Março - 2004 - Ano II - nº 25 Anuncie na Encontro Fale Conosco Receba a Encontro
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“Na pasta de Turismo estou igual rato no fubá,com os bigodinhos vibrando de tanta satisfação ”

 

ENTREVISTA


META OUSADA


O ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, diz não sossegar enquanto não atingir os 8 bilhões de dólares em divisas que traçou para sua pasta. Apoio do governo é o que não lhe falta

LUCINÉIA PACHECO

Omineiro Walfrido dos Mares Guia não é apenas o ministro do Turismo ou um empresário bem sucedido. Desde que assumiu o Ministério, é também um turista de negócios. De segunda a sexta-feira mora num hotel em Brasília e nos finais de semana volta para casa, em Belo Horizonte. Pessoas como ele e tantas outras, que saem de casa para trabalhar ou se divertir, são a razão da existência do Ministério do Turismo. Assim como os alunos são a razão de existir do Pitágoras, empresa que Mares Guia conseguiu transformar numa das maiores instituições de ensino do país. Sucesso nos negócios, a entrada na política aconteceu naturalmente. E, de novo, ele se deu bem. Foi vice-governador, secretário de Estado, deputado federal e agora tem a missão de transformar o turismo brasileiro numa atividade rentável, lucrativa e geradora de empregos. Convidado para o Ministério, ele conta que ouviu críticas de que o PTB teria recebido uma pasta pouco importante. Não concorda: "Não existe ministério pequeno, o ministério é do tamanho do ministro." Mal sabiam os críticos que o turismo estaria entre as dez prioridades do governo. Mares Guia goza de prestígio junto ao presidente Lula. Talvez haja razões para isso. Há apenas quatro meses no cargo, em abril do ano passado, o ministro apresentou ao chefe um ousado plano para o desenvolvimento do turismo brasileiro, o Plano Nacional de Turismo (PNT). Um documento muito bem estruturado, com metas e prazos estabelecidos, que reuniu idéias de vários organismos ligados ao setor. "Turismo é um negócio e deve ser tratado como tal", afirma o ministro.

Encontro – Explique, em linhas gerais, o que é o Plano Nacional do Turismo e como o senhor pretende atingir as metas estabelecidas.

Mares Guia – Este é um plano ambicioso que contempla metas econômicas e pretende gerar 1,2 milhão de empregos até 2007, atrair 9 milhões de turistas internacionais e, por conseguinte, um ingresso de divisas no país da ordem de 8 bilhões de dólares. Ele visa a aumentar consideravelmente o número de brasileiros que viajam para conhecer o Brasil, seja através do turismo de negócios, de eventos, de lazer ou de incentivo, o que vamos medir com o desembarque doméstico. Entendemos que o turismo é um negócio, o maior negócio do mundo, o que mais cresce e o que mais gera empregos e representa 10% do PIB mundial. Por isso, o Ministério de Turismo foi criado com um viés para desenvolvimento social, de forma a gerar empregos, distribuir renda e geração de divisas.

Encontro – Como o senhor pretende superar o desafio de levar os turistas para os locais que sabemos que têm potencial, mas não são explorados?

Mares Guia – Nosso plano contempla, no mínimo, a criação de três produtos turísticos de classe internacional em cada Estado. Essa meta é importante porque todos os estados brasileiros têm potencial turístico. Visitei todos e instalei o Fórum Estadual de Turismo nos 26 estados e no Distrito Federal.

Encontro – Qual o investimento previsto para o Plano Nacional de Turismo e a engenharia financeira para colocá-lo em prática?

Mares Guia – Para criar 1,2 milhão de empregos, precisamos de 18 bilhões de reais de investimentos em quatro anos. Desse total, 3 bilhões de reais vêm do governo, são recursos provenientes do Prodetur, através de investimentos em infra-estrututura e desenvolvimento das regiões que abrange. Temos também o orçamento da União, que é de 200 milhões de reais por ano. Somadas as emendas dos deputados teremos 1 bilhão de reais nesses quatro anos. Outros 14 bilhões virão da iniciativa privada. O BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e os três fundos constitucionais – Fundo Nordeste, Fundo Centro-Oeste e Fundo Norte – disponibilizam, a partir deste ano, no mínimo 2 bilhões de reais por ano em forma de linhas de financiamento. Em quatro anos, disponibilizarão de 8 a 10 milhões de reais. Tem também o capital dos investidores nacionais e estrangeiros, que em quatro anos deve ultrapassar 4 bilhões de reais.

Encontro – Particularmente para Minas Gerais,quais são os planos?

Mares Guia – Existe um projeto correto em Minas, com começo, meio e fim, que é a Estrada Real. Vamos investir muito trabalho e prestígio em parceria com o governo estadual e a Fiemg nesse projeto, que é estruturante e gera, sozinho, 178 mil empregos nestas 177 cidades que compõem a Estrada Real, sendo 162 em Minas. Além disso, Minas tem potencial para ecoturismo, turismo de aventura, balneários, estações hidrominerais. Acho que é o momento dos prefeitos e dos governos estadual e federal se darem as mãos para o desenvolvimento do turismo em Minas.

Encontro – Fale mais sobre as linhas de créditos específicas para o turismo.


Mares Guia – É um programa desenvolvido com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). É dinheiro baratíssimo, com ativos fixos e possibilidade de desconto de recebíveis. Essas linhas estão sendo implantadas. A Caixa Econômica Federal implantou o Caixa Turismo, R$ 400 milhões de reais por ano. Se alguém quer montar uma pizzaria, uma pousada ou comprar um jipe para usar no turismo, terá uma linha de financiamento. A dificuldade existe porque é preciso um registro, um projeto para que o dinheiro possa ser liberado. É aí que entra o Sebrae, para ajudar os microempresários.

Encontro – Quando o PNT foi lançado, em abril do ano passado,já havia metas estabelecidas para 2003. Como ficaram essas metas 10 meses após o lançamento do plano?

Mares Guia – Todos os programas estão em andamento e as metas para 2003 foram alcançadas. Aumentamos em 500 mil o número de turistas estrangeiros e em 550 milhões de dólares a entrada de divisas, segundo números oficiais do Banco Central. Organizamos feiras no exterior, reunimo- nos exaustivamente com os bancos para viabilizar as linhas de financiamento, temos seis escritórios da Embratur na Europa. Estamos trabalhando em todos os sete macroprogramas.

Encontro – O senhor tem se mostrado desfavorável à exigência do visto para os norte-americanos.Por quê?

Mares Guia –
Sou absolutamente desfavorável. A reciprocidade tem de ser feita com inteligência para o benefício do país. Os americanos impuseram visto prévio aos brasileiros com a cobrança de 100 dólares porque existe uma imigração forçada do Brasil para os EUA. Não existe fluxo migratório contrário. Apenas 650 mil americanos vêm ao Brasil por ano, acho que devem vir de 1,5 a 2 milhões. Se cobramos 100 dólares pelo visto, um norte-americano com a mulher e dois filhos vai gastar 400 dólares. Com esse dinheiro, ele compra um pacote e vai para o Caribe.

Encontro – E quanto ao fichamento, qual sua opinião?


Mares Guia –
O fichamento foi uma decisão judicial, mas quando foi referendado pelo governo eu fui a favor. Acho que o fichamento de alta tecnologia é simples, rápido, não expõe ninguém e dá mais segurança. O problema é que a decisão judicial tinha que ser cumprida, a polícia federal não estava preparada e usou tinta preta. É um processo medieval, uma maneira de fichar criminoso.

Encontro – Houve constrangimento com algum colega de ministério por causa dessa sua posição em relação ao visto?


Mares Guia – Não. Tenho que defender a vinda de turistas para o Brasil. Esse é meu ponto de vista e respeito o do Itamaraty por querer a reciprocidade. Mas acho que reciprocidade não é olho por olho, dente por dente. É criar, através dos instrumentos que a lei permite, condições de tirar vantagens para o país, sem ter que se submeter.

Encontro – Vamos falar de política. Como o senhor avalia os 14 meses de governo Lula?

Mares Guia – Conheço o Lula pessoalmente há exatamente um ano e dois meses. É uma pessoa extraordinária, objetiva que tem meta e determinação para fazer as coisas acontecerem. Tem princípios importantes como correção, vontade de ajudar os pobres sem demagogia e com seriedade. Com coragem, ele pegou um país desacreditado no exterior e em um ano reverteu tudo. Com muita competência, o PT ampliou a base de apoio e hoje tem maioria no congresso. Primeiro ele domou a fera e agora começa a retomada do crescimento.

Encontro – Sabemos que o senhor trabalha com metas. Quais as metas políticas do Walfrido?


Mares Guia – Eu já havia decidido sair da vida pública com mandato. Meu perfil é de executivo. O Pitágoras vai bem e crescerá muito. Continuaria no PTB, mas sem mandato, foi isso que combinei com meus colegas. Quando o presidente me convidou pra ser ministro eu não pude recusar.

Encontro – Chegou-se a comentar que o senhor seria candidato a prefeito de BH. É verdade?

Mares Guia – Não. Temos um candidato que é o Ronaldo Vansconcelos. Não está nos meus planos disputar um mandado, a não ser que seja para ajudar uma coalizão eleitoral. Mas se não precisar, não disputarei.

Encontro – O senhor tem espírito de liderança e disse que prefere cargo executivo. Gostaria de governar Minas?

Mares Guia – Qualquer homem público que pensa grande como eu gostaria de ser governador. Eu já pensei nisso, e a minha oportunidade seria em 98, mas apoiamos a reeleição. Daqui pra frente, trabalhamos para fortalecer as alianças e uma delas é com o Aécio Neves, que provavelmente será candidato à reeleição. Eu não cogito de me candidatar a governador.

Encontro – Se pudesse ser ministro de outra pasta,qual escolheria?

Mares Guia – O turismo é um negócio tão importante que acho que ganhei do Lula um presente. Muita gente criticou, disse que a pasta é pequena, com pouca visibilidade. Acho isso bobagem, não existe ministério pequeno. O ministério é do tamanho do ministro. Não posso ser ministro da Educação porque há conflito de interesses por causa do Pitágoras. A verdade é que estou igual rato no fubá, com os bigodinhos vibrando de tanta satisfação.

Encontro – O Walfrido empresário considera boa a reforma tributária?

Mares Guia – Na verdade a reforma não começou. Só teve imposto até agora. O que vem aí acho que vai funcionar. A principal mudança é uma legislação única para o ICMS nacional porque acaba com guerra fiscal, caixa dois e cria uma só alíquota. Acredito nessa reforma tributária e acho que ela tem que desonerar a folha de pagamentos o mais depressa possível. Da forma que ela é feita hoje induz a micro e pequena média empresa à informalidade. A folha tem que ser só o salário do trabalhador, com isso é possível diminuir a informalidade. A reforma melhora, mas não resolve todos os problemas, pois nossa base tributária ainda é complexa.

Encontro – Como o senhor avalia a queda de popularidade do governo Lula e o escândalo recente envolvendo um assessor próximo do ministro Dirceu?

Mares Guia – O presidente tem uma popularidade extraordinária, ainda tem o reconhecimento de mais da metade da população, apesar da pequena queda. Qualquer outro presidente que tivesse feito o que ele fez estaria com 25%. O Lula teve a coragem de colocar o país no eixo e o povo confia nele. Enxergo isso como diminuição da euforia inicial. Sobre o assessor, acho que a Polícia Federal tem de investigar e puni-lo, como a todos que saem da linha. Ele poderia ser assessor de qualquer ministro, nenhum de nós está isento de ter uma pessoa que num certo momento tenha escolhido o mal caminho.

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