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CRONISTA
EDUARDO ALMEIDA REIS*
MUDAM-SE
OS TEMPOS
“Problemas
que hoje nos comovem e irritam são muito mais velhos
do que a Sé de Braga, sinônimo de coisa que data de
muito longe”
No país dos meus sonhos, cronistas não estudariam História.
Explico: o cronista interage com o meio e vai dando
seus palpites de acordo com o que vê, ouve e sente.
Nessa escritura, fala de tudo e todos, mete-se onde
não é chamado, opina sobre assuntos complexos com a
sem-cerimônia de um passarinho que faz cocô em vôo.
Em sua justa indignação, desde que sincera, pensa que
tem o poder de mudar o mundo a partir de quatro ou cinco
centenas de palavras alinhavadas à pressa. Eventualmente
produz tolices e comete injustiças. Só não diz tolices
quem não abre a boca, o que absolutamente não quer dizer
que todas as opiniões de um cronista sejam tolas. O
importante, o fundamental é que seja honesto no seu
opinar. Jogar para a arquibancada, escrever aquilo que
os outros querem ler, pode ser muito simpático, mas
é desonesto, medíocre e muito fácil.
Onde o inconveniente da leitura de História? Ora, descobrir
que os problemas que, hoje, nos comovem e irritam, são
muito mais velhos do que a Sé de Braga, sinônimo de
coisa que data de muito longe e pode ter existência
várias vezes secular.
Assuntos como: * êxodo rural e inchaço das cidades;
* desemprego urbano; * os pobres cada vez mais pobres;
* os ricos na abundância e no luxo; * o individualismo
desenfreado e a sede de riqueza funcionando como meio
de chegar ao poder; * baixelas de prata, jóias, tapetes
e estátuas do Oriente enfeitando as casas; * prostituição
infantil; * velhos atropelando mocinhas; * florescimento
de seitas religiosas; * ciganaria desenfreada; * o Estado
dependendo da ajuda dos capitais privados; * a juventude
preferindo os prazeres da cidade ao duro labor dos campos;
* a riqueza mobiliária suplantando a antiga riqueza
em terras; * o rico se escraviza à moda e só a exibição
do luxo lhe permite merecer consideração social; * o
amor livre supera a moral da família e do casamento;
* o adultério passa a integrar os costumes, de tal forma
que as leis que o coibiam deixam de surtir efeito; *
a família se desagrega e a própria noção de casamento
perde o sentido; * a sociedade passa a ter duas classes
apenas: os ricos e os pobres.
Não creia o leitor que me refiro aos costumes da sociedade
brasileira deste início de século XXI, porque relacionei
acima a situação de Roma dois séculos antes de Cristo!
E tudo vai contado no livro Os prazeres de Roma, do
historiador Jean-Noël Robert, edições Martins Fontes.
Havia, também, o problema da insegurança generalizada.
Os ricos só se movimentavam, na falta de carros blindados,
cercados de uma parafernália de segurança a que o próprio
César, morto 44 anos antes de nossa era, não chegou
a recorrer.
Cícero, que era sujeito bacana e morreu um ano depois
de César, mandou construir no Palatino, nas colinas
de Roma, uma casa de três milhões de sestércios, qualquer
coisa equivalente a um milhão e trezentos mil euros.
E tinha mais de oito residências, entre as quais a casa
da família, em Arpino, a de Túsculo e as villas de Formia,
Âncio, Pompéia e Cumas. A origem da raiva de seus discursos
contra Lucius Sergius Catilina deve estar aí, nas oito
casas, com um mínimo de oito caseiros, oito cozinheiras,
oito arrumadeiras, oito IPTUs, fora o IPVA e o seguro
obrigatório das bigas. É mole ou quer mais?
Sim, porque se quiser mais posso lembrar o discurso
de posse de um secretário de Interior de Minas: "...alinhou
seu programa de governo à frente da secretaria do Interior,
em especial no campo de assistência aos menores, ação
que não comportava mais delongas, e da reforma do regime
penitenciário, ambas proposições marcadas pela urgência."
Assistência aos menores e sistema penitenciário em frangalhos,
não no governo Aécio Neves, mas em setembro de 1936,
no discurso de posse do secretário José Maria Alkmim,
como aprendi no ótimo livro do meu confrade e amigo
Murilo Badaró: José Maria Alkmin, uma biografia, Editora
Nova Fronteira.
De tanto que se empenhou no estudo da problemática penitenciária
e na construção da Penitenciária Agrícola de Neves,
próxima de Belo Horizonte, o excelente Alkmim acabou
levando uma rasteira do governador Benedito Valadares,
que o nomeou de surpresa para dirigir o estabelecimento
prisional, vingando-se dos elogios que seu secretário
do Interior, com pureza de alma, fizera à beleza de
uma jovem senhora que o governador andaria paquerando.
(*) Eduardo Almeida Reis não é conselheiro
do Tribunal de Contas de MG, nem trabalhador na fabricação
de margarina em Nanuque.
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