
Fachadas de bingo
na Savassi e no Mangabeiras (abaixo): atuação na
clandestinidade

Pesquisa
Pesquisa feita ano passado pela Secretaria de Pesquisa e Opinião Pública do Senado, a pedido da CPI dos Bingos, constatou grande
resistência à legalização desse tipo de jogo e indiferença ao assunto
19,3% dos
entrevistados foram
favoráveis à legalização
dos bingos e caça-níqueis
48,2% foram contra
30% se mostraram indiferentes
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Afonso Pena, um dos principais corredores de trânsito da capital mineira. Ali, a movimentação de apostadores é intensa, a partir do meio-dia. Segundo populares que não quiseram se identificar, o bingo – sem denominação – funciona até a madrugada, sem sofrer nenhum tipo de repressão policial. “É um entra-e-sai o dia todo”, revela moradora da região.
No local, um segurança fica de olho na movimentação das pessoas. Uma câmera, colocada na porta do estabelecimento, mostra tudo que se passa na rua. Com as imagens do circuito interno, o segurança libera – ou não – o acesso pela porta de alumínio e vidro. Atrás, uma chapa de ferro encobre a claridade da rua.
Ao chegar, o jogador tem que se identificar. A partir daí, o cliente percorre pequeno corredor sombrio até chegar a uma enorme sala, rodeada por máquinas de videobingo e caça-níqueis. No estabelecimento, há luxuoso bar, com petiscos e
variedade de bebidas. “É um lugar muito agradável, onde passo boa parte das minhas tardes”, revela freqüentadora assídua do local, que preferiu não se identificar. Dentro da loja que foi transformada em salão de jogos, ela e outros apostadores ficam sentados em confortáveis cadeiras. A aposentada, então, tira o dinheiro do bolso e pede o crédito. “Quanto?”, perguntam. “Cem reais”, responde a aposentada. A senhora de 65 anos diz que conheceu o jogo por meio de uma amiga que é médica. “Um dia, ela me convidou para conhecer um bingo clandestino que funcionava na Savassi. Achei tão legal que passei a freqüentar outros”, conta.
E é na região referida pela aposentada que a Encontro flagrou outro bingo clandestino em funcionamento. Localizado em uma pequena casa próxima ao Colégio Santo Antônio e à avenida Getúlio Vargas, o estabelecimento funciona com o mesmo aparato de segurança. Assim como no primeiro local citado nesta reportagem, a maioria dos freqüentadores é de mulheres idosas, bonitas e elegantes, com idade que varia entre 50 e 75 anos. “Algumas chegam a gastar até mil reais numa tarde”, conta um atendente, que aproveita o grande movimento para faturar com as gorjetas. “Conheço pessoas que deixaram nos bingos economias de uma vida inteira”, revela o proprietário da casa. Para escapar da fiscalização, os bingos mudam de local sempre. Os clientes ficam sabendo por meio dos donos, que sempre ligam avisando o novo endereço. Para disfarçar, um empresário do ramo imobiliário que pediu para não ser identificado conta que em muitos bingos são colocadas placas de aluguel apenas como fachada. “Tenho clientes interessados que fazem ofertas, mas pedem valores muito acima dos de mercado. A impressão é que não querem alugar.”
Policiais militares e civis em conjunto com fiscais da prefeitura realizam toda semana a operação caça-níquel em diversos bairros da capital. Na última, em 21 de maio, foram aprendidas 23 máquinas nos bairros Ipiranga, São Paulo e Santa Cruz. Segundo a polícia, a fiscalização é em locais já catalogados e denunciados pelo disque-denúncia (181). “Nossa maior dificuldade é identificar algumas casas que se passam por estabelecimentos comerciais”, admite o tenente-coronel da PM, Ricardo Matos Calixto.
A questão da legalização do jogo é tratada sem prioridade no Congresso Nacional. A assessoria de comunicação da Câmara dos Deputados informa que há cerca de duas dezenas de projetos dispondo sobre bingos, sendo a maior parte das proposições pela regulamentação e destinação de recursos a setores específicos como saúde e esportes. A minoria de proposições é pela proibição radical, mas conta com apoio da maioria dos senadores. “Só uma nova dona Santinha seria capaz de reimplantar o jogo no Brasil”, afirma o senador Antônio Carlos Valadares (PSB/SE), referindo-se ao apelido de Carmela Teles Leite Dutra, esposa do presidente Eurico Gaspar Dutra que, a pedido dela, proibiu o jogo no país.
Valadares é autor de projeto de lei que, ao invés de contravenção, torna crime todos os jogos de azar, exceto os controlados pela Caixa Econômica Federal e, ainda, de outro projeto rigoroso contra a lavagem de dinheiro. Ele entende que essa atividade acaba sempre servindo ao crime organizado.
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