
Machado: “A gente acaba conhecendo vários tipos de mulheres.
Isto é bom. Passamos a entendê-las melhor”

As amigas Luciana Campos, Juliana Rocha e Luciana Pereira
saem sempre juntas: apesar da beleza do trio, poucas
expectativas de arrumar namorado em função da oferta
reduzida

A estudante Fernanda Garcia: apesar do universo masculino
restrito, ela acredita que um novo amor pode surgir
quando menos se espera. Alguém duvida?

O paulista Beto Verre: “Em BH, é comum ver mesas com
até 10 mulheres em restaurantes, coisa difícil na cidade
de São Paulo”
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CAPA
ESTÁ SOBRANDO MULHER
Basta uma percorrida por restaurantes e bares
da moda em BH para comprovar esta tese
DANIELE HOSTALÁCIO
Está sobrando mulher. A afirmativa,
que pode despertar sentimentos diversos, é apenas uma
referência a um dado do IBGE, coletado a partir de estudos
realizados pelo último censo, que indica que em Minas
Gerais há uma significativa desproporção entre o número
de homens e mulheres "disponíveis" – incluindo nesse
rol os solteiros, os divorciados, os desquitados e os
viúvos. O predomínio absoluto é do público feminino.
Para ser mais precisa, não vivem na companhia de um
cônjuge ou de um companheiro, nos centros urbanos de
Minas Gerais, 3.391.782 mulheres com 10 anos de idade
ou mais, contra 2.966.737 homens. Uma continha rápida
nos faz chegar à seguinte conclusão: é quase meio milhão
de mulheres sozinhas, a mais.
Para os conquistadores de plantão, a notícia soa como
um bálsamo para os ouvidos. Para as moçoilas casadoiras,
como uma prova da injustiça divina. Afinal, se cada
um procura seu par, essa desproporção indica que muitas
mineiras tendem a ficar na mão, a não se que se aventurem
a migrar por outras paragens, já que a estatística local
vai na contramão dos outros centros urbanos do país.
Em São Paulo, por exemplo, na faixa etária em que ocorre
o maior número de casamentos, dos 18 aos 29 anos, há
número 26% maior de homens solteiros. Isso significa
que, para cada grupo de 100 mulheres sozinhas, há 126
homens na mesma situação.
Mas, voltando o olhar para a paisagem mineira, o cenário
é desolador para algumas jovens. O trio formado pela
estudante de administração Juliana Rocha, a publicitária
Luciana Campos e a administradora Luciana Pereira, por
exemplo, diz que não era preciso o censo para se chegar
a essa triste conclusão. O excesso de mulheres em Belo
Horizonte é, para elas, notório, salta aos olhos e não
escapa nem à mais distraída percepção. "Homem é escasso
no mercado, a demanda é certamente maior", brinca a
publicitária. As três amigas gostam de sair juntas para
dançar, encontrar amigos, se divertir. "Mas eu saio
sem a expectativa de conseguir um namorado. A gente
vive em um círculo fechado, todo mundo conhece todo
mundo, e os rapazes que existem já têm namorada", reclama
Juliana. No que é corroborada pela amiga Luciana: "É,
BH não tem futuro. Para encontrar alguém, a gente tem
que fazer viagens."
Viajar para encontrar um par pode parecer exagero, mas
acaba dando certo. Nem tanto pela escassez de homens
por estas plagas, mas porque para criar um relacionamento
é preciso postura aberta, que muitas pessoas só se permitem
durante as viagens. "O que fará uma pessoa se interessar
por alguém não é a quantidade. O que ocorre é que em
situação de viagens, férias, há disposição para o encontro.
Sempre foi assim. A pessoa está ali para o prazer",
avalia o psiquiatra e psicanalista Stélio Lage. No caso
da capital mineira, isso é reforçado, de acordo com
o psiquiatra, pelo fato de Belo Horizonte ter se tornado
uma cidade do trabalho. "Isso cria uma abertura diferente
das pessoas para o encontro, e nesse aspecto BH se aproxima
do Rio de Janeiro e de São Paulo", acrescenta.
| DOMÍNIO
FEMININO
São cerca de 425 mil mulheres com idade a paritr dos
10 anos a mais que homens vivendo sem a companhia de
um cônjuge ou companheiro, na zona urbana de Minas

Além disso, para algumas mulheres, o fato de Belo Horizonte
oferecer ambiente restrito, onde convivem círculos fechados
de pessoas, com mais mulheres que homens em busca de
um relacionamento, gera, no mínimo, algumas saias-justas.
"É muito comum algum rapaz chegar a você, para conhecê-la
melhor, e aí você lembra que ele é exnamorado de uma
grande amiga, por exemplo. Isso não impede nada, mas
cria, pelo menos para mim, um certo constrangimento",
revela a estudante de administração Priscila Tavares.
Para ela, a variável número de mulheres disponíveis
versus o de homens solteiros interfere, sim, na questão
afetiva. "É mais difícil criar um relacionamento estável
com alguém, porque são tantas as mulheres... A gente
sai e vê aquele bando de meninas sentadas sozinhas",
lamenta. A estudante de Direito Fernanda Goulart reitera
essa opinião: "Essa superoferta pode ser muito cômoda
para alguns homens, e às vezes isso até gera insegurança
quando a gente está namorando, já que muitos rapazes
acabam preferindo não investir numa relação", acredita.
Bom, e o que os homens pensam disso? Como bons gentlemen,
ninguém quer assumir o brado "oba!". Sutilmente, no
entanto, eles deixam escapar que a notícia não chega
a ser ruim. "Para os homens, é claro que isso é bom.
A gente acaba conhecendo vários tipos de mulheres, cabeças
diferentes, o que nos possibilita entendê-las melhor.
Mas eu acredito em relacionamentos", observa o empresário
mineiro Roger Machado. Na opinião do empresário, para
os homens que têm o desejo de uma única pessoa ao lado,
essa diferença numérica não significa muito. "Eu gosto
de criar vínculos, de ter um amor, alguém em quem possa
confiar e que me satisfaça em todos os sentidos. Mas
tenho amigos que ficam três, quatro anos sem criar relacionamentos",
declara.
E, para a surpresa das mulheres que pensam que o espírito
de Dom Juan é dominante na alma masculina, são vários
os que pensam como Roger. "É, ter mulheres a mais é
bom, sim. Mas eu estou procurando uma para casar. E
até acho que aqui em Minas será melhor para isso. Acho
as mineiras mais interessantes que as paulistas", afirma
o empresário paulista Beto Verre, que há seis meses
trocou a cidade de São Paulo por Belo Horizonte, ao
assumir uma empresa da família na capital mineira. Ele
concorda com Roger. "Acho que essa diferença numérica
entre homens e mulheres não interfere no momento de
se criar um relacionamento. Eu, por exemplo, estou mais
interessado na qualidade que na quantidade", brinca.
No entanto, é claro que ele já observou essa diferença
numérica. "Desde que cheguei, tenho saído pouco, vou
mais a restaurantes. Mas sempre que saio vejo mesas
com grupos de até dez meninas jantando sozinhas. Isso
é muito comum aqui, chamou a minha atenção, e é algo
que não acontece em São Paulo", compara.
Outro forasteiro que prefere tratar esses números com
cuidado é o também empresário Renato Bernardes. Morador
de Brasília, ele é habitué de Belo Horizonte,
onde vem com freqüência a trabalho e, para unir o útil
ao agradável, aproveita para curtir a noite. Ele avisa:
"Essa quantidade a mais de mulheres não significa que
as mineiras sejam mais fáceis. Ao contrário, acho que
elas são mais seletivas. São muito inteligentes, têm
abertura para nos conhecer e são simpáticas, mesmo quando
não querem nada com um cidadão. Mas não dão mole, não.
Agora, que há mais mulheres, comparando com Brasília
ou outras cidades, isso há."
A percepção da predominância feminina em Belo Horizonte
é reforçada por uma prática comum entre os promoteurs:
a de convidar um número maior de mulheres para as festas.
"Há eventos em que são convidadas até 60, 80 mulheres
a mais. Fica uma discrepância tão grande entre a quantidade
de meninas e rapazes que chega a ser um desrespeito
ao público feminino", afirma a empresária Tatiana Gontijo,
que tem como hobby promover algumas das mais badaladas
e concorridas festas que acontecem em Belo Horizonte.
Tatiana diz que equilibrar a quantidade de homens e
mulheres em uma festa é um dos quesitos básicos para
tornar o ambiente divertido para ambos os sexos. "Convidar
um número um pouco maior de mulheres, vinte a mais,
por exemplo, pode ser interessante, porque geralmente
os homens ficam nas festas até mais tarde", explica.
Mas, será que a quantidade de homens e mulheres realmente
é determinante para aproximar as pessoas? Na avaliação
do psicanalista Stélio, a resposta para essa pergunta
é não. "O que domina o encontro amoroso é de
outra ordem que as leis de mercado. A lei da oferta
e da procura não dá conta de explicar. O que cria a
dimensão sexual não é o modelo social. A diferença numérica
cria variáveis que podem interferir, mas não determinar
os relacionamentos", acrescenta Stélio.
O que é determinante para os desencontros amorosos,
na visão de Stélio, é a discrepância entre as lógicas
feminina e masculina. "Historicamente, sempre foi assim",
declara. A bailarina e coreógrafa Marta Guerra, que
há sete anos viu-se novamente solteira, com o fim do
casamento, concorda com esse ponto de vista. "Eu vejo
mulheres de 20, de 30, de 40 e de 50 anos reclamando.
Os objetivos entre homens e mulheres são, aparentemente,
diferentes", comenta. Hoje envolvida em um namoro que
já dura três anos, Marta acredita que, apesar dessa
aparente diferença, no fundo ambos os sexos desejam
a mesma coisa: "Uma relação estável. O problema é que
as pessoas têm medo de se dar. De arriscar nas relações.
Os homens principalmente", pensa.
Agora, é preciso reconhecer que a diferença na quantidade
de homens e mulheres interfere no jogo amoroso por reforçar
um dos aspectos do machismo: aquele que se refere à
conquista seriada. "Para os conquistadores, uma oferta
maior é muito cômoda, porque eles não querem cultivar
relações ou criar vínculos. Já para quem quer criar
uma relação estável, essa variável indicaria um prejuízo,
como se os números conspirassem contra", avalia Stélio.
Nesse sentido, a liberação sexual também tem a sua parcela
de responsabilidade na tônica assumida hoje pelos relacionamentos.
"Ir a uma boate e ficar com alguém não implica mais
nem um telefonema no dia seguinte. A liberação sexual
nas últimas décadas conduziu a relacionamentos mais
fortuitos, passageiros, de puro escoamento do prazer
sexual. E essa perspectiva da multidão favorece isso
e afeta a todos", observa o psicanalista.
Apesar disso, além de abertura para o encontro, uma
dose generosa de otimismo não faz mal a ninguém. "Toda
panela tem a sua tampa. As mulheres não precisam se
desesperar", declara a jornalista Fernanda Ribeiro,
apresentadora do programa Agenda, da Rede Minas, que
disse adeus à vida de solteira desde que encontrou uma
tampa, digo, um namorado, declarando-se hoje "praticamente
casada". Mas, ela já viveu na pele a experiência de
ser uma solteira convicta em Belo Horizonte, cercada
por mulheres solteiras de todos os lados. "Já cansei
de ir a festas onde havia muito mais mulheres que homens,
já saí muito em enormes turmas de amigas. Sei exatamente
o que é isso", conta Fernanda. Mas, na opinião da jornalista,
uma hora acaba rolando um encontro que pode ser definitivo.
Na avaliação de Fernanda, o que torna perceptível a
grande presença do dito "sexo frágil" nas ruas são as
conquistas femininas. "As mulheres hoje saem, têm seu
dinheiro, seu trabalho. Estão em todos os lugares e
não são mais criadas para ficar dentro de casa", ressalta.
A bailarina Marta concorda."Nós investimos no lazer,
no lado pessoal, na profissão. Queremos viver com alguém,
mas sabemos nos virar sozinhas", acrescenta. De fato,
uma questão que não pode ficar fora dessa discussão,
na avaliação do psicanalista Stélio Lage, é a emancipação
feminina. "A mulher, hoje, não se sujeita mais a comportamentos
padrões que a colocavam numa posição de passividade,
de ser a cortejada. Hoje ela tem uma posição mais ativa.
Ao mesmo tempo, isso assusta os homens, que ainda querem
ser os conquistadores. Ou seja, há uma desproporção
entre o que mudou na lógica feminina e na masculina",
sugere.
É por isso que a estatística que à primeira vista pode
parecer desfavorável às mulheres solteiras não chega
a abalar a estudante de arquitetura Fernanda Garcia.
A jovem acredita que, apesar de Belo Horizonte oferecer
um universo restrito, sendo comum as pessoas conviverem
sempre com o mesmo círculo de amizades, ninguém sabe
o que o destino nos aguarda. "Eu posso encontrar a pessoa
numa boate, na casa da minha melhor amiga, na sala de
aula. Posso conviver com um amigo há tempos e, de repente,
pode surgir alguma coisa entre a gente", exemplifica.
E completa: "Nós encontramos as pessoas certas, nos
lugares certos, no momento certo. Tudo tem seu tempo",
sintetiza.
Mas, o psicanalista Stélio Lage desconstrói essa idéia
da futura arquiteta, para afirmar a posição de que o
amor não cabe dentro da moldura do tempo e do espaço
– assim como não pode ser engessado pelas leis de mercado.
"O amor ultrapassa tudo isso: não há o momento certo,
a hora certa ou o lugar certo. O amor é fora do tempo,
é fora da hora, é fora do espaço", destaca. No entanto,
ele concorda com Fernanda Garcia no que se refere ao
acaso. "Você pode dobrar a esquina e de repente encontrar
alguém que vai mudar o rumo da sua vida dali pra frente.
O amor não é guiado por questões culturais ou sociais.
É da ordem da fantasia, e é como um milagre. Acontece."
Bem, dito assim, afirmar que há muito mais mulheres
em busca de um companheiro em Belo Horizonte não altera
em nada a possibilidade de alguém encontrar um amor.
Simplesmente porque uma coisa não tem nada a ver com
a outra. Números são estatísticas. Já relacionamentos
amorosos não cabem em tabelas, nem são captados por
censos. Ainda bem.
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