Estudo comprova benefício para o coração do consumo adequado de álcool

Até uma dose para mulheres e duas para os homens pode gerar efeito cardioprotetor

por Encontro Digital 15/06/2018 10:23

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(foto: Pixabay)
Há algum tempo, estudos vinham dizendo que o consumo moderado de álcool poderia gerar efeito de proteção para o sistema cardiovascular, mas, até então, ainda não se sabia ao certo por quê. Agora, uma pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) indica que essa proteção pode estar relacionada com a ativação de uma enzima chamada ALDH2 (aldeído desidrogenase-2), que ajuda a eliminar do organismo tanto os subprodutos tóxicos gerados pelo metabolismo do álcool como também um tipo de molécula reativa produzido nas células cardíacas quando estas sofrem um dano importante – como o causado pelo infarto.

"Nossos dados sugerem que a exposição moderada ao etanol causa um pequeno estresse nas células do coração, não suficiente para matá-las. Como consequência, ocorre uma reorganização no sinal intracelular e a célula cardíaca acaba criando uma memória bioquímica contra estresse, também chamada de precondicionamento. Quando a célula é submetida a um estresse maior, já sabe como lidar", comenta Julio Cesar Batista Ferreira, coordenador da pesquisa, em entrevista para a Agência Fapesp.

O trabalho vem sendo feito em parceria com cientistas da Stanford University, nos Estados Unidos, e os resultados foram publicados na revista científica Cardiovascular Research.

Para estudar os efeitos cardioprotetores do álcool em nível celular, os pesquisadores simularam uma condição semelhante ao infarto em corações de camundongos que foram mantidos vivos por meio de um sistema artificial.

Os cientistas então simulam uma condição clínica conhecida como isquemia, interrompendo o fluxo nutritivo para o coração durante 30 minutos. Quando a solução nutritiva volta a correr, o órgão recomeça a bater lentamente e, após uma hora, os pesquisadores conseguem avaliar o tamanho do dano. Em média, nesse modelo, cerca de 50% das células cardíacas morrem caso não seja feito nenhum tipo de intervenção.

"Acreditava-se, antigamente, que o dano principal era consequência do período sem oxigênio. Mas estudos mostraram que, durante a isquemia, as células mudam seu metabolismo e entram em uma espécie de estado dormente. Quando a artéria é desobstruída, o tecido recebe uma enxurrada de sangue com nutrientes e oxigênio e acaba ocorrendo um colapso metabólico nas células", explica Julio Ferreira.

Em resposta ao estresse, as células cardíacas começam a produzir grandes quantidades de uma molécula reativa tóxica conhecida como 4-HNE (4-hydroxy-2-nonenal), que, em excesso, começa a destruir estruturas celulares essenciais.

A enzima ALDH2 é a principal responsável por livrar o organismo de moléculas como a 4-HNE nas células cardíacas em estresse. Em trabalhos anteriores, o grupo da USP, em parceria com pesquisadores de Stanford, descobriram que durante o processo de isquemia, a atividade da enzima ALDH2 era significativamente reduzida. "A quantidade de 4-HNE se torna tão grande dentro da célula cardíaca que a molécula acaba atacando a própria enzima responsável pelo seu metabolismo", diz o pesquisador brasileiro.

No estudo atual, ao ser exposto ao álcool, antes do processo de isquemia, a atividade da ALDH2 se manteve igual à de um órgão que não sofreu qualquer dano. "Acreditamos que o estresse causado pelo etanol em dose moderada deixa uma memória e, assim, a célula aprende a manter a enzima ALDH2 mais ativa", afirma Ferreira.

Segundo o cientista, na pesquisa, a ideia foi manter a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de até uma dose de bebida acloólica por dia para mulheres [18 gr de álcool] e até duas doses para homens.

Na avaliação de Julio Ferreira, é possível fazer um paralelo entre o consumo regular de pequenas quantidades de álcool pelos seres humanos com os resultados observados nos corações de camundongos tratados em laboratório com etanol.

"Mas tudo depende do que a pessoa carrega no DNA. A enzima ALDH2 resultante do metabolismo do etanol pode ser protetor em pequenas quantidades para a maioria da população, mas também pode maximizar o dano do infarto em um indivíduo com a mutação no gene da ALDH2. Essas pessoas são fáceis de serem identificadas, pois com apenas um copo de cerveja ficam com o rosto vermelho, dor de cabeça e não ganham resistência ao álcool com o tempo", comenta.

O dano ao coração também pode ser agravado caso o álcool seja ingerido em quantidades elevadas, alerta Ferreira, pois isso resulta na produção excessiva da enzima torna o trabalho de limpeza promovido pela ALDH2 ainda mais difícil.

(com Agência Fapesp)

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