Professores contam como fazem a diferença na forma de ensinar

Em meio a 50 mil professores em atividade em BH, conheça seis profissionais da educação que revolucionam as salas de aula e a vida de seus alunos

por Carolina Daher e Daniela Costa 21/09/2016 14:31

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Ele foi acompanhando a mãe ao médico. A senhora, de mais de 80 anos, precisava de uma cirurgia de catarata. Assim que a porta do consultório se abriu, o rosto do médico iluminou-se em um sorriso. "Pachecão!!!", exclamou o doutor, que anos atrás havia frequentado suas aulas no cursinho pré-vestibular. "Ele ainda se lembrava das fórmulas, acredita?", diz, entusiasmado, José Inácio da Silva Pereira, o Pachecão, famoso professor e precursor das aulas-shows na década de 1990. A consulta e a cirurgia viraram presentes do ex-aluno. "Esse reconhecimento é o melhor prêmio que um professor pode receber", completa.

Só em Belo Horizonte, segundo o IBGE, existem cerca de 50 mil professores. "Quem você será no futuro? Depende do professor que você tem hoje", é uma das frases preferidas de Pachecão. Para muitos profissionais da educação, a sala de aula é terreno mágico. É ali, entre letras, números e questionamentos, que estão aqueles que, no futuro, serão responsáveis por levar o país para frente. Independentemente dos diplomas pendurados na parede, o professor precisa falar a língua dos alunos. E essa linguagem é dinâmica. Se há tempos a datilografia era essencial, atualmente é imprescindível entender o poder das mídias sociais.

A conexão não passa somente pela lousa e pelos livros didáticos. A professora Cíntia Chagas que o diga. É na balada que ela encontrou o espaço certo para dar suas dicas de português. Às vésperas do Enem, troca os moldes tradicionais de ensino pelo agito das boates. "Não me importam as críticas. O meu foco é o resultado", diz. Ultrapassar os limites impostos pela sala de aula e buscar novas ferramentas a cada ano também exige coragem. Sair da zona de conforto é o que faz o professor de geografia Percy Fernandes. Junto a outros colegas, ele criou o coletivo Terra Negra, que produz conteúdo audiovisual gratuito para a internet e atende estudantes de todo o país. "Nosso lema é educação fora da caixa. É pensar além dos muros", afirma Percy. As aulas virtuais do Terra Negra são gravadas in loco. A última viagem foi para o Oriente Médio e rendeu mais de 20 vídeos informativos.

Os estilos são variados, mas por trás do sucesso de cada professor há muito trabalho. Como um dia disse o escritor Rubem Alves, "ensinar é um exercício de imortalidade. O professor, assim, não morre jamais". Conheça, nas próximas páginas, as histórias desses e de outros profissionais que encontraram caminhos próprios para dividir seu conhecimento e se eternizarem por meio de seus alunos.

O mago da engenharia

Samuel Gê/Encontro
(foto: Samuel Gê/Encontro)
O cenário não é a escola de bruxaria de Hogwarts, e o diretor também não é o poderoso Alvo Dumbledore, da saga de Harry Potter. Detalhes que não impedem o mago da engenharia da UFMG de fazer alguns truques para despertar a criatividade dos alunos. A missão de Alessandro Fernandes Moreira, de 48 anos, diretor da Escola de Engenharia, é transformar cálculos e gráficos em fórmulas mágicas e divertidas. Tanto que, na recepção de calouros deste ano, foi presenteado com algo inesperado: um chapéu de bruxo. A semelhança com a ficção não é mera coincidência. Assim como Alvo, o professor se desdobra para motivar os estudantes. Suas armas são o bom humor e a perseverança. "Temos sempre de inovar buscando métodos de ensino que nos aproximem dos alunos, e não o contrário", diz.

Alessandro circula pelos corredores da faculdade com um sorriso largo no rosto. Foi nesse mesmo local que, há 25 anos, concluiu o curso de engenharia elétrica e onde também fez o mestrado. A carreira de docente teve início na sequência, em 1993.

De origem simples, não se envergonha de dizer que os pais têm apenas o quarto ano do ensino fundamental. "Mesmo com pouco estudo, minha mãe alfabetizou muita gente. A vontade de compartilhar o conhecimento foi herdada dela." Foi preciso ir longe para se tornar PhD, deixando família e amigos para trás. De 1997 a 2002 estudou na Universidade de Wisconsin, em Madison, Estados Unidos. Ao retornar, assumiu a coordenação do curso de engenharia elétrica, em que investiu na inovação do ensino. Apostou em novas tecnologias, na implementação de oficinas e em aulas mais práticas. "Minha preocupação sempre foi formar engenheiros empreendedores, que sejam, de fato, agentes transformadores da sociedade", diz ele, que, em 2011, fundou o Programa ENG 200, com o objetivo de que os estudantes criassem projetos que beneficiassem a comunidade. "Um deles desenvolveu uma bengala inteligente para auxiliar os cegos", afirma, orgulhoso. Ele conta que é comum perguntarem o que faz além de dar aulas. "Falam como se fosse um trabalho menor. Pelo contrário, formamos os cidadãos deste país."

Nos embalos da gramática

Alexandre Rezende/Encontro
(foto: Alexandre Rezende/Encontro)
Aos poucos, os alunos vão chegando e se acomodando em seus lugares. A penumbra do ambiente não lembra em nada as salas de aula, e o figurino da professora também não. O macacão preto, justo, realça as formas de um corpo bem torneado. A mestre da balada é mais uma personagem criada por Cíntia Chagas, de 33 anos, formada em letras pela UFMG. A trilha sonora dançante e a atmosfera da boate entusiasmam os adolescentes com idade entre 17 e 23 anos. Muitos deles nunca haviam frequentado local semelhante. "Motivados por uma proposta inusitada e divertida, os estudantes ficam mais abertos ao aprendizado", diz. A aluna Betina Alves, de 20 anos, aprova a ousadia. Desde que se tornou pupila de Cíntia, em 2015, tirou nota máxima na redação de todos os vestibulares que prestou. "Além de fixar as matérias, o aulão nos ajuda a relaxar. É muito produtivo", diz.

Acostumada às críticas por fugir do estereótipo de "professorinha", a belo-horizontina segue em frente com muito bom humor. Em 2011, quando inaugurou o seu próprio cursinho, Cíntia tinha apenas três alunos. Hoje a fila de espera é de um ano e meio e ultrapassa 300 inscritos. "Ou eu abria o meu próprio curso, ou mudava de profissão. O meio acadêmico não me aceita, muito menos minhas técnicas de ensino", afirma. Adepta do método mnemônico, que se baseia em formas simples de memorização, a professora ressalta que não tem como foco ensinar ao aluno aquilo que já deveria ter aprendido durante toda a vida escolar. "O meu trabalho é fazer com que memorize as regras de gramática para passar na prova."

O jeito pouco ortodoxo de ensinar lhe rendeu alunos fiéis e a tornou conhecida nacionalmente. Além das entrevistas dadas em programas de TV como o dos apresentadores Eliana e Danilo Gentili, os números nas redes sociais dão conta de sua popularidade. Somente no Instagram são quase 70 mil seguidores. Contratou assessores de mídia digital e de imprensa, além de ter criado outros personagens que interpreta. A mais conhecida é a Duda (foto), adolescente politicamente incorreta que corrige a todos que falam ou escrevem errado. Sua última empreitada foi a inauguração, em agosto, de um canal no YouTube, onde pretende seguir ignorando as críticas e ensinando português do jeito que mais gosta: com humor.

Fórmulas de física viraram música

Cláudio Cunha/Encontro
(foto: Cláudio Cunha/Encontro)
O pai queria que ele fosse agrônomo. Vindo de Laranjal, no interior do estado, José Inácio da Silva Pereira, de 57 anos, fez cinco vestibulares e não passou em nenhum. Foi, então, estudar em São Paulo. Mais 13 vestibulares e... nada. "Todo mundo achava que eu tinha algum problema", conta, rindo. Desafiando a vontade do pai, ele resolveu mudar. Prestou engenharia química e passou na concorridíssima Universidade de São Paulo (USP). "Fiquei em 59º lugar. De 60." No meio do caminho, casou, largou o curso e mudou-se para BH, onde se formou como engenheiro mecânico na PUC Minas. Ainda quando fazia estágio na área, percebeu que aquele universo não era o que procurava. "Os relacionamentos são muito frios", diz. Foi aí que a ficha caiu.

Lembrou-se dos dias do cursinho. Nunca, até então, havia sido tão feliz quanto naquela época. Largou a engenharia e virou professor. Em 1984, abriu uma salinha onde ajudava os estudantes a fazerem tarefas de casa. Dois anos depois, fundou o Ângulo Vestibulares. "Mas meu negócio era a sala de aula", diz. Vendeu a escola e passou a ensinar física. Para que os estudantes guardassem melhor as fórmulas, inventava músicas relacionadas à matéria. Gravou um CD e foi parar no Programa do Jô, na Globo. "Aí minha vida mudou", conta. Seu salário virou de celebridade. "Ganhava quase 1 mil reais por aula". Precursor da aula-show, Pachecão levou o ofício a outro patamar. "Não é a profissão que dá dinheiro, é o profissional", diz. Desde que resolveu trocar de carreira, José Inácio mudou até de nome. Dono de uma gargalhada estrondosa, foi rebatizado de Pachecão. "Na Copa de 1982, a Gilette fez uma propaganda em que um cara aparecia dando uma risada e um aluno achou que era igual a minha", explica. Surgia então Pachecão, personagem que marcou a vida dos estudantes da década de 1990. Numa conta simples, o professor acredita que ensinou física a mais de 250 mil alunos. Em 25 anos de carreira, foram mais de 70 mil aulas em diversas cidades do Brasil.

Empreendedor e criativo, ele acabou trocando de tablado. Hoje, é palestrante e faz, em média, 20 apresentações por mês. Para matar a saudade, ainda dá algumas aulas de revisão no Colégio Rui Barbosa, na Pampulha. "Sinto que, se deixar a sala de aula, envelheço."

Do cerrado ao Oriente Médio

Samuel Gê/Encontro
(foto: Samuel Gê/Encontro)
Professor de geografia em um dos cursinhos mais conceituados de BH, Percy Fernandes, de 38 anos, não estava satisfeito em ensinar para apenas 2.500 alunos por ano. Com a agenda lotada das 7h às 18h, ele achou tempo para ensinar para quem nem conhece. Junto a outros professores, Percy fundou no ano passado o coletivo Terra Negra, que tem como principal missão produzir conteúdo audiovisual in loco e distribuí-lo gratuitamente pela internet. "Nosso lema é educação fora da caixa. É pensar além dos muros, do espaço fechado, e ser os olhos dos alunos no mundo", diz Percy, que trocou as férias por expedições de cunho educacional. A primeira aconteceu em janeiro, quando o grupo percorreu 8 mil km do sertão brasileiro, passando por sete estados (na foto, está na travessia do Rio São Francisco, no Norte de Minas). O resultado da excursão pode ser visto em vídeos no YouTube que têm atraído pessoas de todo o Brasil. "Nosso desejo é ensinar aquele jovem que não tem condições."

Percy não encara a internet como uma "substituta" do ensino tradicional. "Ela é um complemento, uma ferramenta. A aula com o professor presente, os conceitos e as anotações é essencial", afirma. Para acompanhar uma geração extremamente conectada, os mestres de hoje precisam conhecer os avanços tecnológicos para falar a língua dos jovens. "Estamos passando por um dilema na educação. Os alunos são do século XXI, os professores, do século XX e a metodologia, do século XIX", explica.
A experiência de transportar os alunos virtualmente para cenários a serem estudados levou o Terra Negra também ao Oriente Médio. Em janeiro, o coletivo embarca para uma expedição para os Andes e o Atacama. "É tudo feito de forma independente, sem nenhum tipo de patrocínio", diz. Além das aulas-vídeos, o coletivo disponibiliza conhecimento através de podcasts e em uma coluna diária, a X da Questão, na rádio BandNews.

É assim, misturando o velho e bom conteúdo com um jeito mais atual de ensinar, que eles vêm contribuindo para que a educação avance. "Terra Negra é sinônimo de fertilidade, e acreditamos que, às vezes, é preciso jogar apenas um pouquinho de adubo para a coisa crescer. Assim também é com a educação."

O professor dos professores

Samuel Gê/Encontro
(foto: Samuel Gê/Encontro)
Em 30 anos de carreira, Marcos de Araujo Souza, o Marcão, de 56 anos, aprendeu uma lição com seus alunos. "Professor tem de saber falar também ‘não sei’", afirma. "Esse negócio de enrolar não funciona. O maior elo entre o aluno e o professor é a confiança", diz ele, que dá aulas de matemática há 24 anos no Colégio Santo Antônio. Mesmo sendo titular de uma das matérias mais temidas, Marcão é uma celebridade entre seus alunos. Sua popularidade pode ser medida nos corredores do colégio. Ao cruzá-los durante os intervalos, não há um que não grite seu nome. É convidado para todas as festas de 15 anos das meninas do 9º ano. É ele também quem acompanha os jovens durante a excursão anual promovida pela escola a Brasília. "É uma profissão que exige vocação. Você pode ser PhD, especialista, mas, se não conseguir falar a língua deles, não funciona", afirma.

Marcão virou professor por obra do destino. Era ainda estudante de engenharia elétrica na UFMG quando começou a dar aulas particulares. Pouco depois, trocou de curso, formou-se em estatística e fez especialização em matemática. Era gerente de uma empresa de previdência privada, quando percebeu que sua satisfação profissional estava em sala de aula. "Nada me realiza mais do que ensinar e aprender com essa meninada."

Marcão está fazendo escola. Só no Santo Antônio, cerca de 20 professores passaram por suas aulas como alunos. "É uma satisfação enorme ver que, de alguma forma, eu servi de modelo para alguém", diz. Mateus Sampaio de Mendonça (à dir. na foto), de 25 anos, é um dos que hoje toma café na sala dos professores com Marcão. "Uma das características marcantes dele é a facilidade com que consegue trazer leveza para a aula sem perder o objetivo principal, que é ensinar", afirma Mateus, que estudou a vida inteira no colégio e, hoje, também ensina matemática. O professor de biologia Felipe Scalabrini (no centro, na foto), de 32 anos, foi outro aluno do mestre dos mestres. "Sou o espelho dos professores que eu tive", afirma Marcão. "E dentro de sala eu tento repetir do meu jeito tudo o que foi positivo na minha formação. Tenho consciência do impacto que nós, professores, temos na vida dos estudantes."

Lições de amor todos os dias

Samuel Gê/Encontro
(foto: Samuel Gê/Encontro)
A professora Maria Luz Rodrigues Nunes, de 58 anos, não deixa ninguém para trás. Está sempre de olho na necessidade de cada um dos seus alunos - todos especiais. Por isso, qualquer novo movimento é motivo de comemoração. Foi assim quando percebeu que Marcus Vinícius Moura Santos, de 14 anos, portador de autismo e deficiência auditiva, sabia ler. "Liguei para a avó dele na hora e nós duas choramos juntas. Foi uma emoção imensa", diz Maria Luz. Durante a alfabetização de Alejhandro Santos Ferreira, de 14 anos, que tem paralisia cerebral, a professora passou dias pensando em como facilitar a leitura do menino, que não conseguia segurar sozinho um livro. Foi aí que teve a ideia de usar um porta-microfone como mão mecânica acoplada em sua cadeira de rodas. "Pela vida do meu filho já passaram inúmeras professoras, mas hoje posso dizer que nenhuma deixou marcas tão positivas e permanentes quanto a Maria Luz", afirma Shirlene Mafalda dos Santos.

Maria Luz se formou em ciências biológicas na Fafi Fuom, em Formiga, e seu primeiro emprego foi na Apae. Em 1982, veio para BH. Aqui, trabalhou durante 24 anos em uma escola regular. Nunca, no entanto, deixou seus alunos especiais pela estrada. Só na Brincar está desde 2003. "O que me motiva são os desafios", diz. Seus maiores prêmios vêm em forma de olhares. "Para conquistar alguém, antes de tudo, é preciso ter respeito." Por isso, Lu - como é chamada - cobra muito dos seus estudantes. "Eu os trato como crianças normais, o que eles menos precisam é serem vistos como diferentes", afirma.

Maria Luz se aposentou em 2010, mas não quis deixar a sala de aula. Atualmente, trabalha nos dois turnos na Brincar. De segunda a sexta, acorda às 5h20 e não reclama. "A Lu é muito profissional, mas, acima de tudo, é dona de um amor infinito", elogia Carol Faluba, mãe da pequena Ana Vitória, de 11 anos. "Ela consegue conquistar resultados impressionantes respeitando a limitação de cada um." Às 17h30, quando deixa a escola, localizada no bairro Floresta, Maria Luz sabe que venceu. Ao driblar as batalhas diárias, a sensação de missão cumprida não pode ser descrita em palavras. Está no olhar dos meninos que a chamam de tia, mas que ela tem como filhos.

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