De forma impressionante, quatis aprenderam a usar produtos humanos de higiene

Cientistas descobriram que o hábito de limpeza está sendo transmitido entre as gerações desses mamíferos

por Encontro Digital 26/04/2018 13:48

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Cientistas descobriram que quatis que habitam uma ilha em Santa Catarina aprenderam a usar produtos de limpeza deixados pelos humanos para evitar fungos e insetos (foto: Pixabay)
Os biólogos sabem que os quatis, mamíferos carnívoros naturais da América do Sul, costumam esfregar seus corpos em artrópodes (animais invertebrados), como o piolho-de-cobra, e em secreções de plantas para, supostamente, tentar repelir mosquitos e carrapatos. Agora, um estudo realizado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da USP, em parceria com a Universidade do Rosário, da Colômbia, descobriu que quatis que vivem no sul do Brasil aprenderam a usar restos de produtos de higiene e limpeza deixados no meio-ambiente – ou seja, lixo produzido por humanos.

Moradores da Ilha Campeche, na cidade de Florianópolis (SC), esses animais passaram a se esfregar em sabonetes, em sabão em pó e até em detergentes. "Esses produtos costumam ser deixados por turistas, visitantes e moradores da ilha, que é um local turístico", explica Aline Gasco, da USP, uma das autoras do estudo, que foi publicado no periódico científico International Journal of Comparative Psychology.

O ato de esfregar (chamado de unção) é realizado entre o grupo em sessões que duram de alguns segundos até cinco minutos. Normalmente, os quatis usam patas, boca, nariz e dentes para aplicar o produto na região genital e na cauda, "nessas áreas, úmidas e quentes do corpo, onde normalmente se desenvolvem bactérias e fungos", afirma a pesquisadora.

Segundo o professor Andrés M. Pérez-Acosta, da Universidade do Rosário, o comportamento pode ser uma nova variação da cultura da automedicação e "uma novidade dentre os carnívoros para aliviar irritação e coceira causadas por ectoparasitas".

Além disso, o estudo binacional aponta que esse comportamento de automedicação existe há mais de uma década e se transformou numa forma de  aprendizagem social transmitida entre gerações. "A plasticidade comportamental e motivação em explorar novas situações é característica dos quatis”, comenta Aline Gasco.

O quati não é nativo da Ilha de Campeche. Segundo relatórios não oficiais, um casal adulto da espécie foi capturado na cidade de Palhoça (SC), em 1950, para ser introduzido na ilha. Apesar de serem considerados exóticos na localidade, os cientistas alertam que o comportamento desses animais mostra que é preciso melhorar a gestão dos resíduos orgânicos na ilha e educar o hábito dos turistas que frequentam a região.

Os pesquisadores propõem o monitoramento desses animais para avaliar "os níveis de infestação ectoparasitária na tentativa de relacioná-la ao uso dos produtos de higiene humanos". O trabalho, segundo eles, requer uma abordagem multidisciplinar para entender completamente o "comportamento de automedicação com produtos de limpeza humanos".

(com Jornal da USP)

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