Violência contra crianças acontece mais dentro de casa

Estudo da UFMG confirma que os jovens sofrem com a violência justamente onde deveria se sentir seguro

por Encontro Digital 26/02/2018 13:53

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(foto: Pixabay)
Segundo estudo realizado pela professora Deborah Carvalho Malta, da Escola de Enfermagem da UFMG, em parceria com pesquisadores de outras instituições brasileiras, é dentro de casa que são registrados mais da metade dos casos de violência e negligência contra crianças. "A residência, que deveria ser locus de proteção e de cuidado, torna-se o local de agressão e de vitimização da infância", comenta a autora. Ela utilizou dados da pesquisa Vigilância de Violências e Acidentes (Viva), do Ministério da Saúde,  que tem como foco dois públicos muito vulneráveis: crianças e adolescentes.

A análise de Deborah Malta gerou dois artigos, que foram publicados na Revista de Saúde Coletiva. A pesquisadora trabalhou com dados obtidos em 2014, do inquérito Viva, coletados nas entradas dos serviços de urgência e emergência dos hospitais de referência de todas as capitais brasileiras. Em Belo Horizonte, a amostra incluiu os hospitais João XXIII e Odilon Behrens.

A pesquisa é aplicada a cada três anos, em todas as capitais brasileiras, sob a coordenação do Ministério da Saúde, em parceria com as secretarias estaduais e municipais de saúde, com o objetivo de avaliar os atendimentos por causas externas em vítimas de acidentes e violência no Sistema Único de Saúde (SUS). Os dados referentes a 2017 ainda não estão disponíveis.

Deborah destaca que a base é muito rica e possibilita amplo diagnóstico da situação de saúde: oferece dados sobre as vítimas e agressores e possibilita captar não só os casos de maior gravidade, como os que exigem internação e equivalem a cerca de 10% do total, ou os que resultam em mortalidade. "Também ficam registrados os casos de média e leve gravidade que, de outra forma, não se tornariam conhecidos", comenta a professora.

Segundo ela, o estudo destaca que as violências encontram-se nas mais importantes instituições socializadoras: a família, a escola, o bairro. "O que indica a necessidade de mobilizar toda a sociedade na perspectiva do seu enfrentamento", diz a pesquisadora.

Questão cultural

Meninos sofrem mais acidentes e violência do que meninas, conforme se afirma no artigo. Crianças de 0 a 5 anos são as maiores vítimas de negligência, como lesões, fome, desnutrição, desidratação, doenças e acidentes domésticos. O domicílio é o local com mais ocorrência de violências – cerca de 60% dos casos registrados. "Isso choca, porque é onde se espera que as crianças tenham mais proteção", enfatiza Deborah Malta.

A análise mostra ainda que, entre meninos de 6 a 9 anos, é mais frequente a agressão física por parte dos pais, mas também na escola, ambiente em que violência física, agressão e ameaça são mais constantes entre meninos de 10 a 14 anos.

No grupo de 815 adolescentes, a pesquisa constatou que homens são as vítimas mais numerosas de violência, o que confirma os dados da literatura. Segundo a professora da UFMG, o número de acidentes e ocorrências violentas chega a ser nove vezes maior em homens do que em mulheres, na idade de 15 a 24 anos. A via pública é o ambiente onde ocorrem com maior frequência.

"É uma questão cultural, pois eles são mais expostos", comenta Deborah, lembrando que o estereótipo do gênero já é dado nos primeiros meses de vida: "aos meninos são oferecidos brinquedos como bolas, que estimulam a ir para a rua, e armas, e  meninas são presenteadas com bonecas". Entre elas, a ocorrência de violência ocorre sobretudo no domicílio, sendo os pais também agressores. A violência sexual é mais frequente nas meninas de 15 a 19 anos, e não somente pelos pais.

(com Boletim da UFMG)

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