Um terço das vítimas do rompimento da barragem em Mariana tem depressão ou transtorno de ansiedade

O dado faz parte de um estudo feito por pesquisadores da UFMG

por Encontro Digital 13/04/2018 12:54

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Antônio Cruz/Agência Brasil/Divulgação
Estudo feito pela Faculdade de Medicina da UFMG mostra que quase 30% das vítimas da barragem do Fundão sofrem com depressão e 32% têm transtorno de ansiedade (foto: Antônio Cruz/Agência Brasil/Divulgação)
Mais de dois anos após a tragédia causada pelo rompimento da barragem do Fundão, pertencente à mineradora Samarco, na cidade de Mariana (MG), quase 30% das vítimas sofrem com depressão. O percentual é cinco vezes superior ao constatado na população do país. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2015, 5,8% dos brasileiros tinham depressão (11,5 milhões de pessoas).

Os dados fazem parte do projeto Prismma, realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e que trata da saúde mental da população de Mariana (MG) atingida pelo rompimento da barragem, ocorrido em novembro de 2015. Foram avaliados 479 indivíduos, sendo 225 adultos e 46 crianças e adolescentes.

O transtorno de ansiedade generalizada foi diagnosticado em 32% dos entrevistados, apontando para uma prevalência três vezes maior do que a média da população brasileira.

Além da depressão e do transtorno de ansiedade generalizada, foram avaliados também o transtorno de estresse pós-traumático, o risco de suicídio e os transtornos relacionados ao uso de substâncias psicotrópicas, como álcool, tabaco, maconha, crack e cocaína. "Encontramos uma prevalência aumentada de transtornos psiquiátricos relacionados ao estresse na população atingida quando comparados aos dados descritos na literatura", informa o artigo de divulgação do estudo.

A dependência de álcool foi diagnosticada em 5,8% da população e a de tabaco em 20%, enquanto 0,9% foi considerado dependente de maconha e 0,4% dependente de cocaína ou crack. Já o risco de suicídio foi identificado em 16,4% dos entrevistados. Entre eles, estão pessoas que declararam desejo de morte, relataram ideias suicidas, afirmaram que planejaram se suicidar no último mês ou reconhecerem já ter tentado alguma vez colocar fim à própria vida.

Entre as crianças, o principal achado da pesquisa da UFMG foi a alta frequência de entrevistados que preencheram critérios para transtorno de estresse pós-traumático, superior a 82%. Nos adultos, este diagnóstico envolveu 12% dos atingidos. No recorte por sexo, notou-se que a prevalência nas mulheres, de 13,9%, foi superior em comparação com os homens, que ficou em 8,6%.

De acordo com a literatura médica, a percepção dos riscos de danos à saúde e de morte; a perda de moradia e de entes queridos; e a consciência da falta de uma satisfatória assistência em saúde são fatores que podem levar a um diagnóstico de depressão em populações acometidas por desastres. A discriminação também é apontada como um elemento agravante, o que levou a pesquisa da UFMG a identificar se os entrevistados já haviam sido vítimas de atitudes preconceituosas motivadas pela sua condição de atingido.

Os resultados mostraram que 62,7% responderam já ter sofrido algum tipo de discriminação e 27,1% alegaram já ter sofrido algum tipo de discriminação verbal. Em 21,3% desse casos, a ocorrência se deu em lojas, restaurantes ou lanchonetes e em 12,4% em repartições públicas, como Receita Federal, cartório, departamento de trânsito, companhias de água, luz e esgoto. Além disso, 17,3% dos entrevistados descreveram tratamentos diferenciados por colegas de trabalho e 12,9% já se sentiram excluídos em sua vizinhança.

A expectativa dos pesquisadores é de que os dados possam fomentar a discussão sobre políticas públicas e planejamento em saúde, além de permitir uma melhor orientação e alocação de recursos e estabelecer programas adaptados à realidade atual dessa população. Eles também sinalizaram a importância de planos de ação em casos de tragédia para minimizar os transtornos vinculados à saúde mental.

(com Agência Brasil)

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