Março - 2004 - Ano II - nº 25 Anuncie na Encontro Fale Conosco Receba a Encontro
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CRONISTA EDUARDO ALMEIDA REIS*


MUDAM-SE OS TEMPOS

“Problemas que hoje nos comovem e irritam são muito mais velhos do que a Sé de Braga, sinônimo de coisa que data de muito longe”

No país dos meus sonhos, cronistas não estudariam História. Explico: o cronista interage com o meio e vai dando seus palpites de acordo com o que vê, ouve e sente. Nessa escritura, fala de tudo e todos, mete-se onde não é chamado, opina sobre assuntos complexos com a sem-cerimônia de um passarinho que faz cocô em vôo. Em sua justa indignação, desde que sincera, pensa que tem o poder de mudar o mundo a partir de quatro ou cinco centenas de palavras alinhavadas à pressa. Eventualmente produz tolices e comete injustiças. Só não diz tolices quem não abre a boca, o que absolutamente não quer dizer que todas as opiniões de um cronista sejam tolas. O importante, o fundamental é que seja honesto no seu opinar. Jogar para a arquibancada, escrever aquilo que os outros querem ler, pode ser muito simpático, mas é desonesto, medíocre e muito fácil.

Onde o inconveniente da leitura de História? Ora, descobrir que os problemas que, hoje, nos comovem e irritam, são muito mais velhos do que a Sé de Braga, sinônimo de coisa que data de muito longe e pode ter existência várias vezes secular.

Assuntos como: * êxodo rural e inchaço das cidades; * desemprego urbano; * os pobres cada vez mais pobres; * os ricos na abundância e no luxo; * o individualismo desenfreado e a sede de riqueza funcionando como meio de chegar ao poder; * baixelas de prata, jóias, tapetes e estátuas do Oriente enfeitando as casas; * prostituição infantil; * velhos atropelando mocinhas; * florescimento de seitas religiosas; * ciganaria desenfreada; * o Estado dependendo da ajuda dos capitais privados; * a juventude preferindo os prazeres da cidade ao duro labor dos campos; * a riqueza mobiliária suplantando a antiga riqueza em terras; * o rico se escraviza à moda e só a exibição do luxo lhe permite merecer consideração social; * o amor livre supera a moral da família e do casamento; * o adultério passa a integrar os costumes, de tal forma que as leis que o coibiam deixam de surtir efeito; * a família se desagrega e a própria noção de casamento perde o sentido; * a sociedade passa a ter duas classes apenas: os ricos e os pobres.

Não creia o leitor que me refiro aos costumes da sociedade brasileira deste início de século XXI, porque relacionei acima a situação de Roma dois séculos antes de Cristo! E tudo vai contado no livro Os prazeres de Roma, do historiador Jean-Noël Robert, edições Martins Fontes.

Havia, também, o problema da insegurança generalizada. Os ricos só se movimentavam, na falta de carros blindados, cercados de uma parafernália de segurança a que o próprio César, morto 44 anos antes de nossa era, não chegou a recorrer.

Cícero, que era sujeito bacana e morreu um ano depois de César, mandou construir no Palatino, nas colinas de Roma, uma casa de três milhões de sestércios, qualquer coisa equivalente a um milhão e trezentos mil euros. E tinha mais de oito residências, entre as quais a casa da família, em Arpino, a de Túsculo e as villas de Formia, Âncio, Pompéia e Cumas. A origem da raiva de seus discursos contra Lucius Sergius Catilina deve estar aí, nas oito casas, com um mínimo de oito caseiros, oito cozinheiras, oito arrumadeiras, oito IPTUs, fora o IPVA e o seguro obrigatório das bigas. É mole ou quer mais?

Sim, porque se quiser mais posso lembrar o discurso de posse de um secretário de Interior de Minas: "...alinhou seu programa de governo à frente da secretaria do Interior, em especial no campo de assistência aos menores, ação que não comportava mais delongas, e da reforma do regime penitenciário, ambas proposições marcadas pela urgência."

Assistência aos menores e sistema penitenciário em frangalhos, não no governo Aécio Neves, mas em setembro de 1936, no discurso de posse do secretário José Maria Alkmim, como aprendi no ótimo livro do meu confrade e amigo Murilo Badaró: José Maria Alkmin, uma biografia, Editora Nova Fronteira.

De tanto que se empenhou no estudo da problemática penitenciária e na construção da Penitenciária Agrícola de Neves, próxima de Belo Horizonte, o excelente Alkmim acabou levando uma rasteira do governador Benedito Valadares, que o nomeou de surpresa para dirigir o estabelecimento prisional, vingando-se dos elogios que seu secretário do Interior, com pureza de alma, fizera à beleza de uma jovem senhora que o governador andaria paquerando.


(*) Eduardo Almeida Reis não é conselheiro do Tribunal de Contas de MG, nem trabalhador na fabricação de margarina em Nanuque.

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