Pesquisador afirma que células cancerosas se espalham em busca de alimento

De acordo com Colin Goding, as células do tumor agiriam como os seres unicelulares de três bilhões e anos atrás

por Encontro Digital 21/08/2017 16:28

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YouTube/Agência Fapesp/Reprodução
O pesquisador britânico Colin Goding descobriu que as células cancerosas se espalhariam após perceberem a falta de alimentos disponíveis no local original do tumor (foto: YouTube/Agência Fapesp/Reprodução)
O pesquisador britânico Colin Goding está convencido de que o mesmo fator que motivou o primeiro ser vivo unicelular a se movimentar pela Terra – há mais de três bilhões de anos – também é a razão pela qual algumas células cancerosas se separam do tumor primário para colonizar outras partes do corpo: a busca por comida.

Em seu laboratório, situado no Instituto Ludwig de Pesquisa do Câncer, vinculado à Universidade de Oxford, no Reino Unido, ele demonstrou em experimentos com culturas de melanoma humano que a falta de nutrientes desativa o maquinário de proliferação celular e faz com que as células tumorais adquiram um fenótipo invasivo.

"Nossa estimativa é que a mesma lógica funcione para a maioria dos tipos de câncer e, talvez, possamos encontrar meios de manipular esse mecanismo de sobrevivência celular para obter benefícios terapêuticos", afirma Colin Goding em entrevista para a agência de notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O pesquisador britânico comenta o motivo de seu grupo de pesquisa ter escolhido o melanoma como modelo para entender a progressão do câncer no corpo. "É um ótimo modelo porque conseguimos visualizar todos os estágios da doença. Podemos perceber quando as células produtoras de pigmento começam a invadir outros tecidos e formar metástases. Já em outros tipos de tumor, como pulmão ou pâncreas, quando o paciente apresenta sintomas e procura um médico, a doença já se espalhou", comenta.

Transformação

De acordo com Goding, estudo recentes têm mostrado que a resistência do melanoma ao tratamento está relacionada com a existência, dentro de um mesmo tumor, de subpopulações de células com fenótipos (características externas) diferentes. Ou seja, embora possuam o mesmo background genético, se comportam de forma distinta.

"Algumas podem estar mais diferenciadas e se comportar como o tecido de origem [células produtoras de melanina]. Outras, podem se proliferar rapidamente e fazer o tumor crescer. Além disso, outras podem estar com o ciclo mais lento e fenótipo invasivo, ou então, se tornam dormentes e permitem que, mesmo após uma terapia bem-sucedida, a doença reapareça muitos anos depois", explica o pesquisador.

Um dos objetivos do grupo britânico, portanto, tem sido compreender os fatores que levam ao surgimento desses diferentes fenótipos. Segundo Colin Goding, aspectos do microambiente tumoral, como a disponibilidade de nutrientes, oxigênio e a interação com sinais emitidos pelo sistema imune, são fundamentais para a transformação.

A hipótese levantada pelo britânico é que, diante de uma situação de escassez de nutrientes, ativa-se em parte das células tumorais um mecanismo de sobrevivência que as faz migrar para procurar comida em outro local. Quando a célula cancerosa consegue migrar para um novo ambiente, onde há abundância de nutrientes e ausência dos sinais imunes que induzem a pseudodesnutrição, ela volta a se proliferar para formar uma nova colônia.

"Se conseguirmos enganar as células para fazer com que acreditem que os sinais de estresse já foram embora, o maquinário de fazer novas células volta a ficar ativo e elas vão morrer porque a demanda por nutrientes vai exceder a oferta", avalia o britânico.

(com Agência Fapesp)

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