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Estado de Minas BEM-ESTAR

Pesquisa mostra que não há níveis seguros para o bisfenol A e para o glifosato

As duas substâncias são consideradas desreguladores endócrinos e afetam a tireoide, segundo a Unifesp


postado em 30/10/2017 13:35 / atualizado em 30/10/2017 13:48

O famoso conceito popular que diz que "a dose faz o veneno", pode não valer quando se trata de desreguladores endócrinos, segundo uma pesquisa feita na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Presentes na água, no ar, nos plásticos, alimentos, cosméticos, remédios e em muitos outros lugares, esses compostos químicos interferem no funcionamento dos hormônios humanos e de animais, prejudicando funções importantes para o organismo, como metabolismo energético, imunidade, desenvolvimento neurológico e sexual.

Em experimentos com ratos, o grupo de cientistas da Unifesp observou que, mesmo em doses bem inferiores às consideradas seguras pelas agências reguladoras, dois conhecidos disruptores endócrinos – o bisfenol A e um herbicida à base de glifosato – podem alterar a regulação dos hormônios tireoidianos se a exposição ocorrer durante o período da gestação e do aleitamento ou durante a puberdade.

"Estudos recentes sugerem que, no caso dos desreguladores endócrinos, nem sempre a dose mais baixa é a mais segura, pois ela pode passar despercebida pelos mecanismos de defesa das células. Por outro lado, a janela de exposição parece realmente fazer diferença, sendo mais críticas as fases de desenvolvimento embrionário e aleitamento, bem como a puberdade, quando há grandes alterações hormonais ocorrendo no organismo", explica a pesquisadora Maria Izabel Chiamolera.

Na avaliação da cientista, as decisões dos órgãos que regulam o uso dessas substâncias devem passar a considerar também os princípios da endocrinologia – não apenas os da toxicidade.

Desregulação da tireoide

A pesquisa da Unifesp avaliou, primeiramente, a dosagem de hormônios tireoidianos no sangue das cobaias contaminadas com glifosato e não observou diferença significativa em comparação com o grupo controle (formado por animais não expostos). No entanto, a expressão de genes-chave para a regulação tireoidiana estava alterada tanto no hipotálamo quanto na hipófise e também em órgãos como fígado e coração, que são bastante suscetíveis à ação dos hormônios da tireoide.

"O padrão de desregulação dos genes que observamos lembra o de uma condição de hipotireoidismo, embora com alguns elementos diferentes. E o mais interessante é que, ao avaliar os metabólitos presentes no sangue [aminoácidos e lipídeos], também notamos um padrão condizente com o de hipotireoidismo, mostrando que essa alteração na expressão gênica estava se refletindo no fenótipo metabólico", comenta Chiamolera.

Bisfenol A

No segundo estudo, foi testado também em ratos o efeito da exposição ao bisfenol A, composto presente na formulação de plásticos duros do tipo policarbonato e que pode ser transferido para os alimentos caso ocorra mudança brusca na temperatura (aquecimento ou congelamento).

Ratos machos foram expostos a um décimo da dose considerada segura durante a fase da puberdade e avaliados com 108 dias de vida. Os cientistas observaram no sangue desses animais elevação do hormônio tireoestimulante, que é secretado na hipófise, cai na corrente sanguínea e estimula na tireoide a secreção dos hormônios T3 e T4. Observaram ainda, em amostras de sangue, diminuição no nível de T4 e um aumento em T3.

"É um padrão estranho, pois, normalmente, T3 e T4 ou estão ambos aumentados ou diminuídos. É um perfil hormonal que lembra o de pessoas com mutação no gene que codifica a proteína transportadora. E esses pacientes têm alterações neurológicas graves", afirma Maria Izabel Chiamolera.

Segundo a pesqusiadora, o próximo passo é tentar entender por que esses animais que só foram expostos indiretamente e só no início da vida apresentam alteração na expressão gênica quando adultos. "Será que o padrão de regulação foi alterado em definitivo? Será que a prole desses animais também vai herdar essa alteração? São perguntas que pretendemos investigar agora", diz a cientista da Unifesp.

(com Agência Fapesp)

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