Março - 2004 - Ano II - nº 25 Anuncie na Encontro Fale Conosco Receba a Encontro
Institucional
Expediente
Carta do Editor
Cartas
Automóvel
Bazar
Capa
Cidade
Educação
Entrevista
Estilo de Vida
Estilo de Vida II
Gastrô
Gestão
Humor
Negócios
Numerologia
Perfil
Reportagem
Transporte
Varejo
   


Machado: “A gente acaba conhecendo vários tipos de mulheres. Isto é bom. Passamos a entendê-las melhor”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


As amigas Luciana Campos, Juliana Rocha e Luciana Pereira saem sempre juntas: apesar da beleza do trio, poucas expectativas de arrumar namorado em função da oferta reduzida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A estudante Fernanda Garcia: apesar do universo masculino restrito, ela acredita que um novo amor pode surgir quando menos se espera. Alguém duvida?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


O paulista Beto Verre: “Em BH, é comum ver mesas com até 10 mulheres em restaurantes, coisa difícil na cidade de São Paulo”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPA


ESTÁ SOBRANDO MULHER


Basta uma percorrida por restaurantes e bares da moda em BH para comprovar esta tese

DANIELE HOSTALÁCIO

Está sobrando mulher. A afirmativa, que pode despertar sentimentos diversos, é apenas uma referência a um dado do IBGE, coletado a partir de estudos realizados pelo último censo, que indica que em Minas Gerais há uma significativa desproporção entre o número de homens e mulheres "disponíveis" – incluindo nesse rol os solteiros, os divorciados, os desquitados e os viúvos. O predomínio absoluto é do público feminino. Para ser mais precisa, não vivem na companhia de um cônjuge ou de um companheiro, nos centros urbanos de Minas Gerais, 3.391.782 mulheres com 10 anos de idade ou mais, contra 2.966.737 homens. Uma continha rápida nos faz chegar à seguinte conclusão: é quase meio milhão de mulheres sozinhas, a mais.

Para os conquistadores de plantão, a notícia soa como um bálsamo para os ouvidos. Para as moçoilas casadoiras, como uma prova da injustiça divina. Afinal, se cada um procura seu par, essa desproporção indica que muitas mineiras tendem a ficar na mão, a não se que se aventurem a migrar por outras paragens, já que a estatística local vai na contramão dos outros centros urbanos do país. Em São Paulo, por exemplo, na faixa etária em que ocorre o maior número de casamentos, dos 18 aos 29 anos, há número 26% maior de homens solteiros. Isso significa que, para cada grupo de 100 mulheres sozinhas, há 126 homens na mesma situação.

Mas, voltando o olhar para a paisagem mineira, o cenário é desolador para algumas jovens. O trio formado pela estudante de administração Juliana Rocha, a publicitária Luciana Campos e a administradora Luciana Pereira, por exemplo, diz que não era preciso o censo para se chegar a essa triste conclusão. O excesso de mulheres em Belo Horizonte é, para elas, notório, salta aos olhos e não escapa nem à mais distraída percepção. "Homem é escasso no mercado, a demanda é certamente maior", brinca a publicitária. As três amigas gostam de sair juntas para dançar, encontrar amigos, se divertir. "Mas eu saio sem a expectativa de conseguir um namorado. A gente vive em um círculo fechado, todo mundo conhece todo mundo, e os rapazes que existem já têm namorada", reclama Juliana. No que é corroborada pela amiga Luciana: "É, BH não tem futuro. Para encontrar alguém, a gente tem que fazer viagens."

Viajar para encontrar um par pode parecer exagero, mas acaba dando certo. Nem tanto pela escassez de homens por estas plagas, mas porque para criar um relacionamento é preciso postura aberta, que muitas pessoas só se permitem durante as viagens. "O que fará uma pessoa se interessar por alguém não é a quantidade. O que ocorre é que em situação de viagens, férias, há disposição para o encontro. Sempre foi assim. A pessoa está ali para o prazer", avalia o psiquiatra e psicanalista Stélio Lage. No caso da capital mineira, isso é reforçado, de acordo com o psiquiatra, pelo fato de Belo Horizonte ter se tornado uma cidade do trabalho. "Isso cria uma abertura diferente das pessoas para o encontro, e nesse aspecto BH se aproxima do Rio de Janeiro e de São Paulo", acrescenta.


| DOMÍNIO FEMININO

São cerca de 425 mil mulheres com idade a paritr dos 10 anos a mais que homens vivendo sem a companhia de um cônjuge ou companheiro, na zona urbana de Minas




Além disso, para algumas mulheres, o fato de Belo Horizonte oferecer ambiente restrito, onde convivem círculos fechados de pessoas, com mais mulheres que homens em busca de um relacionamento, gera, no mínimo, algumas saias-justas. "É muito comum algum rapaz chegar a você, para conhecê-la melhor, e aí você lembra que ele é exnamorado de uma grande amiga, por exemplo. Isso não impede nada, mas cria, pelo menos para mim, um certo constrangimento", revela a estudante de administração Priscila Tavares. Para ela, a variável número de mulheres disponíveis versus o de homens solteiros interfere, sim, na questão afetiva. "É mais difícil criar um relacionamento estável com alguém, porque são tantas as mulheres... A gente sai e vê aquele bando de meninas sentadas sozinhas", lamenta. A estudante de Direito Fernanda Goulart reitera essa opinião: "Essa superoferta pode ser muito cômoda para alguns homens, e às vezes isso até gera insegurança quando a gente está namorando, já que muitos rapazes acabam preferindo não investir numa relação", acredita.

Bom, e o que os homens pensam disso? Como bons gentlemen, ninguém quer assumir o brado "oba!". Sutilmente, no entanto, eles deixam escapar que a notícia não chega a ser ruim. "Para os homens, é claro que isso é bom. A gente acaba conhecendo vários tipos de mulheres, cabeças diferentes, o que nos possibilita entendê-las melhor. Mas eu acredito em relacionamentos", observa o empresário mineiro Roger Machado. Na opinião do empresário, para os homens que têm o desejo de uma única pessoa ao lado, essa diferença numérica não significa muito. "Eu gosto de criar vínculos, de ter um amor, alguém em quem possa confiar e que me satisfaça em todos os sentidos. Mas tenho amigos que ficam três, quatro anos sem criar relacionamentos", declara.

E, para a surpresa das mulheres que pensam que o espírito de Dom Juan é dominante na alma masculina, são vários os que pensam como Roger. "É, ter mulheres a mais é bom, sim. Mas eu estou procurando uma para casar. E até acho que aqui em Minas será melhor para isso. Acho as mineiras mais interessantes que as paulistas", afirma o empresário paulista Beto Verre, que há seis meses trocou a cidade de São Paulo por Belo Horizonte, ao assumir uma empresa da família na capital mineira. Ele concorda com Roger. "Acho que essa diferença numérica entre homens e mulheres não interfere no momento de se criar um relacionamento. Eu, por exemplo, estou mais interessado na qualidade que na quantidade", brinca. No entanto, é claro que ele já observou essa diferença numérica. "Desde que cheguei, tenho saído pouco, vou mais a restaurantes. Mas sempre que saio vejo mesas com grupos de até dez meninas jantando sozinhas. Isso é muito comum aqui, chamou a minha atenção, e é algo que não acontece em São Paulo", compara.

Outro forasteiro que prefere tratar esses números com cuidado é o também empresário Renato Bernardes. Morador de Brasília, ele é habitué de Belo Horizonte, onde vem com freqüência a trabalho e, para unir o útil ao agradável, aproveita para curtir a noite. Ele avisa: "Essa quantidade a mais de mulheres não significa que as mineiras sejam mais fáceis. Ao contrário, acho que elas são mais seletivas. São muito inteligentes, têm abertura para nos conhecer e são simpáticas, mesmo quando não querem nada com um cidadão. Mas não dão mole, não. Agora, que há mais mulheres, comparando com Brasília ou outras cidades, isso há."

A percepção da predominância feminina em Belo Horizonte é reforçada por uma prática comum entre os promoteurs: a de convidar um número maior de mulheres para as festas. "Há eventos em que são convidadas até 60, 80 mulheres a mais. Fica uma discrepância tão grande entre a quantidade de meninas e rapazes que chega a ser um desrespeito ao público feminino", afirma a empresária Tatiana Gontijo, que tem como hobby promover algumas das mais badaladas e concorridas festas que acontecem em Belo Horizonte. Tatiana diz que equilibrar a quantidade de homens e mulheres em uma festa é um dos quesitos básicos para tornar o ambiente divertido para ambos os sexos. "Convidar um número um pouco maior de mulheres, vinte a mais, por exemplo, pode ser interessante, porque geralmente os homens ficam nas festas até mais tarde", explica.

Mas, será que a quantidade de homens e mulheres realmente é determinante para aproximar as pessoas? Na avaliação do psicanalista Stélio, a resposta para essa pergunta é não. "O que domina o encontro amoroso é de outra ordem que as leis de mercado. A lei da oferta e da procura não dá conta de explicar. O que cria a dimensão sexual não é o modelo social. A diferença numérica cria variáveis que podem interferir, mas não determinar os relacionamentos", acrescenta Stélio.

O que é determinante para os desencontros amorosos, na visão de Stélio, é a discrepância entre as lógicas feminina e masculina. "Historicamente, sempre foi assim", declara. A bailarina e coreógrafa Marta Guerra, que há sete anos viu-se novamente solteira, com o fim do casamento, concorda com esse ponto de vista. "Eu vejo mulheres de 20, de 30, de 40 e de 50 anos reclamando. Os objetivos entre homens e mulheres são, aparentemente, diferentes", comenta. Hoje envolvida em um namoro que já dura três anos, Marta acredita que, apesar dessa aparente diferença, no fundo ambos os sexos desejam a mesma coisa: "Uma relação estável. O problema é que as pessoas têm medo de se dar. De arriscar nas relações. Os homens principalmente", pensa.

Agora, é preciso reconhecer que a diferença na quantidade de homens e mulheres interfere no jogo amoroso por reforçar um dos aspectos do machismo: aquele que se refere à conquista seriada. "Para os conquistadores, uma oferta maior é muito cômoda, porque eles não querem cultivar relações ou criar vínculos. Já para quem quer criar uma relação estável, essa variável indicaria um prejuízo, como se os números conspirassem contra", avalia Stélio. Nesse sentido, a liberação sexual também tem a sua parcela de responsabilidade na tônica assumida hoje pelos relacionamentos. "Ir a uma boate e ficar com alguém não implica mais nem um telefonema no dia seguinte. A liberação sexual nas últimas décadas conduziu a relacionamentos mais fortuitos, passageiros, de puro escoamento do prazer sexual. E essa perspectiva da multidão favorece isso e afeta a todos", observa o psicanalista.

Apesar disso, além de abertura para o encontro, uma dose generosa de otimismo não faz mal a ninguém. "Toda panela tem a sua tampa. As mulheres não precisam se desesperar", declara a jornalista Fernanda Ribeiro, apresentadora do programa Agenda, da Rede Minas, que disse adeus à vida de solteira desde que encontrou uma tampa, digo, um namorado, declarando-se hoje "praticamente casada". Mas, ela já viveu na pele a experiência de ser uma solteira convicta em Belo Horizonte, cercada por mulheres solteiras de todos os lados. "Já cansei de ir a festas onde havia muito mais mulheres que homens, já saí muito em enormes turmas de amigas. Sei exatamente o que é isso", conta Fernanda. Mas, na opinião da jornalista, uma hora acaba rolando um encontro que pode ser definitivo.

Na avaliação de Fernanda, o que torna perceptível a grande presença do dito "sexo frágil" nas ruas são as conquistas femininas. "As mulheres hoje saem, têm seu dinheiro, seu trabalho. Estão em todos os lugares e não são mais criadas para ficar dentro de casa", ressalta. A bailarina Marta concorda."Nós investimos no lazer, no lado pessoal, na profissão. Queremos viver com alguém, mas sabemos nos virar sozinhas", acrescenta. De fato, uma questão que não pode ficar fora dessa discussão, na avaliação do psicanalista Stélio Lage, é a emancipação feminina. "A mulher, hoje, não se sujeita mais a comportamentos padrões que a colocavam numa posição de passividade, de ser a cortejada. Hoje ela tem uma posição mais ativa. Ao mesmo tempo, isso assusta os homens, que ainda querem ser os conquistadores. Ou seja, há uma desproporção entre o que mudou na lógica feminina e na masculina", sugere.

É por isso que a estatística que à primeira vista pode parecer desfavorável às mulheres solteiras não chega a abalar a estudante de arquitetura Fernanda Garcia. A jovem acredita que, apesar de Belo Horizonte oferecer um universo restrito, sendo comum as pessoas conviverem sempre com o mesmo círculo de amizades, ninguém sabe o que o destino nos aguarda. "Eu posso encontrar a pessoa numa boate, na casa da minha melhor amiga, na sala de aula. Posso conviver com um amigo há tempos e, de repente, pode surgir alguma coisa entre a gente", exemplifica. E completa: "Nós encontramos as pessoas certas, nos lugares certos, no momento certo. Tudo tem seu tempo", sintetiza.

Mas, o psicanalista Stélio Lage desconstrói essa idéia da futura arquiteta, para afirmar a posição de que o amor não cabe dentro da moldura do tempo e do espaço – assim como não pode ser engessado pelas leis de mercado. "O amor ultrapassa tudo isso: não há o momento certo, a hora certa ou o lugar certo. O amor é fora do tempo, é fora da hora, é fora do espaço", destaca. No entanto, ele concorda com Fernanda Garcia no que se refere ao acaso. "Você pode dobrar a esquina e de repente encontrar alguém que vai mudar o rumo da sua vida dali pra frente. O amor não é guiado por questões culturais ou sociais. É da ordem da fantasia, e é como um milagre. Acontece."

Bem, dito assim, afirmar que há muito mais mulheres em busca de um companheiro em Belo Horizonte não altera em nada a possibilidade de alguém encontrar um amor. Simplesmente porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Números são estatísticas. Já relacionamentos amorosos não cabem em tabelas, nem são captados por censos. Ainda bem.

  voltar   ir para o topo  
 
 
 
   
© Copyright 2004 Encontro Importante Editora Ltda. B2Web Design