
"O PT precisa se reestruturar. O partido deve perder um pouco da arrogância de achar que é melhor que os outros, que só tem gente honesta nos seus quadros"

"Estrategicamente, o Brasil precisa de uma aproximação entre PT e PSDB. E repito que considero o governador Aécio Neves um homem preparado para ser presidente da República"
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Para Belo Horizonte, Pimentel salienta que a cidade está sendo transformada com as inúmeras obras, muitas de infra-estrutura, e outras visíveis como a duplicação da avenida Antônio Carlos, um sonho acalentado pelos belo-horizontinos que vai se tornar realidade em breve concluindo o projeto do então prefeito JK, 50 anos depois.
ENCONTRO - O país está às voltas com uma das suas piores crises políticas, envolvendo o PT, a Câmara dos Deputados e diversos partidos da base aliada. Qual será o desfecho de tudo isso?
PIMENTEL - É difícil prever. A Câmara está agora numa espécie de vôo cego, e não sabemos onde isso vai terminar. Acho que todos os deputados que, comprovadamente, mentiram para a população devem ser cassados. Agora, a lista de deputados que podem ser cassados inclui parlamentares contra os quais não há provas concretas, e que podem provocar um novo impasse na Câmara. É por isso que digo que o Parlamento está num vôo cego. E, como em todo vôo cego, tudo pode acontecer.
ENCONTRO - De que o Brasil precisa para evitar crises como a atual?
PIMENTEL - Precisamos de uma grande reforma política - e não é essa que está sendo discutida agora, que é apenas uma tentativa de baratear o custo das campanhas e evitar a captação de recursos de forma irregular. Isso é muito pouco. Tenho dito - e já falei com o próprio presidente Lula - que o Brasil precisa de uma constituinte revisora exclusiva. Nela, os cidadãos seriam eleitos apenas para constituintes, com um ano de prazo. É a melhor forma de a sociedade civil participar efetivamente do projeto. Há muitas lideranças empresariais, das cidades e dos meios intelectuais, que não se disporiam a ser deputados ou senadores, mas que poderiam ser constituintes. É disso que o Brasil precisa agora, porque o meio político está sob suspeita. A hora ideal da constituinte seria agora, mas, por outro lado, entendo que o presidente Lula não possui força nesse momento político para mandar uma emenda como essa para o Parlamento. Estamos com uma base política totalmente esfacelada e o processo de revisão da Constituição só é possível quando se tem uma força política muito compacta para liderar o movimento.
ENCONTRO - E quanto ao PT? O que o sr. acha que vai acontecer com o partido?
PIMENTEL - O PT vai passar por um profundo processo de revisão. O Tarso Genro está propondo o que chamou de "refundação" do PT. Considero isso apropriado, porque se trata realmente de um novo início. O PT tem que passar por um processo de atualização semelhante ao realizado pela esquerda italiana. Tem que se tornar um partido de seu tempo, contemporâneo. Afinal, o PT foi fundado no final da década de 70, início dos anos 80, antes portanto da queda do muro de Berlim e do fim do socialismo real, e ainda guarda muito das velhas concepções de esquerda.
ENCONTRO - O sr. tem uma trajetória de absoluto sucesso dentro do PT, sacramentada pelas urnas. Sua força e liderança não poderiam ser contaminadas pelas denúncias atuais envolvendo o partido?
PIMENTEL - O PT realmente vai sofrer algum rebaixamento do ponto de vista de avaliação popular, mas sobreviverá. E, mais adiante, vai se recuperar. Ando muito pelas ruas de BH e percebo que as pessoas fazem uma distinção muito clara entre as trajetórias políticas de seus governantes.
ENCONTRO - Que avaliação o sr. faz do governo Lula?
PIMENTEL - Uma avaliação positiva. Veja, por exemplo, o que está acontecendo na economia - e não estou me referindo apenas aos números macro, como crescimento do PIB. Se você analisar a questão do microcrédito, verá que ele alavancou fortemente a economia brasileira. Na questão social, o governo Lula também está sendo bem sucedido. Vamos chegar ao final de seu mandato com aproximadamente 12 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa-Família. A Polícia Federal (PF) está fazendo seu trabalho totalmente sem interferência do Executivo. Aliás, de forma até exagerada. Como brasileiro, me assustei quando vi a PF retirar da prisão sem mandato judicial um doleiro condenado a 25 anos de cadeia e levá-lo para sua sede, onde prestou depoimento contra o ministro da Justiça. Meu Deus, o que é isso? Mas tudo bem. Acho, então, que se Lula for candidato à reeleição, tem chances reais de vitória.
ENCONTRO - E quanto à política externa, o sr. viu melhorias?
PIMENTEL - O governo Lula adotou uma política externa que trouxe ganhos concretos para o Brasil. Conseguiu vitórias importantes na Organização Mundial do Comércio e selou alianças estratégicas com países como Índia e China, o que é muito bom para o nosso desenvolvimento. Nossa política externa também aumentou o respeito pelas posições do Brasil em fóruns importantes, como a ONU, e inovou na política comercial do Brasil, que se tornou muito mais agressiva, tanto que o saldo da balança comercial está positivo.
ENCONTRO - O sr. então acha que toda essa crise não afetou o presidente Lula em nada?
PIMENTEL - Evidentemente afetou. Ele era um candidato imbatível até o início deste ano. Hoje, é um candidato competitivo e pode ser derrotado. Mas continuo achando que é o melhor caminho para o país.
ENCONTRO - Qual sua opinião sobre uma possível candidatura do governador Aécio Neves à Presidência da República?
PIMENTEL - Se o Lula não for candidato, eu veria com muita simpatia a candidatura do governador, desde que ele consiga legenda dentro do PSDB. Ele é um mineiro - e isso vai fazer diferença na cena política nacional - e um governador que está preparado para ser presidente.
ENCONTRO - O sr. poderia apóia-lo, então?
PIMENTEL - Contra o Lula, não.
ENCONTRO - E sem o Lula?
PIMENTEL - Quem sabe?
ENCONTRO - Que avaliação o sr. faz do governo Aécio Neves?
PIMENTEL - Em relação a Belo Horizonte, não tenho nenhuma queixa do governador. Ele tem sido extremamente correto com a cidade e com a prefeitura. Do ponto de vista administrativo, tem sido de uma correção absoluta. Agora, acho que meu partido certamente tem críticas, já que o PT é oposição ao governador. São críticas voltadas para questões como funcionalismo estadual e segurança. Respeito a opinião do PT, mas o partido também não poderá forçar o prefeito de Belo Horizonte a dizer aquilo que não é verdade. E a verdade é que o governador tem feito um grande esforço para dar a Belo Horizonte condições adequadas para seu desenvolvimento.
ENCONTRO - O sr. disse que é hora de refundar o PT. Como uma das principais lideranças do partido, qual será seu papel nesse processo?
PIMENTEL - Pretendo contribuir com minha visão sobre o que deve ser um partido político. Eu não acredito mais em partido de quadros. Acho que o PT deve caminhar para se tornar o grande partido da democracia brasileira. Para isso, tem que ser um partido formado por lideranças da sociedade civil, e não somente por militantes partidários profissionalizados. Precisamos de partidos leves, de idéias, e é nessa direção que o PT tem que caminhar. Devemos continuar mirando o ideal socialista - mas o socialismo é muito mais uma postura que um regime. Acho - e sei que é uma questão polêmica - que o PT deveria se aproximar do PSDB. São os dois grandes partidos brasileiros que guardaram características como compromisso com a democracia, com o país, e têm condições políticas efetivas para liderar um processo de transformação do Brasil. Estrategicamente, o Brasil precisa de uma aproximação entre PT e PSDB.
ENCONTRO - Recentemente a revista IstoÉ trouxe uma reportagem com denúncias em relação ao projeto Olho Vivo - a parceria entre PBH e Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) que viabilizou a instalação de câmeras no centro da cidade para combater a criminalidade. Segundo a revista, a empresa responsável pela instalação das câmeras seria "fantasma", e estaria vinculada ao esquema de pagamento do publicitário Duda Mendonça no exterior. Ainda segundo a reportagem, a compra das câmeras também teria sido superfaturada. O que há de concreto nisso?
PIMENTEL - Foi uma reportagem completamente descabida, e já estamos processando a revista no fórum de São Paulo - inicialmente, pelo direito de resposta. Depois, veremos quais outras providências iremos tomar. A reportagem não tem nenhum sentido. Tentaram estabelecer uma vinculação entre o convênio com a CDL a um suposto envio de dinheiro para o exterior em nome do Duda Mendonça. Disseram também que um diretor da CDL na época teria participação acionária numa empresa off shore. Tentaram tirar conclusões a partir de algumas coincidências. Mas as tais remessas que essa empresa fez são anteriores ao convênio. As remessas são de 2003, e o convênio é de 2004. No caso das câmeras, as especificações técnicas foram feitas pela Polícia Militar e, a partir daí, a CDL adquiriu o equipamento. A prefeitura entrou com os recursos, e a prestação de contas que nos foi enviada pela CDL foi aprovada pelo Tribunal de Contas. Por isso, vamos à Justiça. É o melhor caminho para restabelecer a verdade.
ENCONTRO - A prefeitura vem anunciando um novo pacote de obras para a cidade. Quais são e como está o andamento dos trabalhos?
PIMENTEL - A duplicação da avenida Antônio Carlos é uma das obras mais importantes da cidade e está em franco andamento. Terá 1,3 km de duplicação, além da trincheira entre as avenidas Bernardo Vasconcelos e Américo Vespúcio. Acredito que até abril vamos inaugurar a primeira etapa, que é a trincheira. Também nesse período, deveremos estabelecer uma ligação entre as avenidas Pedro II e Cristiano Machado, possivelmente através de um pequeno túnel. Outra obra importante, dentro do Programa Vila Viva, é a interligação entre a avenida Mem de Sá, em Santa Efigênia, com a rua Caraça, na Serra, no Cafezal. Esta obra vai mudar radicalmente a qualidade de vida dos moradores daquela região. Finalmente, outra perna da nossa "centopéia de obras" é a revitalização do centro.
ENCONTRO - E como está o andamento do projeto Centro Vivo?
PIMENTEL - O Centro Vivo é um programa inspirado na nossa vontade de recuperar a Belo Horizonte que foi projetada e que não pode ser abandonada, sob pena de nós sacrificarmos a nossa qualidade de vida e principalmente a qualidade de vida daqueles que mais precisam dos serviços públicos e dos serviços privados que a zona central da cidade oferece. As ações de revitalização da área central, com foco no pedestre, até deram à BHTrans o prêmio internacional Cidades Ativas, Cidades Saudáveis, na categoria Mobilidade e Transporte, pelo programa Caminhos da Cidade. A praça Sete, a praça da Estação e a rua dos Caetés já foram todas remodeladas. Outra ação importante de revitalização do centro foi a retirada dos camelôs, a partir da implantação do Código de Posturas. Na rua Carijós, vamos requalificar calçadas em dois quarteirões, entre a rua São Paulo e a avenida Paraná. As obras devem durar seis meses e incluem a drenagem, recuperação da rede de esgoto, pavimentação, alargamento das calçadas, implantação de novo mobiliário urbano e medidas para facilitar a circulação de pedestres, como a remoção de degraus. Só naquele trecho circulam diariamente 40 mil pedestres e 1.500 veículos.
ENCONTRO - Recentemente o sr. revelou que a Guarda Municipal de BH passará a ser armada. Como está este processo?
PIMENTEL - A partir de maio do próximo ano, teremos mil novos guardas municipais nas ruas, os aprovados em concurso público, garantindo a segurança dos alunos da rede municipal, dos postos de saúde e contribuindo na redução da violência na cidade. Em alguns pontos, que iremos definir, a guarda será armada. Não pretendo que ela seja toda armada, mas existem alguns lugares de maior risco da cidade em que é necessário que o nosso guarda porte um armamento até para ele se defender e proteger os bens públicos e os usuários do serviço público. |