

“Na pasta de Turismo estou igual rato no fubá,com os
bigodinhos vibrando de tanta satisfação ”
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ENTREVISTA
META
OUSADA
O
ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, diz não
sossegar enquanto não atingir os 8 bilhões de dólares
em divisas que traçou para sua pasta. Apoio do governo
é o que não lhe falta
LUCINÉIA PACHECO
Omineiro Walfrido dos Mares Guia não é apenas o ministro
do Turismo ou um empresário bem sucedido. Desde que
assumiu o Ministério, é também um turista de negócios.
De segunda a sexta-feira mora num hotel em Brasília
e nos finais de semana volta para casa, em Belo Horizonte.
Pessoas como ele e tantas outras, que saem de casa para
trabalhar ou se divertir, são a razão da existência
do Ministério do Turismo. Assim como os alunos são a
razão de existir do Pitágoras, empresa que Mares Guia
conseguiu transformar numa das maiores instituições
de ensino do país. Sucesso nos negócios, a entrada na
política aconteceu naturalmente. E, de novo, ele se
deu bem. Foi vice-governador, secretário de Estado,
deputado federal e agora tem a missão de transformar
o turismo brasileiro numa atividade rentável, lucrativa
e geradora de empregos. Convidado para o Ministério,
ele conta que ouviu críticas de que o PTB teria recebido
uma pasta pouco importante. Não concorda: "Não existe
ministério pequeno, o ministério é do tamanho do ministro."
Mal sabiam os críticos que o turismo estaria entre as
dez prioridades do governo. Mares Guia goza de prestígio
junto ao presidente Lula. Talvez haja razões para isso.
Há apenas quatro meses no cargo, em abril do ano passado,
o ministro apresentou ao chefe um ousado plano para
o desenvolvimento do turismo brasileiro, o Plano Nacional
de Turismo (PNT). Um documento muito bem estruturado,
com metas e prazos estabelecidos, que reuniu idéias
de vários organismos ligados ao setor. "Turismo é um
negócio e deve ser tratado como tal", afirma o ministro.
Encontro – Explique, em linhas gerais, o que
é o Plano Nacional do Turismo e como o senhor pretende
atingir as metas estabelecidas.
Mares Guia – Este é um plano ambicioso que contempla
metas econômicas e pretende gerar 1,2 milhão de empregos
até 2007, atrair 9 milhões de turistas internacionais
e, por conseguinte, um ingresso de divisas no país da
ordem de 8 bilhões de dólares. Ele visa a aumentar consideravelmente
o número de brasileiros que viajam para conhecer o Brasil,
seja através do turismo de negócios, de eventos, de
lazer ou de incentivo, o que vamos medir com o desembarque
doméstico. Entendemos que o turismo é um negócio, o
maior negócio do mundo, o que mais cresce e o que mais
gera empregos e representa 10% do PIB mundial. Por isso,
o Ministério de Turismo foi criado com um viés para
desenvolvimento social, de forma a gerar empregos, distribuir
renda e geração de divisas.
Encontro – Como o senhor pretende superar o
desafio de levar os turistas para os locais que sabemos
que têm potencial, mas não são explorados?
Mares Guia – Nosso plano contempla, no mínimo,
a criação de três produtos turísticos de classe internacional
em cada Estado. Essa meta é importante porque todos
os estados brasileiros têm potencial turístico. Visitei
todos e instalei o Fórum Estadual de Turismo nos 26
estados e no Distrito Federal.
Encontro – Qual o investimento previsto para
o Plano Nacional de Turismo e a engenharia financeira
para colocá-lo em prática?
Mares Guia – Para criar 1,2 milhão de empregos,
precisamos de 18 bilhões de reais de investimentos em
quatro anos. Desse total, 3 bilhões de reais vêm do
governo, são recursos provenientes do Prodetur, através
de investimentos em infra-estrututura e desenvolvimento
das regiões que abrange. Temos também o orçamento da
União, que é de 200 milhões de reais por ano. Somadas
as emendas dos deputados teremos 1 bilhão de reais nesses
quatro anos. Outros 14 bilhões virão da iniciativa privada.
O BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e
os três fundos constitucionais – Fundo Nordeste, Fundo
Centro-Oeste e Fundo Norte – disponibilizam, a partir
deste ano, no mínimo 2 bilhões de reais por ano em forma
de linhas de financiamento. Em quatro anos, disponibilizarão
de 8 a 10 milhões de reais. Tem também o capital dos
investidores nacionais e estrangeiros, que em quatro
anos deve ultrapassar 4 bilhões de reais.
Encontro – Particularmente para Minas Gerais,quais são
os planos?
Mares Guia – Existe um projeto correto em Minas,
com começo, meio e fim, que é a Estrada Real. Vamos
investir muito trabalho e prestígio em parceria com
o governo estadual e a Fiemg nesse projeto, que é estruturante
e gera, sozinho, 178 mil empregos nestas 177 cidades
que compõem a Estrada Real, sendo 162 em Minas. Além
disso, Minas tem potencial para ecoturismo, turismo
de aventura, balneários, estações hidrominerais. Acho
que é o momento dos prefeitos e dos governos estadual
e federal se darem as mãos para o desenvolvimento do
turismo em Minas.
Encontro – Fale mais sobre as linhas de créditos específicas
para o turismo.
Mares Guia – É um programa desenvolvido
com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).
É dinheiro baratíssimo, com ativos fixos e possibilidade
de desconto de recebíveis. Essas linhas estão sendo
implantadas. A Caixa Econômica Federal implantou o Caixa
Turismo, R$ 400 milhões de reais por ano. Se alguém
quer montar uma pizzaria, uma pousada ou comprar um
jipe para usar no turismo, terá uma linha de financiamento.
A dificuldade existe porque é preciso um registro, um
projeto para que o dinheiro possa ser liberado. É aí
que entra o Sebrae, para ajudar os microempresários.
Encontro – Quando o PNT foi lançado, em abril
do ano passado,já havia metas estabelecidas para 2003.
Como ficaram essas metas 10 meses após o lançamento
do plano?
Mares Guia – Todos os programas estão
em andamento e as metas para 2003 foram alcançadas.
Aumentamos em 500 mil o número de turistas estrangeiros
e em 550 milhões de dólares a entrada de divisas, segundo
números oficiais do Banco Central. Organizamos feiras
no exterior, reunimo- nos exaustivamente com os bancos
para viabilizar as linhas de financiamento, temos seis
escritórios da Embratur na Europa. Estamos trabalhando
em todos os sete macroprogramas.
Encontro – O senhor tem se mostrado
desfavorável à exigência do visto para os norte-americanos.Por
quê?
Mares Guia – Sou absolutamente desfavorável.
A reciprocidade tem de ser feita com inteligência para
o benefício do país. Os americanos impuseram visto prévio
aos brasileiros com a cobrança de 100 dólares porque
existe uma imigração forçada do Brasil para os EUA.
Não existe fluxo migratório contrário. Apenas 650 mil
americanos vêm ao Brasil por ano, acho que devem vir
de 1,5 a 2 milhões. Se cobramos 100 dólares pelo visto,
um norte-americano com a mulher e dois filhos vai gastar
400 dólares. Com esse dinheiro, ele compra um pacote
e vai para o Caribe.
Encontro – E quanto ao fichamento, qual sua opinião?
Mares Guia – O fichamento foi uma decisão judicial,
mas quando foi referendado pelo governo eu fui a favor.
Acho que o fichamento de alta tecnologia é simples,
rápido, não expõe ninguém e dá mais segurança. O problema
é que a decisão judicial tinha que ser cumprida, a polícia
federal não estava preparada e usou tinta preta. É um
processo medieval, uma maneira de fichar criminoso.
Encontro – Houve constrangimento com algum colega de
ministério por causa dessa sua posição em relação ao
visto?
Mares Guia – Não. Tenho que defender
a vinda de turistas para o Brasil. Esse é meu ponto
de vista e respeito o do Itamaraty por querer a reciprocidade.
Mas acho que reciprocidade não é olho por olho, dente
por dente. É criar, através dos instrumentos que a lei
permite, condições de tirar vantagens para o país, sem
ter que se submeter.
Encontro – Vamos falar de política. Como o senhor
avalia os 14 meses de governo Lula?
Mares Guia – Conheço o Lula pessoalmente
há exatamente um ano e dois meses. É uma pessoa extraordinária,
objetiva que tem meta e determinação para fazer as coisas
acontecerem. Tem princípios importantes como correção,
vontade de ajudar os pobres sem demagogia e com seriedade.
Com coragem, ele pegou um país desacreditado no exterior
e em um ano reverteu tudo. Com muita competência, o
PT ampliou a base de apoio e hoje tem maioria no congresso.
Primeiro ele domou a fera e agora começa a retomada
do crescimento.
Encontro – Sabemos que o senhor trabalha com metas.
Quais as metas políticas do Walfrido?
Mares Guia – Eu já havia decidido sair
da vida pública com mandato. Meu perfil é de executivo.
O Pitágoras vai bem e crescerá muito. Continuaria no
PTB, mas sem mandato, foi isso que combinei com meus
colegas. Quando o presidente me convidou pra ser ministro
eu não pude recusar.
Encontro – Chegou-se a comentar que o senhor
seria candidato a prefeito de BH. É verdade?
Mares Guia – Não. Temos um candidato
que é o Ronaldo Vansconcelos. Não está nos meus planos
disputar um mandado, a não ser que seja para ajudar
uma coalizão eleitoral. Mas se não precisar, não disputarei.
Encontro – O senhor tem espírito de liderança
e disse que prefere cargo executivo. Gostaria de governar
Minas?
Mares Guia – Qualquer homem público
que pensa grande como eu gostaria de ser governador.
Eu já pensei nisso, e a minha oportunidade seria em
98, mas apoiamos a reeleição. Daqui pra frente, trabalhamos
para fortalecer as alianças e uma delas é com o Aécio
Neves, que provavelmente será candidato à reeleição.
Eu não cogito de me candidatar a governador.
Encontro – Se pudesse ser ministro de outra
pasta,qual escolheria?
Mares Guia – O turismo é um negócio
tão importante que acho que ganhei do Lula um presente.
Muita gente criticou, disse que a pasta é pequena, com
pouca visibilidade. Acho isso bobagem, não existe ministério
pequeno. O ministério é do tamanho do ministro. Não
posso ser ministro da Educação porque há conflito de
interesses por causa do Pitágoras. A verdade é que estou
igual rato no fubá, com os bigodinhos vibrando de tanta
satisfação.
Encontro – O Walfrido empresário considera boa
a reforma tributária?
Mares Guia – Na verdade a reforma
não começou. Só teve imposto até agora. O que
vem aí acho que vai funcionar. A principal mudança é
uma legislação única para o ICMS nacional porque acaba
com guerra fiscal, caixa dois e cria uma só alíquota.
Acredito nessa reforma tributária e acho que ela tem
que desonerar a folha de pagamentos o mais depressa
possível. Da forma que ela é feita hoje induz a micro
e pequena média empresa à informalidade. A folha tem
que ser só o salário do trabalhador, com isso é possível
diminuir a informalidade. A reforma melhora, mas não
resolve todos os problemas, pois nossa base tributária
ainda é complexa.
Encontro – Como o senhor avalia a queda de popularidade
do governo Lula e o escândalo recente envolvendo um
assessor próximo do ministro Dirceu?
Mares Guia – O presidente tem uma popularidade
extraordinária, ainda tem o reconhecimento de mais da
metade da população, apesar da pequena queda. Qualquer
outro presidente que tivesse feito o que ele fez estaria
com 25%. O Lula teve a coragem de colocar o país no
eixo e o povo confia nele. Enxergo isso como diminuição
da euforia inicial. Sobre o assessor, acho que a Polícia
Federal tem de investigar e puni-lo, como a todos que
saem da linha. Ele poderia ser assessor de qualquer
ministro, nenhum de nós está isento de ter uma pessoa
que num certo momento tenha escolhido o mal caminho.
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