Brasileiros estudam possibilidade de existir vida em lua de Júpiter

Uma bactéria que vive a 2,8 km de profundidade na África poderia sobreviver em Europa, uma das luas de Júpiter

por Encontro Digital 09/02/2018 13:13

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Nasa/JPL-Caltech/SETI Institute/Divulgação
Estudo da USP relaciona uma bactéria que vive a 2,8 km de profundidade numa mina de ouro da África do Sul à possibilidade de vida na lua Europa, de Júpiter (foto: Nasa/JPL-Caltech/SETI Institute/Divulgação)
Há anos os cientistas investigam a possibilidade de existir vida em outros pontos do Universo. E, ao contrário do que muitos pensam, além de planetas, como o nosso, existe a possibilidade de ela existir também em satélites naturais. Foi justamente esta hipótese que levou um grupo de pesquisadores da USP a avaliarem a possível existência de vida microbiana na lua Europa, uma das 69 que existem em Júpiter – o maior planeta de nosso Sistema Solar, também conhecido como o Gigante Gasoso.

A lua Europa é considerada por muitos especialistas um lugar fora da Terra com um grande potencial de abrigar vida. Isso porque, além de gás carbônico, água oxigenada e enxofre, ela contém água e oxigênio, elementos fundamentais para o desenvolvimento de qualquer tipo de ser vivo.

Em uma mina de ouro em Mponeng, na África do Sul, localizada a 2,8 km de profundidade, foi descoberta a presença da bactéria Candidatus Desulforudis audaxviator. O grupo de pesquisadores se deu conta de que os parâmetros ambientais do local coincidiam aos da lua jupiteriana, fato que foi decisivo para o surgimento da pesquisa, mesmo não havendo ainda conhecimentos detalhados sobre a superfície de Europa.

O artigo elaborado pelos cientistas brasileiros foi publicado no periódico Scientific Reports, que pertence ao grupo Nature.

A mina e a lua

"Procuramos modelar a habitabilidade da subsuperfície para vários cenários, com grande variação de grandezas que podem interferir na sobrevivência de células bacterianas. A bactéria Candidatus habita um ambiente aquoso em grande profundidade, com alta pressão, total ausência de luz e de oxigênio, tal como esperamos ser a subsuperfície de Europa, onde um oceano da ordem de centenas de quilômetros de profundidade recobre um centro rochoso e é recoberto por uma camada de gelo de dezenas de quilômetros de espessura", esclarece Thiago Altair Ferreira, do Instituto de Física de São Carlos da USP, um dos responsáveis pelo estudo, em entrevista para o Jornal da USP.

Além disso, existe a hipótese de que materiais radioativos, como urânio-238, tório-232 e potássio-40, existam na crosta da lua jupiteriana. Estes materiais são encontrados em corpos rochosos espalhados por todo o Sistema Solar. É justamente a interação da radiação desses elementos químicos com a água do oceano de Europa que a bactéria obtém a energia para seu metabolismo. "Foi a primeira vez que se observou um ecossistema que subsiste diretamente com base na energia nuclear", comenta Douglas Galante, pesquisador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, da USP, coordenador do estudo.

A analogia quanto à mina e a lua é justificada pelos fatores físico-químicos. Mas, os cientistas brasileiros reconhecem que, pelo fato de ainda serem desconhecidas informações sobre a sua superfície, é difícil confirmar com segurança tal semelhança e, consequentemente, a presença de bactérias. "No caso da região de Witwatersrand, por exemplo, onde se situa a mina de Mponeng, há certa diversidade de condições constatadas por análise geoquímica, como temperatura e pH da água, que, em princípio, não apresentaram correlação direta com a profundidade. Não devemos imaginar que toda subsuperfície de Europa é da forma como modelamos, mas sim, que podem existir nichos onde a radioatividade pode tornar o ambiente habitável por organismos como a bactéria de nosso estudo", explica Thiago Ferreira.

Perguntado sobre a possibilidade de haver ecossistemas com características tão extremas aqui no Brasil, o pesquisador da USP conta que o subsolo do país não é tão explorado, então, não há, por enquanto, nenhum local conhecido com condições próximas às da mina da África. "A região onde se encontrou o organismo D. audaxviator, a bacia de Witwatersrand, é conhecida por ser a formação geológica mais antiga da Terra, estimam a formação entre três a 2,7 bilhões de anos atrás e a exploração subterrânea local é motivada pela mineração de ouro, levando à preparação de minas da ordem de quilômetros de profundidade da superfície. Há ainda muito o que ser explorado no mundo sobre os ambientes de profundidade, inclusive no Brasil", completa Thiago.

A Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) e a Agência Espacial Europeia (ESA) já possuem planos e estão investindo pesado em expedições para a lua Europa, na década de 2020. Este momento está sendo aguardado com ansiedade por cientistas do mundo inteiro.

(com Jornal da USP)

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