AUMENTO
Edilmar Lima, detetive particular de Brasília: em alguns meses, casos de jovens com drogas ultrapassam os relacionados às traições conjugais

QUASE UM POR SEMANA
O detetive particular Ivan Lopes: três a quatro casos por mês de jovens sob suspeita de envolvimento com drogas

VALOR
O detetive particular Felipe Guimarães Costa: valor da investigação pode chegar a 12 mil reais

FÁCIL, EXTREMAMENTE FÁCIL
Facilidade para obtenção das drogas nos dias atuais: uma das causas apontadas pelos detetives para o aumento da demanda das investigações
 |
|
|
suspeitas se confirmaram: o filho de Maurício estava mesmo usando entorpecentes. "Hoje, tenho certeza de que agi certo e consegui evitar o pior antes que fosse tarde demais", desabafa.
Quem pensa que casos como o de Maurício e Flávio se restringem apenas a telenovelas ou a filmes policiais, se engana. Da telinha para a vida real, é cada vez maior o número de pais que procuram os serviços de detetives profissionais para desvendar a vida dos próprios filhos. Para o desafio, os arapongas, que antes eram contratados principalmente para apurar casos de infidelidade conjugal, estão se munindo de equipamentos extremamente sofisticados, capazes até mesmo de captar imagens e sons à noite, à distância de 500 metros. O valor de um brinquedinho como esse? Cerca de quatro mil reais.
Por isso mesmo, contratar um detetive particular requer recursos financeiros. No caso de Maurício, por exemplo, o empresário teve que desembolsar nada mais, nada menos do que sete mil reais para investigar a vida de Flávio. "Valeu a pena, porque a vida do meu filho não tem preço", afirma, ao ressaltar que, hoje, Flávio leva vida normal e bem longe das drogas.
De acordo com o detetive particular Ivan Lopes, mais conhecido como O Águia, atualmente ele chega a investigar, a pedido dos pais, de três a quatro casos por mês de jovens sob suspeita de envolvimento com drogas, o que já representa cerca de 20% do total de investigações feitas por sua agência no mesmo período. Lopes, que atua na área há 27 anos, diz que a procura por esse tipo de serviço cresceu muito nos últimos anos, fato que ele atribui, sobretudo, ao aumento da criminalidade, principalmente entre os jovens. "Na maioria das vezes, as suspeitas se confirmam", frisa.
Um dos casos investigados por Lopes foi o do empresário Maurício. Segundo o detetive, várias estratégias podem ser adotadas para descobrir se existe alguma implicação real do jovem em atividades ilícitas. A principal e mais comum delas é acompanhar os passos da pessoa durante 24 horas por dia, verificando os locais que ela freqüenta e as amizades que possui.
Tudo é registrado por meio de fotografias e filmagens. Como? Utilizando, por exemplo, câmeras com menos de dois centímetros que podem ser escondidas até mesmo no botão de uma camisa, sem que alguém perceba. Com tanta tecnologia, já é possível rastrear uma pessoa pela internet. Mesmo com o aumento do número de pais que desejam investigar os filhos, Lopes diz que hoje, em sua agência, lideram as investigações na área empresarial (40%), seguida pela área familiar (30%), que inclui o adultério.
Para o detetive particular Edilmar Lima, de Brasília, autor do livro Crônicas de um Detetive e proprietário da Central Única Federal dos Detetives do Brasil, a procura de pais pelos serviços de investigação particular deve aumentar ainda mais dentro de pouco tempo. Segundo ele, em certos meses esse tipo de serviço chega a ultrapassar os famosos casos conjugais. O motivo? "Talvez a facilidade encontrada pelos adolescentes com a aproximação de pequenos traficantes infiltrados nas escolas, públicas e particulares", explica.
Lima alerta que os pais também podem ser bons detetives nessa hora, policiando o filho mesmo a distância. E dá algumas dicas: olhar o lixo do quarto, saber com quem o filho anda e com quem ele conversa. "É melhor o filho ouvir um sermão dos pais do que de alguém de fora da família, como da polícia, por exemplo", adverte.
Os casos de investigação por suspeita de uso ou tráfico de drogas chegam a abranger instituições de ensino. De acordo com Lima, em janeiro deste ano, uma faculdade particular de Brasília o procurou para fazer uma espécie de raio-x no local. "O meu trabalho consistia em levantar alguns dados, tendo em vista a preocupação apresentada por alguns pais ao reitor", relata.
Duas semanas após se infiltrar na faculdade, o detetive apresentou o relatório apontando todos os envolvidos no esquema. "Surpreendentemente, um dos seguranças que era pago para policiar estava fumando junto com alunos", conta. Segundo Lima, dois meses depois foi realizada uma nova investigação no mesmo lugar e, para a surpresa de todos, nada foi diagnosticado.
Em outras agências do ramo, os casos de infidelidade conjugal ainda são os mais comuns, apesar de os serviços de investigação em empresas, que visam a apurar possíveis fraudes cometidas por funcionários ou enriquecimento ilícito de sócios, também sejam bastante requisitados. É o que acontece na Mundial Assessoria Empresarial, empresa do detetive mineiro Felipe Guimarães Costa. Mesmo assim, ele confirma que houve aumento dos casos de pais que querem saber sobre a vida dos filhos mais a fundo.
Costa afirma que todos os casos do tipo que ele investigou até hoje acabaram se confirmando. Segundo ele, a procura só não é maior porque muitos pais temem descobrir a verdade sobre seus filhos. O preço do serviço, de acordo com o detetive, depende do tipo de caso. Mas admite que o valor mínimo que é preciso desembolsar para custear uma investigação gira em torno de 1,5 mil, podendo chegar até a 12 mil reais. Até por isso, os principais clientes pertencem, geralmente, à classe média alta.
A polêmica é algo que sempre gira em torno do mundo dos arapongas. Além de microcâmeras, os espiões particulares costumam lançar mão de outros tipos de artifícios para conseguirem seu intento, como escutas telefônicas e rastreadores de grampos. Para utilizar esse tipo de aparato, porém, é preciso ressaltar que os detetives necessitam de ordem judicial. Afinal, todo cuidado é pouco neste mundo misterioso envolvendo as investigações, um verdadeiro big brother da vida real.
(*) OS NOMES FORAM TROCADOS PARA PRESERVAR A
IDENTIDADE DOS ENTREVISTADOS
bem equipados
CONHEÇA UM POUCO MAIS DO APARATO UTILIZADO PELOS "ARAPONGAS"
• Escuta telefônica (mediante ordem judicial)
• Rastreador de escuta telefônica (antigrampo)
• Minicâmeras que podem ser adaptadas em bonés, gravatas, botões, etc
• Rastreadores de internet
• Minigravadores menores que um celular
• Transmissores de ambiente que permitem escutar uma conversa até a 500 metros de distância
• Calculadoras e canetas com câmeras adaptadas
• Equipamentos comuns, como câmeras digitais com zoom e gravadores
legislação
• A profissão de detetive particular foi reconhecida pela lei federal nº 3.099 de 24 de fevereiro de 1957 e regulamentada pelo decreto federal nº 50.532 de 3 de maio de 1961. Entretanto, se refere apenas às empresas constituídas na forma da lei
• Na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho também consta a profissão de detetive profissional (3518-05)
• De acordo com o Ministério do Trabalho, são atribuições do detetive particular: investigar crimes; elaborar perícias de objetos, documentos e locais de crime; planejar investigações; efetuar prisões, cumprindo determinação judicial ou em flagrante delito; identificar pessoas e cadáveres, coletando impressões digitais, palmares e plantares. Atuar na prevenção de crimes; gerenciar crises, socorrendo vítimas, intermediando negociações e resgatando reféns; organizar registros papiloscópicos e custodiar presos. Registrar informações em laudos, boletins e relatórios; colher depoimentos e prestar testemunho |