiva e o ciúme aparece como sintoma deste amor sem limites, possessivo”, explica Alda Cristina Vilas Boas. Sinais dessa codependência são: querer agradar demais, tomar conta dos outros, excesso de zelo, ser muito prestativo. São pessoas que fazem qualquer coisa para impedir o fim do relacionamento. A auto-estima está criticamente baixa e elas não acreditam que mereçam ser felizes. “Não se acham dignas de afeto e costumam ter atração por homens ou mulheres problemáticos, comprometidos ou com algum outro impedimento”, diz a psicanalista. É comportamento que tende a se repetir, uma espécie de escolha inconsciente. O codependente pode encontrar no atendimento psicológico e nos grupos de ajuda grande possibilidade de recuperação.

Mas o ciúme mórbido também pode ser observado em associação com diversas doenças psiquiátricas. Este sentimento no cunho psiquiátrico costuma vir acompanhado de alcoolismo (geralmente a pessoa se descuida, perde a forma física, torna-se impotente e passa a se sentir ameaçada), dependência química, demência (começa na velhice, principalmente por parte do homem quando se torna impotente), transtornos graves de personalidade, como personalidades paranóides, que podem ir evoluindo para psicoses mais graves. “O ciúme doentio pode aparecer como primeiro sintoma de esquizofrenia”, afirma Solange Campos.

Ângelo* se apaixonou por uma colega de escola. Chegava às cinco da manhã, apesar de a primeira aula começar às 7h30. Fumava feito louco até ver a amada chegar. Mesmo sem ser correspondido, sentia-se dono da menina. “Certa vez cheguei a levantar o professor pela gola, só porque achei que ela olhava diferente para ele. Já ameacei pular do prédio da escola porque ela não queria ficar comigo. Num outro episódio soquei a janela de vidro e me cortei todo pelo mesmo motivo”, lembra. Preocupada, a família procurou um psiquiatra. Ângelo* apresentava quadro de esquizofrenia. Foi internado. Hoje, a doença está sob controle.

Dentro destes quadros associados a doenças mentais, a psiquiatra identifica ainda dois graus de ciúme patológico: um mais brando, onde ainda cabe a dúvida e um mais agudo ou delirante. “Onde existe dúvida, costumamos identificar ciumentos que sofrem de transtorno obsessivo compulsivo: eles têm necessidade de verificar várias vezes agendas, celulares, e de realizar interrogatórios intermináveis para se convencer da inocência do amado. Já o ciumento delirante tem certeza da traição, apesar de evidências contrárias. Cria um script na cabeça e acredita piamente naquele enredo”, explica Solange.

A veterinária Fernanda* conviveu com um ciumento delirante. “Se eu olhasse para o lado estava dando mole para alguém, se alguma mulher me olhava era homossexual. Ele criava as fantasias e acreditava naquilo, não adiantava negar”, lembra. Como era hacker, instalou um programa, sem sua autorização, no computador e controlava o msn, e-mail e Orkut. Deletou amigos do site de relacionamento. “A gota d’água foi quando apagou um arquivo antigo, onde eu guardava trabalhos, currículo e outros documentos”, lembra. Apesar de ainda gostarem um do outro, Fernanda* preferiu pôr ponto final ao relacionamento.

A atitude dela foi correta; afinal, não raro, casos de ciúme patológico terminam em crimes passionais (ver quadro ao lado). Nestes casos, o que difere são os perfis dos criminosos. O psicótico, explica Alda, “ao contrário de pessoas normais, que podem até ter o desejo de matar, mas ficam no campo imaginário, ele pode decidir resolver seus problemas numa atuação real.” Se bem que pode acontecer, ainda, o caso de uma pessoa considerada normal matar por ciúme. “Nestes casos há insanidade momentânea provocada por desespero”, diz a psicanalista. São os crimes que acontecem no calor das discussões ou numa cena de traição e quem mata costuma sentir tanta culpa que se mata em seguida (foi o que tentou fazer Glayson Alexandre). Já o psicopata, o sujeito perverso, premedita o crime, mata sem culpa e sem sombra de arrependimento. Para esses, não costuma haver cura.

* Nomes fictícios

Crimes passionais que chocaram o país

Doca Street mata Ângela Diniz

Raul Fernandes do Amaral Street, conhecido como Doca Street, foi condenado a 15 anos de prisão pelo assassinato da namorada Ângela Diniz, a Pantera de Minas. O namoro durou quatro meses e Ângela foi morta com três tiros no rosto e um na nuca

Pimenta Neves mata Sandra Gomide
Típico caso de homem mais velho que se acha dono da namorada. Pimenta Neves se considerava responsável por tudo que Sandra, sua subordinada, possuía, desde emprego, salário e amigos

Guilherme de Pádua e Paula
Thomaz matam Daniella Perez

A atriz foi morta num matagal no Rio, aos 22 anos em 1993, pelo ator Guilherme de Pádua, com quem contracenava na novela De Corpo e Alma, da Globo, e pela mulher dele, Paula Thomaz, que estava grávida de quatro meses

Dorinha Duval mata Paulo Sérgio Alcântara
A atriz global matou com três tiros o marido com quem estava casada havia seis anos. Ela contou à polícia que Paulo Sérgio, 16 anos mais jovem, a chamava de velha e dizia que só apreciava mulheres mais jovens

Autora do livro A Paixão no Banco dos Réus, a procuradora de Justiça Luiza Nagib Eluf fez estudo detalhado sobre 14 crimes passionais famosos e fala sobre o assunto à Encontro.

Encontro – Existe algo em comum, um traço de personalidade, que possa ser identificado nos criminosos que matam movidos por emoções e passionalidade?
Luiza Eluf – Sim. Em geral, são homens de meia idade, possessivos, ciumentos e obcecados. Acham-se superiores às mulheres, querem dominá-las de todos os modos. Não suportam a idéia de serem trocados por outro. Dão sinais de que poderão agir violentamente, costumam ameaçar e, por vezes, agredir por ciúme. Na maior parte das vezes nunca mataram ninguém e sua conduta violenta é, principalmente, em relação a uma mulher específica. Dificilmente matam mais do que uma vez.

Encontro – O ciúme é a mola propulsora de crimes passionais?
Luiza Eluf – O crime passional é cometido por ciúme, mas também por machismo. Quando a mulher reage e decide pôr ponto final na relação, ele pede de volta objetos dados como presentes. Incrédulo, pois se considera dono da mulher, tira a vida dela. Às vezes, não suporta a perda da amada e, depois do crime, comete suicídio.

Encontro – Existe privação de sentidos, em algum instante ou os crimes são premeditados?
Luiza Eluf – Em geral, os crimes cometidos por ciúme e pelo inconformismo com o fim da relação são premeditados. O sujeito procura surpreender a vítima de forma que ela não consiga se defender.

Encontro – Existe diferença no comportamento de homens e mulheres que cometem estes crimes?
Luiza Eluf – Sim, as mulheres, em geral, não cometem crimes e é muito raro que matem por ciúme. No entanto, quando o fazem, agem por impulso e usam a arma da vítima.

agradecimento: Paola Santos, Evelyn Lacerda, Walison Fernandes e Max Viana, da Why Models


   
   
 
  B2Web Design.Sistemas