Cientistas descobrem que corrupção no Brasil tem estrutura similar à do terrorismo

Foram analisados casos de corrupção divulgados entre 1987 e 2014

por Encontro Digital 12/06/2018 10:25

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Agência Brasil/Divulgação
(foto: Agência Brasil/Divulgação)
Se você transformar a corrupção no Brasil entre os anos de 1987 e 2014, o resultado será um gráfico formado por 404 pontos coloridos, ligados uns aos outros por 3.549 linhas. Essa representação faz parte de um estudo do físico Luiz Alves, da USP, em parceria com pesquisadores do Paraná e da Eslovênia. Cada ponto colorido representa um político brasileiro citado em escândalos de corrupção. Quando dois políticos foram investigados no mesmo escândalo, a ligação entre eles foi representada por uma linha.

"Queríamos saber como as pessoas que estão envolvidas em corrupção se conectam entre si, como que elas se organizam", conta Alves ao Jornal da USP. Para isso, o grupo de cientistas extraiu dados de jornais e revistas brasileiras publicados no período, referentes a 65 escândalos de corrupção bem documentados pela imprensa nacional. O artigo científico foi publicado no periódico Journal of Complex Networks.

Eles descobriram uma rede cuja estrutura é similar às células terroristas e do narcotráfico. Os 404 nomes encontrados – que não são divulgados no estudo por razões jurídicas – e suas conexões se organizam de forma modular, em pequenos grupos de oito pessoas, em média. Esses grupos são conectados uns aos outros por intermédio de alguns indivíduos com muitas conexões. Há grande desigualdade do número de conexões entre os indivíduos, o que revela que a rede de corrupção tem uma estrutura hierárquica. A maior componente da rede concentra 77% dos pontos e 93% das linhas.

Embora os pesquisadores tenham listado 65 escândalos, quando os dados são modelados em forma de gráfico, é possível identificar um número menor de comunidades (aglomerados): são 27, representadas cada uma por uma cor diferente. "Cada comunidade, na verdade, representa mais que um escândalo. Tem escândalos que, do ponto de vista das pessoas que estão sendo investigadas, na verdade são um só", afirma Luiz Alves.
Jornal da USP/Reprodução
Os cientistas criaram um gráfico que mostra as conexões entre as diferentes comunidades de corrupção no Brasil entre 1987 e 2014 (foto: Jornal da USP/Reprodução)

Os pesquisadores também observaram que o número de pessoas citadas em casos de corrupção cresce em ciclos de quatro em quatro anos, acompanhando o calendário eleitoral e marcando trocas de partidos na presidência da república. Além disso, o grupo de físicos testou a capacidade de 11 diferentes algoritmos (fórmulas computacionais) para prever futuras conexões na rede. Para isso, eles isolaram os dados de 1987 a 2013 e compararam as predições de novas conexões que os algoritmos geraram para 2014. O melhor resultado atingiu 25% de acerto.

"Para quem acha que 25% é pouco, se você tentasse fazer isso aleatoriamente, adivinhar qual a conexão entre duas pessoas dessa rede, a chance de acertar seria muito menor que 1%", comenta o físico da USP.

Críticas

Luiz Alves conta que uma das principais críticas que os autores do artigo científico receberam diz respeito às fontes utilizadas, já que alguns nomes poderiam não ter entrado na base de dados por conta de algum eventual viés da mídia. O físico rebate as críticas argumentando que somente escândalos bem documentados foram incluídos na base de dados e que a regularidade da rede faz com que a estrutura mantenha a forma mesmo que alguns nomes sejam incluídos ou excluídos.

"Favorece a nossa análise que os resultados que obtivemos da estrutura da rede não dependem tanto do detalhe microscópico do dado. A nossa análise suporta um certo ruído porque o que a gente está olhando são propriedades mais globais da rede", diz Alves, para quem as redes complexas são uma ferramenta poderosa para extrair informações que não podem ser observadas a partir de um dado isolado.

(com Jornal da USP)

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