Entrevistamos Juca Ferreira, presidente da Fundação Municipal de Cultura de BH

O comandante da futura secretaria municipal diz que sua gestão será compartilhada e baseada no diálogo. Na cidade há menos de um mês, quer que a capital mineira seja reconhecida nacionalmente

por Rafael Campos 19/07/2017 14:56

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Ronaldo Dolabella/Encontro
"BH está pronta para ter presença maior no Brasil por meio de sua cultura" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O sociológo Juca Ferreira foi recebido com festa por gestores culturais e artistas de Belo Horizonte. E eles estão felizes realmente. Extinta há 12 anos, a Secretaria Municipal de Cultura está sendo recriada, uma antiga reivindicação da classe. O ex-ministro da cultura vai ocupá-la. Enquanto ela não é oficializada, Juca segue como presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC)e já está se inteirando dos problemas e das potencialidades da cidade. "Em São Paulo, toda vez que ouvia alguém dizer que lá tinha os melhores grupos de dança do Brasil, eu dizia: calma, gente. Vocês já foram a Minas?" Baiano de Salvador, Juca diz que está disposto a contribuir  também com o carnaval - hoje organizado pela Belotur -, que virou a maior festa de rua da cidade. Antes de aceitar o convite do prefeito Alexandre Kalil, ele se estruturava para prestar consultorias no Brasil e no exterior. "BH está pronta para ter presença maior no Brasil", diz. Em sua sala com vista para o Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no centro, Juca recebeu Encontro e falou sobre a expectativa de trabalho, as boas experiências de outros lugares e o contexto de crise política.

Quem é
: Juca Ferreira, 68 anos
Origem
: Salvador (BA)
Formação
: Sociólogo pela Universidade de Sorbonne, Paris
Carreira
: Presidente da Fundação Municipal de Cultura e futuro secretário municipal de Cultura de BH. Foi vereador e secretário do Meio Ambiente de Salvador. Trabalhou como secretário executivo durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Em 2008, assumiu o mesma pasta. Em 2013 e 2014, ocupou o cargo de secretário de Cultura da cidade de São Paulo. Entre janeiro de 2015 e maio de 2016, ocupou novamente a função de ministro da Cultura

ENCONTRO - O senhor aceitou logo de cara o convite do prefeito Alexandre Kalil?

JUCA FERREIRA -
Há um mês estava em um fórum internacional sobre gestão cultural em BH. E no último dia do evento recebi o recado do prefeito Alexandre Kalil e já era o convite para eu fazer parte do governo. Ele disse que a secretaria estava em construção, mas que poderia me nomear para a Fundação Municipal de Cultura enquanto isso. Disse que era bom para eu ir me ambientando com tudo. Pedi 10 dias, pois tinha de conversar com a minha família antes, que mora em Brasília. Ela não tem condições de vir agora. Depois dos 10 dias retornei, acertamos e o prefeito anunciou no Twitter.

O que o senhor fazia antes de aceitar o cargo?
Estava me estruturando para fazer consultorias. Já tinha até algumas encaminhadas dentro e fora do país. Aí tive de repensar, mas BH é uma das principais capitais culturais do Brasil. Tem muito potencial. Se conseguirmos organizar uma gestão cultural que seja capaz de apoiar, fomentar, estimular a produção cultural e organizar processos, podemos dar um salto. Temos o teatro, a dança, a cultura popular, o patrimônio... Já vejo um processo em marcha por aqui.

O antigo presidente da FMC, Leônidas Oliveira, dizia que o perfil de trabalho  dele era pela descentralização da cultura. Qual será o seu?
Não penso muito nisso. O perfil vai aparecer à medida que eu for trabalhando. Mas, pelo que já fiz no ministério, na Bahia e na cultura de São Paulo, certamente retomarei essa ideia de descentralizar. Criar acesso à cultura em todos os segmentos sociais, dar atenção especial aos mais pobres, que são os que mais necessitam das políticas culturais. Vamos procurar trabalhar com toda a diversidade cultural do município.

Já tem em mente quais seriam as primeiras ações?
Desde que cheguei, tenho uma ideia de fortalecer os processos de formação na área da cultura e das artes. Pouco antes de vir para cá, estava em Fortaleza. Lá, eles têm um dos melhores projetos nesse assunto. O diálogo vai nos ajudar muito. Há coisas boas no Brasil inteiro e se conseguirmos um diálogo generoso podemos desfrutar das melhores condições para desenvolver o trabalho. É preciso estar atento também com o interior e os processos culturais que chegaram à capital a partir da migração das últimas cinco décadas. Acredito também que BH está pronta para ter presença maior no Brasil por meio de sua cultura e das suas linguagens artísticas.

É desafiador estar à frente de uma pasta como essa, numa época em que a cena cultural tem se mostrado ainda mais plural e diversa?
Não acho um desafio, pelo contrário. Gosto de trabalhar com pessoas empoderadas. Com áreas que tenham protagonistas fortes e processos conscientes de produção. Trabalho sempre com a ideia de gestão compartilhada. Não acredito em gestão cultural produzida dentro de repartição pública. Implantei isso no ministério e estava sendo executado em São Paulo.

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Para começar bem, a secretaria tem de partir do que está feito, corrigir o que estiver equivocado e ampliar o que deve ser ampliado" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Mas tem o contexto de crise, que pode ser um empecilho...
O Brasil vive um momento difícil, e nem é só do ponto de vista econômico, mas na instalação de certa boçalidade. Está acontecendo uma desconstrução do Estado, das políticas culturais, de programas que estavam dando certo. O Ministério da Cultura está sendo corroído por dentro. BH se destaca pelo esforço que o prefeito fez de recriar a Secretaria de Cultura. Esse é o desafio, pois nos coloca uma responsabilidade a mais. Os olhos do Brasil inteiro vão se voltar para BH. Por isso, temos de produzir algo aglutinador e que possa servir de alento para outras cidades e estados. E essa não é uma responsabilidade só minha como secretário, mas de todos os gestores culturais.

Muitos artistas e gestores locais aplaudiram a escolha de seu nome. Essa alta expectativa influencia seu trabalho?
Influencia e me agrada. Eu não gosto é da indiferença, da subestimação, da agressividade, da falta de acolhimento. E se a cidade me acolheu - e eu sinto isso - me estimula a trabalhar. Eu estou muito otimista. Existe a dificuldade econômica, mas espero que eu tenha um mínimo para trabalhar. O resto é diálogo e muita escuta. Não chegaria aqui com a ideia de acabar com tudo e começar do zero. A criação da Secretaria de Cultura gerou até certa preocupação. Para começar bem, a secretaria tem de partir do que está feito, corrigir o que estiver equivocado e ampliar o que deve ser ampliado.

A crise econômica provocou cortes no orçamento da FMC neste ano e a classe artística ficou temerosa quanto à realização de eventos já consagrados, como o Festival Internacional de Quadrinhos e a Virada Cultural, que geralmente acontecem no segundo semestre. Eles serão mantidos?
Sim. O que estamos analisando é a necessidade de passar alguns desses eventos  para o primeiro semestre de 2018, pois não haveria tempo suficiente para prepará-los. Acho que seria uma perda gerar descontinuidade de eventos que têm público e que já fazem parte da dinâmica da cidade. Esse é o primeiro tema que estou trabalhando com os auxiliares para termos uma resposta o quanto antes.

O carnaval tem ganhado força a cada edição. Neste ano, movimentou mais de 500 milhões de reais e quase 3 milhões de foliões participaram. A festa vai continuar sendo realizada pela Belotur ou existe a ideia de puxá-la para a secretaria?
Ideia tem, pois já vieram me soprar no ouvido. Mas não sei se temos é estrutura. Parece um bom movimento, mas devemos ter cuidado para não perder a expertise. Mesmo sem sermos o responsável pela festa, podemos ajudar muito. Eu cheguei para somar. E este é um assunto no qual a soma cai bem.

E o carnaval renasceu em BH por causa de movimentos sociais que passaram a ocupar a cidade espontaneamente. O gatilho foi em 2010, quando a gestão passada restringiu eventos culturais na praça da Estação, dando origem à Praia da Estação. O que o senhor pensa sobre esses fenômenos?
Acho ótimo. É o lado saudável da urbanidade. Os cidadãos e cidadãs ocupando a sua cidade. Legalizei o carnaval de rua de São Paulo. Logo quando cheguei, houve uma manifestação na porta do meu gabinete. Eram carnavalescos que queriam a descriminalização da festa. Achei estranho. Como o carnaval seria criminalizado? Fiquei sabendo que o evento só era permitido no sambódromo. Foi aí que preparamos um decreto para o prefeito. Escrevi à mão a seguinte parte: "não poderá ser privatizado nenhum espaço público nem é permitido o uso de cordas que legitime esse tipo de privatização". Isso foi a partir da experiência da Bahia, que está passando por uma crise. A Bahia é um dos espaços onde avançou mais a privatização do espaço público.

No ano passado, o Conjunto Moderno da Pampulha se transformou em Patrimônio Cultural da Humanidade. O senhor tem planos para a região?
Acabando esta entrevista vou visitar a Pampulha. Sei que tem problemas. Agora, temos é que transformá-la em um ativo cultural e turístico da cidade. Vai exigir certo investimento, mas é um patrimônio reconhecido pela Unesco. Tem importância também pela expressão modernista de Niemeyer. É um patrimônio de grande relevância para BH e para o estado.

Efetivada a Secretaria Municipal de Cultura, o que caberá à FMC?
Já havia declarado que não via contradição alguma de as duas trabalharem juntas. Boa parte das secretarias municipais, estaduais e dos ministérios precisa ter estruturas descentralizadas em seu sistema de gestão. Elas são mais ágeis até por força de lei. Podem avançar na captação de recursos e na organização de eventos. O que temos de pensar é como articular o sistema. Como a parte centralizada (secretaria) trabalhará com a descentralizada (fundação). E já começamos a pensar nisso.

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Como ex-secretário de Cultura de São Paulo, o senhor pode dizer se há mais semelhanças ou diferenças em relação à capital mineira?
Há muitas semelhanças e diferenças. São Paulo é a maior cidade brasileira. Com as cidades próximas, são mais de 20 milhões de pessoas. Todo processo cultural é muito grande. Aqui é menor, não tem aquela escala e o nível de internacionalização das pessoas. Minas Gerais tem de conquistar um caráter forte nacional. E pode conquistar. Minas tem relação com o Nordeste, o litoral e  o Sudeste. Aqui, vou trabalhar em cima da singularidade de BH.

E quais são as nossas singularidades?
Em São Paulo, toda vez que ouvia alguém dizer que a cidade tinha os melhores grupos de dança do Brasil, eu dizia "Calma, gente. Vocês já foram a Minas?". Tenho três filhos e um deles, o de 16 anos, acompanha muito a cena do hip hop. Ele sempre diz que o gênero é mais forte aqui do que em São Paulo. O patrimônio também é muito forte. Há muitas coisas aqui para serem valorizadas e que podem ganhar visibilidade em escala nacional.

O senhor não esconde a sua visão ideológica e política. Há uma polarização ainda forte no país e, por causa disso, o senhor pensa que pode enfrentar algum tipo de resistência?

Não escondo. Sou fratura exposta (risos). Mas não acredito que possa haver alguma resistência. Acho que a cultura não é questão de esquerda ou de direita, a cultura é uma questão de civilização ou barbárie. Se queremos desenvolver o país e torná-lo bem-sucedido no século XXI, temos de pensar em duas políticas: educação de qualidade para todos e desenvolvimento cultural com acesso de todos. Essa lógica não é propriedade de nenhum campo ideológico ou político. Faz parte de qualquer projeto de desenvolvimento que tenha o mínimo de lucidez. Qualquer ponte verdadeiramente para o futuro tem de considerar a cultura como ativo importante de desenvolvimento do país e de sua democracia. Por muitos anos não me dedicava à política, mas depois do afastamento da Dilma, que considero um golpe de Estado, passei a usar o meu Facebook para me manifestar pela retomada da democracia. Enquanto não restabelecermos a democracia, o que passa pelas eleições diretas, vamos viver essa crise e essa instabilidade. Todo o país está se estranhando e com dificuldades de aceitar o outro que pensa diferente, mas eu já estou na escala pós-golpe. Morei na Suécia e vi que é possível os diferentes se respeitarem.

E onde vai morar aqui?
Pretendo morar perto do trabalho - no centro -, para facilitar a vida, mas em algum lugar que seja residencial, pois algumas vezes meus filhos virão me visitar. Por ser uma cidade planejada, o centro de BH é vivo, tem muitas pessoas que moram aqui.

Nas vindas à capital mineira algo já lhe chamava a atenção?
É uma das capitais mais afáveis do país. O mineiro tem uma maneira mansa de se relacionar, diferente de outras cidades, que são mais estressadas. A gastronomia daqui é maravilhosa. E olha que é um baiano dizendo. Minas, Bahia, Pará e talvez mais outras duas gastronomias são as mais fortes do Brasil. O problema é que engorda, estou tomando cuidado. Vocês comem muito torresmo (risos).


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