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  cultura
 
| Graziele Raposo |
| Fotos: Eugênio Gurgel |
Movimento de MCs embaixo do Viaduto Santa Tereza ganha corpo, atrai público e traduz um pouco da arte de rua de forma original

DUELO DA IGUALDADE

 
 

Enquanto festas luxuosas acontecem na casa de eventos Serraria Souza Pinto, do lado de fora, exatamente embaixo do viaduto Santa Tereza – um dos cartões-postais de Belo Horizonte –, uma reunião curiosa é realizada todas as sextas-feiras. Trata-se do Duelo de MCs, festa gratuita diferente de tudo já visto na capital. A idéia é conscientizar as pessoas

O hip hop é o conjunto de quatro formas artísticas chamadas de elementos. São eles: Break, DJs, Gafite e MCs. O movimento surgiu em Nova Iorque (EUA) nos anos 60 para os 70 e veio da mistura de vários movimentos. O fundador do hip hop é o DJ Afrika Bambaataa, nova-iorquino líder da Zulu Nation, ONG que tem como princípio a paz, o amor, a união e a diversão, que formam o verdadeiro espírito hip hop


Turma de MCs, durante duelo embaixo do viaduto de Santa Tereza, no centro da capital: conscientização sobre igualdade social e racial

Quatro Elementos

- Break: dança de rua surgida na década de 70 entre negros e hispânicos de Nova Iorque. Representada pelos B-Boys e pelas B-Girls, que dançam o estilo
- DJs: iniciais de Disc Jockey. O DJ é o animador da festa, aquele que seleciona as músicas de acordo com o público e que coordena a sincronia das batidas por minuto
- Grafite: a palavra significa marca ou inscrição feita em um muro. O grafiteiro aproveita os espaços públicos para mostrar sua arte através de uma linguagem própria.
- MCs: sigla de Mestre de Cerimônia. O MC surgiu nos Estados Unidos com a cultura hip hop. O MC diverte o público com suas letras enquanto o DJ cria os sons para acompanhar. No Brasil, os MCs se desviaram um pouco da raiz do hip hop e foram para o funk




Estilos de MCs

1) Cronista: são rimadores que costumam descrever os fatos e acontecimentos no estilo policialesco
2) Intelectual: usam palavras consideradas difíceis com temas profundos e de difícil entendimento
3) Romântico: rimas que falam de amor
4) Livre: rimas despreocupadas, chamado também de Freestyle
5) Rua: as influências vêm da cultura hip hop e falam do Break, do Grafite e dos Djs
6) Raga: as músicas falam de mulheres e festas
7) Radical: fala de histórias de comunidades e seus conflitos, como drogas e polícia
8) Festa: baladas, sexo, mulheres estão incluídos nesse estilo
9) Gospel: as músicas falam de paz, esperança e temas bíblicos

 

sobre igualdade social e racial, tudo por meio da música e da arte. O público é diversificado: ricos e pobres, moradores de condomínios e de favelas e até mesmo alguns convidados da Serraria, atraídos pela movimentação, se unem pela diversão consciente e pela paz.

O Duelo de MCs foi idealizado pelo designer e MC Leonardo Cezário, com o propósito de ressuscitar em BH a cena hip hop. “Achei que seria legal criar um lugar único na cidade para as pessoas se conhecerem, se encontrarem, trocarem idéias e se divertirem”, relembra Leo, como é conhecido. Ele chamou vários amigos para juntos fazerem uma batalha Freestyle, estilo livre para músicas compostas na hora, sem ensaio prévio.

O primeiro encontro aconteceu de maneira improvisada: num canto da praça da Estação, uma turma de 30 pessoas se juntou ao redor de um carro e, sem microfone, sem estrutura, somente com o som do carro, começou a duelar. Quem não era MC se transformou naquela noite, já que todo mundo quis participar. Na sexta-feira seguinte, o número de participantes já era de 60 pessoas. “A cada semana o público aumentava, assim como o improviso. Chegamos a montar equipamento de som em cima de um skate, que ficou sendo o nosso skate sound system”, brinca Leo Cezário. Foi aí que o grupo de MCs se juntou ao Projeto Miguilim, que tem sede na própria praça da Estação. “O Miguilim nos forneceu a energia e um caminhão de carreto, que se transformou em palco. Naquela noite o duelo já reunia uma média de 100 pessoas e foi aí que a gente viu que tinha força para ir além”, conta Leo.

A mudança da praça da Estação para o Viaduto Santa Tereza, em novembro de 2007, foi por causa da chuva. O lugar estava escuro, com todas as lâmpadas quebradas. Há um mês o grupo conseguiu nova iluminação para a parte de baixo do viaduto, além de alvará para o evento. A filosofia do movimento hip hop pontua o evento com a junção dos quatro elementos: MCs, Dj’s, Grafite e Break, este último representado pelos B-Boys. Leo Cezário, que além de ser um dos organizadores do evento é o mestre de cerimônia, chama o público pedindo energia positiva. Todos gritam, participam. Os MCs da noite se inscrevem para o duelo pagando a taxa simbólica de dois reais. O público presente, que hoje já alcança média de 400 pessoas, se organiza em frente ao palco para curtir o som. Quem está mais à frente sorteia os adversários da noite, que colocam as inscrições dentro de um boné. Ao todo são oito MCs por duelo, sendo eliminados para quatro, depois dois e no final somente um vencedor. O prêmio? O dinheiro arrecadado nas inscrições, total de 16 reais.

No duelo Freestyle, palavras positivas, rimas com o cotidiano e improviso em resposta ao adversário. “Você não vai agüentar e eu vou te atropelar, vou te pôr no chão porque aqui é união”, rima um MC. “Não importa se é favela ou condomínio, eu sigo a minha vida rimando bem tranqüilo”, responde o adversário. Enquanto o duelo acontece no palco do viaduto, skatistas fazem performances e grafiteiros expressam sua arte ao redor do público. Wemerson Silva, conhecido na cena como Wera, participa sempre que pode. “A idéia é interagir em espaços públicos, porque isso aqui é nosso”, diz Wera, que é MC, ilustrador, cartunista e grafiteiro. No intervalo do duelo, pocket shows acontecem na noite. São rappers que procuram divulgar o trabalho. Enquanto isso, um grafiteiro pinta uma tela durante o evento.

Entre o público, pessoas de todas as cores, profissões e dos mais diferentes bairros, como Mayra Aspaham, estudante de Medicina, moradora do Sion. “Tenho muitos amigos que são grafiteiros e que já freqüentavam esse ambiente que tem a ver com arte urbana”, conta. Há também muitas crianças no local, que são levadas pelos pais. O clima é tranqüilo e os pequenos se entusiasmam com as músicas e com o break, muito bem representado pelos B-Boys, que dão show de coreografia do estilo de dança de rua.

As rimas continuam: “Você não conhece o que é samba, não conhece o hip hop, então aperta a tecla stop”, canta um MC. “Eu sou do carnaval porque carnaval é cultura. E não adianta fazer cara feia que eu tenho rap na veia”, rebate o adversário. Na platéia, plaquinhas feitas de madeira com os dizeres Wou, Aplausos e Esse é o cara são erguidas. O público obedece a cada placa levantada, com gritos animados que levantam a torcida de cada MC. No fim, após quase três horas de evento, todos saem com a sensação de paz: nunca um evento gratuito, em pleno centro da capital, num lugar marginalizado pela sociedade, conseguiu igualar as diferenças em clima de total tranqüilidade. Ali, todos são iguais.


   
   
 
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