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Estado de Minas LANÇAMENTO

Livro detalha impacto de fake news e redes sociais na geopolítica global

Dias de Tormenta é resultado de cinco anos de pesquisa do jornalista mineiro Branco Di Fátima


postado em 05/11/2019 15:26 / atualizado em 07/11/2019 14:58

O papel da internet e das fake news (notícias falsas que circulam, sobretudo, em aplicativos como WhatsApp) nessas transformações geopolíticas contemporâneas é o tema central do livro Dias de Tormenta(foto: Geração Editorial/Divulgação)
O papel da internet e das fake news (notícias falsas que circulam, sobretudo, em aplicativos como WhatsApp) nessas transformações geopolíticas contemporâneas é o tema central do livro Dias de Tormenta (foto: Geração Editorial/Divulgação)
Há semanas, milhares de chilenos e libaneses estão nas ruas dos dois países em grandes protestos contra os governos dos presidentes Sebastián Piñera, da nação sul-americana, e Michel Aoun, do país árabe. Notícias dão conta de que ambas as manifestações são impulsionadas, principalmente, pelas redes sociais, assim como ocorreu no Brasil em 2013.

O papel da internet e das fake news (notícias falsas que circulam, sobretudo, em aplicativos como WhatsApp) nessas transformações geopolíticas contemporâneas é relevante, tanto que isso se tornou o tema central do livro Dias de Tormenta (Geração Editorial), do jornalista mineiro Branco Di Fátima. "Cada capítulo narra a trajetória de um desses movimentos e, volta e meia, como estão conectados em rede. No conjunto, podem ser lidos como uma biografia dos protestos que nasceram juntamente com a expansão da internet e ganharam visibilidade nas avenidas de Teerã, Seattle, Madri, São Paulo, Lisboa, Caracas ou Istambul", explica o autor.

O jornalista mineiro Branco Di Fátima:
O jornalista mineiro Branco Di Fátima: "Cada capítulo de Dias de Tormenta narra a trajetória de cada um movimentos populares ocorridos no mundo nos últimos anos e, volta e meia, como estão conectados em rede" (foto: Arquivo pessoal)
Doutor em Comunicação pelo Instituto Universitário de Lisboa e especialista na temática das novas mídias e seu impacto nas sociedades, o autor conta ter realizado pesquisas e investigações durante cinco anos para escrever a publicação.

O trabalho, segundo ele, envolveu entrevistas com manifestantes e leitura de documentos como textos publicados no WikiLeaks, e-mails confidenciais, telegramas diplomáticos, além de relatórios sobre espionagem de governos. O autor também destaca ter reunido, até mesmo, informações de grupos de hackers e da Deep Web - como é chamado o "submundo" da internet, onde se encontram sites que não podem ser acessados pelos navegadores comuns.

Às vésperas do lançamento de Dias de Tormenta em Belo Horizonte, Encontro conversou com Branco Di Fátima. Confira:

ENCONTRO - Você concorda com a opinião de especialistas que afirmam que as redes sociais ajudaram a eleger candidatos de extrema-direita no Brasil, como Jair Bolsonaro?

Branco Di Fátima - Os dados de diferentes estudos apontam nessa direção. Contudo, é preciso ter em conta que não foram apenas as redes sociais, que funcionam como um espaço de criação e de potencialização de narrativas. O Brasil vive um momento complexo, marcado por profundas crises política e econômica. O eleitor buscava uma luz no fim do túnel em meio a tantos escândalos e desalentos, depois de 14 anos de governo petista. Esse conjunto de fatores geraram um contexto favorável aos candidatos de extrema-direita, sobretudo porque ofereceram respostas simples para problemas complexos.

E por que isso não aconteceu com candidatos de esquerda nas Eleições 2018?

Os partidos de esquerda parecem ter sentido com mais intensidade, nos últimos anos, o impacto da crise de representatividade. Toda eleição é uma disputa de narrativas, um choque de pontos de vista. A campanha de Jair Bolsonaro aproveitou as redes sociais, assim como as campanhas de Fernando Haddad, Guilherme Boulos ou Ciro Gomes. Mas Bolsonaro contou também com outros polos de influência, como o antipetismo, a propagação massiva de fake news e o impacto da Operação Lava Jato no tecido social. A própria prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contribuiu para o resultado das urnas. Com isso quero dizer que as redes tiveram um papel importante no jogo político, e terão nas Eleições Municipais de 2020, mas o poder emana da forma com a tecnologia é usada.

Dadas as transformações geopolíticas destacadas no livro, você acha que as redes sociais tornaram-se equivalentes ou, até mesmo, mais importantes que os veículos de imprensa?

Embora o consumo de informação seja uma das funcionalidades das redes sociais, a imprensa sempre terá um papel central na nossa sociedade. A explicação é simples. Precisamos de histórias organizadas, com tratamento jornalístico, para dar sentido às nossas vidas em comunidade. Por exemplo: assistimos nos últimos anos a articulação inédita entre redes sociais e fake news. Mais do que nunca precisamos do jornalismo profissional, capaz de verificar a autenticidade dos conteúdos que consumidos. É importante saber que veículos como a Encontro dão sentido, com os seus métodos de apuração, aos diferentes fenômenos que nos cercam no dia a dia. Ou seja, as redes são estruturas fantásticas de propagação de informações, mas não para a organização de histórias.

A tendência é que essas novas mídia tenham cada vez mais protagonismo nas grandes revoluções?

A Primavera Árabe foi a primeira revolução na Era da Internet. Em poucas semanas, em 2011, assistimos ao colapso dos ditadores do Egito, Tunísia, Líbia, etc. As redes ajudaram a convocar manifestações e influenciaram a própria estrutura desses movimentos, como a ausência de grandes líderes ou a rápida difusão das reivindicações. Mas isso não é uma novidade. Em momentos de alta tensão, as pessoas tendem a usar as tecnologias que estão ao alcance das suas mãos para protestar. Lembro de entrevistar um importante ativista e blogueiro egípcio e, para uma pergunta parecida, ele respondeu: “às vezes, paus, pedras e cobertores são as tecnologias mais importantes para nós”. Ele falava de confrontos com a polícia, de ficar acampado várias noites da Praça Tahrir, no Cairo, mas sabia que sem as redes online e offline, dificilmente a revolta cultivada pela população teria ganhado visibilidade internacional.

Nesse sentido, qual é o impacto das redes no mundo real?

Em todos os casos narrados em “Dias de Tormenta”, da Primavera Árabe às Jornadas de Junho, as redes funcionaram com um imã que atraiu as vozes que pediam mudanças. Contudo, é a forma como pensamos, altamente tecnológica, que ditará os rumos das transformações sociais. No fundo, as redes sociais reúnem os iguais, no que alguns pesquisadores chamam de bolhas ideológicas. Em resumo, somos mais bombardeados por conteúdos que estamos predispostos a concordar que refutar. Mas é preciso que a injustiça seja percebida, e que se transforme em indignação, para que as redes produzam o mimetismo da ação, que pode ser tanto um protesto de rua quanto o boicote a uma determinada marca.

Lançamento do livro Dias de Tormenta em Belo Horizonte
Onde: Livraria Leitura do Pátio Savassi
Endereço: Avenida do Contorno 6061, Savassi
Data: 5 de novembro
Horário: das 18h30 às 21h30
Entrada gratuita


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