Transformar a Mata do Isidoro em Reserva de Desenvolvimento Sustentável é solução, diz pesquisadora

Estudo feito na UFMG identificou a necessidade de preservar a área verde da região norte de Belo Horizonte

por Encontro Digital 05/06/2018 10:57

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Digital Globe/Google Earth/Reprodução
A Mata do Isidoro tem 10 mil km² e fica na região norte de Belo Horizonte, no limite com a cidade de Santa Luzia (foto: Digital Globe/Google Earth/Reprodução)
Com o crescimento de Belo Horizonte, é cada vez mais difícil encontrar regiões de mata preservada dentro da capital mineira. Além disso, para a engenheira florestal Júlia Benfica Senra, pesquisadora da UFMG, a preservação de espaços florestais em reservas afastadas dos centros urbanos não é a melhor solução. "O Brasil tem-se tornado um país cada vez mais urbano. Se as áreas naturais forem todas distantes, vamos acabar perdendo esse contato e estaremos próximos de um colapso", adverte a especialista, em entrevista para o portal da universidade.

Júlia Benfica é responsável por um trabalho envolvendo a Mata do Isidoro, maior fragmento florestal desprotegido de BH, localizado na região norte da cidade, na divisa com o município de Santa Luzia. Por ter sido povoada ao longo do último século sem planejamento e gestão do espaço, a área tem hoje sua biodiversidade ameaçada. No trabalho apresentado no Instituto de Geociências da UFMG, a pesqusiadora aborda aspectos ecológicos, sociais e econômicos dessa área verde.

No Isidoro, há muitas propriedades privadas e ainda resiste, desde o século XIX, o quilombo Mangueiras. Até 2012, a região detinha área verde com cerca de 10 mil km² – mais extensa do que a zona compreendida pela avenida do Contorno, que delimitava toda a capital na planta original de sua fundação. "Mas, algumas propostas de urbanização do terreno vêm ganhando força. A partir de 2013, as ocupações urbanas Esperança, Rosa Leão e Vitória, por exemplo, têm contribuído para modificar a paisagem", comenta Júlia.

A recente discussão sobre a legalidade dessas ocupações levou a Mata do Isidoro ao noticiário local nos últimos anos. Mas, para a pesquisadora, muitas questões que afetam a natureza podem ser ali problematizadas. "A colonização anárquica, que acabou prevalecendo em grande parte da cidade, gerou reflexos como picos de temperatura, enchentes e transbordamentos de córregos". Júlia Benfica vê urgência na instauração de uma política de conservação, mas entende que não se pode deixar de lado os usos da terra que já vigoram no local. "Áreas de cultivo coexistem com construções sujeitas à especulação imobiliária. É preciso tentar equilibrar esses interesses", comenta.

Ao longo de 12 meses de trabalho, a engenheira florestal foi a campo e, por meio de entrevistas, coletou opiniões de pessoas atingidas direta ou indiretamente pelas questões ambientais e econômicas da Mata do Isidoro. Foram ouvidos moradores do quilombo, das ocupações urbanas e dos bairros do entorno, proprietários de terrenos e representantes de uma construtora, da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e de organizações da sociedade civil.

"Investiguei o que essas pessoas entendiam como qualidade de vida e equilíbrio ambiental e, com base no Artigo 225 da Constituição Federal, que dispõe sobre o direito de todos ao meio ambiente equilibrado, encontrei algumas convergências. A tudo isso, associei minhas leituras e vivências na região, além da repercussão midiática, para chegar a um sentimento geral sobre a mata", afirma Júlia Benfica.

Com o material, a pesquisadora identificou como caminho viável a transformação da Mata da Isidoro em uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), que pode ser gerida em âmbito municipal, estadual ou federal. "De acordo com os desejos das pessoas, imaginei uma solução que reduzisse os impactos na fauna e flora, mas que também respeitasse o atual uso da terra", explica a autora. A RDS possibilita usos múltiplos, envolvendo a natureza em atividades de educação, pesquisa, lazer e esporte. Prevê também limites no uso de recursos naturais, com um plano de manejo elaborado. "Assim, é possível plantar e criar gado sem prejuízo à renovação da natureza", afirma.

A pesquisadora da UFMG defende ainda que uma transformação desse porte seja abraçada em favor do bem comum, ainda que tenda a gerar conflitos, principalmente porque pode implicar perdas econômicas para particulares. "O interesse imobiliário e a gestão ambiental se impactam mutuamente. Por isso, a empreitada seria um desafio em qualquer nível e em qualquer lugar do mundo".

Além da Mata do Isidoro, áreas verdes situadas nos bairros Planalto e Jardim América, por exemplo, são também objetos de conflitos parecidos. "É importante jogar luz sobre esses fatos. Se caminharmos só na direção do adensamento dos bairros, ignorando questões ambientais, não sei onde vamos parar. Ainda há tempo de mudar a direção", alerta Júlia Benfica.

(com portal da UFMG)

Últimas notícias

Comentários