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Estado de Minas SAúDE

Veneno de peixe pode ser usado contra esclerose múltipla

A toxina do niquim possui um peptídeo que ajuda no tratamento desse doença autoimune


postado em 06/10/2016 13:32

Quando se pensa em um peixe venenoso é comum lembrar da imagem de um baiacu inflado como um balão. No baiacu – designação popular de diversos peixes da ordem dos Tetraodontiformes –, o veneno está na carne. Portanto, comer o animal sem que haja uma preparação prévia para retirada da toxina pode levar à morte. O baiacu é venenoso, mas não é peçonhento: não tem presas nem espinhos para injetar toxina em suas vítimas e, desse modo, imobilizá-las. Já o niquim (Thalassophryne nattereri), habitante de águas rasas, tem tudo isso. Porém, uma pesquisa do Instituto Butantan, de São Paulo, quer usar o veneno dele no tratameno da esclerose múltipla.

O niquim vive na zona de transição entre as águas salgada e doce, escondido no fundo lodoso de rios e lagoas costeiras. Na maré baixa, o peixe, que é da cor da areia, sobrevive enterrado, podendo viver fora d'água por até 18 horas. Quem caminha pela areia rasa no litoral das regiões norte e nordeste do Brasil, estendendo-se até a costa do Espírito Santo, pode inadvertidamente ser picado por esse peixe. Todos os anos há relatos de 50 a 100 acidentes nas praias brasileiras. O número real deve ser maior, pois não há notificação obrigatória e nem tratamento, por enquanto.

Em 2008, um grupo de pesquisadores do Laboratório Especial de Toxinologia do Instituto Butantan, em São Paulo, desenvolveu um soro efetivo contra a picada do niquim. Agora, a mesma equipe, liderada pelas imunofarmacologistas Mônica Lopes-Ferreira e Carla Lima, descobriu que as fêmeas do niquim, embora menores, têm toxina mais poderosa que a dos machos. Além disso, o grupo de pesquisadores observou que o veneno possui um peptídeo com ação contra a esclerose múltipla – doença inflamatória autoimune do sistema neurológico.

"Identificamos um peptídio com atividade anti-inflamatória comprovada nos casos de esclerose múltipla. Em camundongos, o peptídeo bloqueou o trânsito e a infiltração de linfócitos patogênicos e macrófagos para o sistema nervoso central, o que favorece o aumento de células reguladoras. Isso resulta na atenuação da inflamação, refletindo no adiamento do aparecimento dos sintomas e na melhoria dos sinais clínicos da doença", explica Carla Lima.

O peptídeo, denominado TnP, foi descoberto em 2007, quando Mônica Lopes-Ferreira resolveu pesquisar se o veneno era composto por peptídeos além de proteínas. Simultaneamente, Lima havia padronizado no laboratório testes em murinos (roedores) para avaliação de esclerose múltipla. As duas resolveram testar a eficácia do peptídeo no tratamento da doença.

(com Agência Fapesp)

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