De vítima de bullying a Miss Minas Gerais: conheça a história de Karen Porfiro

A menina negra, de família simples, venceu o preconceito, superou as expectativas e conquistou o título mais almejado entre as beldades do estado. O desafio, agora, é levar para a casa o prêmio de mulher mais bonita do Brasil

por Daniela Costa 04/09/2014 18:25

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Cláudio Cunha
A mulher que conquistou o título de mais bonita de Minas Gerais conta que já sofreu preconceito: "Eu era o patinho feio da turma. Por conta disso, tinha poucos amigos e sentia vergonha de me apresentar em público" (foto: Cláudio Cunha)
Quando menina, ela gostava de brincar descalça nas ruas. "Sempre digo que sou o filho homem que o meu pai nunca teve". A negra de olhos verdes, sorriso fácil e origem simples cresceu na cidade de Timóteo, localizada no Vale do Rio Doce, a 210 km de Belo Horizonte, e aos 7 anos vendia brigadeiro e pipoca na porta da escola onde estudava. Chegou a pedir ao pai, o torneiro mecânico Rinaldo de Sousa Rosário, para vender picolés na rua. "Eu via a garotada vender e se dar bem e achava que podia fazer o mesmo. Mas meu pai sempre disse que eu tinha de estudar", diz Karen Porfiro, de 23 anos. Magra, alta e com os dentes projetados para frente, aos 13 anos, aquela que conquistaria o título da mulher mais bonita do estado, o Miss Minas Gerais 2014, sofria bullying dos colegas. "Eu era o patinho feio da turma. Por conta disso tinha poucos amigos e sentia vergonha de me apresentar em público".

Pouco afeita a vaidades, seu primeiro contato com o mundo das passarelas foi aos 12 anos acompanhando a irmã, três anos mais velha, em um curso de modelo e manequim. "Nessa época a Karen era pequena e ficava de olho em tudo o que eu fazia. Com o tempo, desisti do curso e ela nem se arriscou a tentar", conta  Kellen Cristina Rosário, de 26 anos, advogada. Seguindo as tendências, as irmãs usavam os cabelos alisados. Foi a partir do momento em que Karen decidiu assumir o estilo afro que sua carreira de modelo teve início. "As pessoas a viam nos lugares e perguntavam se ela era modelo. Foi o que a despertou para o caminho da moda", diz a irmã.

No entanto, somente seis anos depois, aos 18 anos, Karen Porfiro teve a oportunidade de pisar na passarela. Ao ir a uma loja provar o vestido que usaria no casamento da irmã, foi convidada para participar de um desfile na região. Desde então, em 2012 conquistou seu primeiro título, o de Miss Timóteo. No mesmo ano, concorreu ao Miss Terra Brasil, em Divinópolis, ficando entre as 15 primeiras colocadas. Paralelamente, fazia curso de teatro, aulas de dança e a graduação a distância em ciências contábeis. "Ao contrário do que muitos pensam, não tenho assessor de miss, nem nutricionista, e até o momento conto apenas com dois patrocinadores. Tudo o que consegui foi com o apoio da minha família e com muita determinação e coragem".

Arquivo Pessoal
A miss Karen Porfiro com a irmã, Kellen Cristina Rosário, o pai, Rinaldo de Sousa Rosário, e a mãe, Penha Alda Porfiro: "Tudo o que consegui foi com o apoio da minha família e com muita determinação e coragem" (foto: Arquivo Pessoal)


No ano seguinte, em novembro de 2013, tomou uma importante decisão."Resolvi arriscar a sorte. Fui para Belo Horizonte em busca de trabalhos como modelo, mas, como não surgiu nenhuma oportunidade, decidi ir para São Paulo". Incentivada pelo amigo Rafael Schittini, de 26 anos, modelo também mineiro que já estava na capital paulista, Karen conseguiu o primeiro trabalho longe de casa. "Desde que conheci a Karen, em 2010, em um concurso em Caratinga, acreditei em seu potencial e por isso decidi apoiá-la", diz Rafael.

Sozinha, a futura miss encarou uma longa jornada de idas e voltas de ônibus para realizar um único trabalho na capital da moda. Uma semana depois, com o apoio do pai, mudou-se definitivamente para São Paulo. "Sempre apoiei os sonhos das minhas filhas. Quando a Karen disse que queria se mudar, reuni minhas economias para ajudá-la por pelo menos um mês. Hoje sinto orgulho de ser o pai da miss", diz Rinaldo de Sousa Rosário. A estadia se prolongou por cinco meses, período em que a modelo ficou hospedada em uma pensão com mais seis meninas no mesmo quarto.



Apesar das dificuldades e do medo de encarar o desconhecido, a transição foi fundamental para alavancar sua carreira. "Fiz campanhas publicitárias para o Boticário, a Nextel e a chamada da novela Boogie Oogie, da Rede Globo. Em função disso, já consegui alugar o meu primeiro apartamento", comemora.

Samuel Gê/Encontro
Após a conquista do título de Miss Minas Gerais, Karen se prepara para um novo desafio: "Estou tranquila, porque sei quem eu sou e respeito a minha história" (foto: Samuel Gê/Encontro)
O diretor artístico das agências Allure e Invite em São Paulo, Rogério Campaneli, foi quem apostou no talento da mineira: "Descobrimos a Karen em uma seletiva de modelos que realizamos na região do Vale do Aço. Além da beleza tipicamente brasileira, o seu grande diferencial é a atitude. Acreditamos que em breve ela estará nas telinhas".

Para a coordenadora de misses e organizadora de concursos Graziele Raposo, apesar de Karen Porfiro não ter sido favorita ao título de Miss Minas Gerais, sua autenticidade conquistou os jurados. "Ela exala brasileiridade e foge de todos os estereótipos já apresentados". E isso é fato. Não há nada no corpo da jovem de Timóteo que tenha sido modificado.

A mineira, agora, se prepara para outro grande desafio: encarar o Miss Brasil 2014, no próximo dia 27, em Fortaleza. A exemplo da angolana Leila Lopes, que conquistou o título de Miss Universo em 2011, outras beldades negras também vão disputar a coroa com Karen. E qual será a expectativa da miss Minas Gerais? "Estou tranquila, porque sei quem eu sou e respeito a minha história. Sei também que chegar aonde cheguei, vencendo o preconceito e quebrando tradicionais padrões de beleza, não é fácil".

Heitor Antonio/Encontro Digital
(foto: Heitor Antonio/Encontro Digital)

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