
Ana Amélia Boaventura, com Pedro: “Quando
ele resolve assistir ao futebol, trabalho no
computador”


José Vieira Reis e Giselle Feller Santos:
diálogo sobre roupa, sapato, jeito de
falar e de se comportar
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A psicanalista Miryam Weimberg, com mestrado em resoluções de conflito pela UERJ diz que o parceiro hoje se pergunta muito mais: o que o outro pode me dar, me oferecer, me acrescentar? E tanto homens quanto mulheres não aceitam mais tão fácil a demora em atender às suas exigências. “Esquecemos que é preciso tempo de latência e amadurecimento para que o outro possa atender às nossas expe-ctativas. O tempo do relógio não é o mesmo da relação amorosa”, pondera.
Assistente social com experiência na Delegacia da Mulher, babá de casais num programa de TV e autora do livro Vamos Discutir a Relação? (editora Planeta do Brasil), Regina Vaz acredita que um dos grandes problemas é a falta de sintonia para o diálogo. No livro ela conta que existem dois motivos básicos que atrapalham o casal nessa hora. O primeiro deles é a crença feminina de que falar ajuda a organizar o pensamento e elas insistem em colocar para o parceiro todas as mínimas dúvidas e angústias. A segunda é a de que homens e mulheres possuem padrões de comunicação diferentes: eles são mais focados e objetivos e elas fazem mil coisas ao mesmo tempo com competência. “O importante é ter clareza a respeito dos nossos processos emocionais e conduzir uma conversa amorosa que tenha objetivo concreto”, diz.
Parece que Ana Amélia Stehling Boaventura, designer gráfica, tinha isso em mente quando resolveu ter a primeira conversa séria com o namorado Pedro Paulo de Abreu Carvalho, formado em administração de empresas. O papo resultou no começo oficial do namoro. Depois de um ano e três meses se encontrando sem compromisso, ela resolveu dizer a ele o que queria de um relacionamento. “Foi importante saber ouvi-la. Passou a ser uma marca nossa, buscar sempre a solução, ajudando a conviver melhor”, diz Pedro Paulo. “Aprendi também que por algumas coisas não vale a pena brigar. Sei hoje que quando ele resolve assistir ao futebol de que tanto gosta, por exemplo, eu vou assistir com ele ou vou trabalhar no computador, fazer meus designs”, explica Ana.
No entanto, outros especialistas são categóricos ao afirmarem que as discussões refletem o caminho mais curto para o divórcio. “Casais que discutem são aqueles que vão chegar muito mais fácil a uma separação e provavelmente vão viver menos, devido à carga de estresse que carregam”, diz o terapeuta de família Carlos Arturo Molina Loza. O motivo está na definição do que é discutir a relação: um acusar e o outro revidar, o primeiro acusar novamente e o outro revidar, incansavelmente. É a contraposição de argumentos para ver quem ganha, então a possibilidade de se chegar a um acordo é mínima, já que sempre haverá um perdedor. “Alguns maridos me relatam que ficam fazendo hora no trabalho, esperando o tempo passar por saberem que, quando chegarem em casa, vão se sentir num banco dos réus. Qual a opção dele? Fugir!”
Mas não são todos que tomam esta atitude. Pelo contrário, hoje em dia boa parte dos homens (isso mesmo, dos homens) procura discutir a relação. Alguns, inclusive, têm a mesma necessidade de serem ouvidos e de se comunicarem com as mulheres. José Vieira Reis, que namora Giselle Feller Santos há três anos, se convenceu, após casamento anterior, que é sempre melhor conversar. “No meu namoro atual quando algo não me agrada, reflito primeiro, tento entender a situação e logo falo com ela”. A mudança, ele diz, tem a ver com a maturidade e por gostar muito e se importar com a relação. O casal conta que dialoga sobre a roupa que veste, a escolha de sapatos, o jeito de falar, de se comportar. A namorada adora o cuidado, mas afirma que, quando ele exagera e insiste demais, ela coloca o ponto final, mas sem brigas.
E para que conversas não 4 evoluam para brigas as pessoas devem conversar expondo seus pontos de vista com abertura para conhecer o pensamento do outro, sem o propósito de persuadir, e nem a obrigação de dizer o que será daqui para a frente. A conversa deve sempre começar a partir do eu. “Quando se consegue isso, os homens se tornam muito menos mudos e as mulheres menos faladeiras”, conta o terapeuta de casais Molina Loza. A experiência no consultório mostra que quase todos os problemas apresentados dizem respeito à comunicação malfeita ou à disputa de poder.
O primeiro passo é aprender a se comunicar. Foi o que Jane* fez. Vivia um casamento que desde o início teve problemas, mas ela não enxergava isso, pois gostava demais do marido e só pensava em segurar a relação. Durante dois anos viveu acomodada, sem externar o que sentia. Era tanto sofrimento que resolveu falar com Luís*, e não parou mais de discutir. “Era frustrante, verdadeiro monólogo, vi o quanto ele era egoísta”.
Depois de muita insistência, Luís aceitou participar de sessões de terapia de casal. O resultado, depois de seis meses, foi a separação. “Já estávamos terminados e presos numa escolha errada que nos fazia reféns”. A boa notícia é que Jane levou o que aprendeu na terapia para seu segundo casamento. “Quando temos uma segunda chance, não devemos repetir os mesmos erros.”
Talvez a resposta às dúvidas dos casais seja, até certo ponto, simples. Tolerar demais e engolir as queixas é tão mortífero quanto discutir a relação sem parar. Então, na verdade, não é uma questão de discutir ou não, e sim aprender a conversar, para que haja vida longa da relação. E não esquecer que as mulheres são treinadas para resolver as coisas conversando, e os homens, agindo. Se cada um aprender um pouco do que sabe fazer melhor com o outro pode ver com mais nitidez a luz no fim do túnel.
*Nomes fictícios
A mesa
Para entender por que a conversa sobre a
relação vai ser diferente para o homem e para a mulher, veja o que cada um respondeu a esta simples questão:
O que é uma mesa?
A mulher:
"Mesa? Ah, mesa...
há muitos tipos de mesa.
Grandes, pequenas,
redondas, quadradas,
ovais, retangulares.
O tampo pode ser
de vidro – por sinal
é desses que eu mais
gosto – de mármore,
de granito, de madeira.
Mas mesa é um lugar
de reunião de toda a
família. Com uma toalha
bonita e a família em
torno dela para um jantar
especial. Bom, mesa serve, em geral,
para situações especiais. Claro que também
há mesas de trabalho, de canto, de centro e até
de enfeite. Eu lembro de uma mesinha que eu tinha, adorava! Ah! Mesa tem muitas utilidades."
O homem:
“Um tampo sustendado por um ou mais pés, uai!"
Fonte: Livro Eu não sabia... mas Clio me contou - Narrativas
terapêuticas I. Editora ArteSã, de Carlos Arturo Molina Loza
Discutir a relação: às vezes sim, às vezes não
Os terapeutas norte-americanos Patrícia Love e Steven Stosny lançaram o livro chamado Não Discuta a Relação – como melhorar o seu relacionamento sem ter que falar sobre isso, lançado no Brasil pela editora Nova Fronteira. A explicação está na forma como cada um enxerga o relacionamento. A mulher normalmente
quer discutir quando está triste, porque acha que o homem é distante, desligado ou desinteressado.
O homem tem arrepios quando ouve a frase, pois
sabe que discutir não vai resolver nada e sente vergonha de ver que não está
cumprindo o seu papel de provedor
e protetor da mulher. Para os autores o amor não está relacionado só a
conversas, mas com a conexão do
casal, e ela pode ser conseguida e
fortalecida simplesmente pelo
contato e pelas atitudes de cada um.
Já Regina Vaz,
autora do livro Vamos Discutir
a Relação?
aborda com
bom humor que um bom
relacionamento
depende simplesmente daqueles que se relacionam, por isso o
diálogo é peça fundamental. Examina as relações
homem/mulher sob uma ótica
ao mesmo tempo profunda e
realista. Ensina como reverter
a linha decrescente que começa
na paixão e termina na
indiferença, inimizade e solidão.
Nove Razões
Segundo o terapeuta de casais Carlos Arturo Molina Loza, existem apenas
nove motivos pelos os quais os casais
discutem. Todos eles dizem respeito à
comunicação malfeita e/ou à
disputa de poder
1) Amor/ sexo
(quantidade, intensidade e qualidade)
2) Dinheiro
3) Filhos
4) Famílias de origem (principalmente a mãe dele e em segundo lugar a mãe dela)
5) Trabalho
6) Ético-filosóficas-políticas-desportivas
7) Amizades
8) Lazer
9) Território (algumas mulheres
confundem ser dona-de-casa com
dona da casa e os homens acham que
o mundo externo é de domínio dele)
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