Refugiados sírios se destacam no mercado de trabalho em BH

Fugidos da guerra civil, iniciada há seis anos, eles profissionalizam-se e seguem carreira como cabeleireiros, empresários e professores

por Geórgea Choucair 25/07/2017 14:41

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Ronaldo Dolabella/Encontro
O carro-chefe da lanchonete Sítio Sírio é o shawarma (carne de frango ou cordeiro assada na vertical): os temperos preparados pelos amigos Jhon Eshak e Elyan Sokkav é secreto (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Eles têm sotaque carregado. Mas estão bem familiarizados com o "uai" e "sô" dos mineiros. No balcão da lanchonete Sítio Sírio,  aberta há pouco tempo na região da Savassi, outras expressões são adoradas pelos jovens amigos sírios Jhon Eshak e Elyan Sokkav: quando os clientes falam "Nossa, Senhora" ou "Nú, está muito bom!", referindo-se aos quitutes árabes servidos, como esfirras, quibes e falafel (bolinho de grão-de-bico frito).

O espaço é modesto e pequeno, mas está sempre cheio e chama a atenção de quem passa. A música árabe alegra o ambiente e o narguilé confere mais identidade à lanchonete. Os amigos, que são sócios no negócio, esbanjam simpatia no atendimento e prometem: "Se não gostarem, não precisam pagar".

O carro-chefe da casa é o shawarma, um sanduíche feito de fatias de carne de frango ou cordeiro assadas em um espeto na vertical, com temperos especiais - e secretos. "As pessoas pedem um sanduíche para comer e acabam levando dois para casa", orgulha-se Jhon, que era estudante de medicina e chef de cozinha em Damasco. Eles vieram para o Brasil em 2014, como refugiados da guerra na Síria, iniciada há seis anos. "Não há como estudar, ter emprego e ser feliz lá", diz Jhon. Ele e Elyan, que veio da cidade de Hama, ao norte de Damasco, já estão adaptados a Belo Horizonte e afirmam se sentir em família por aqui. "As pessoas foram muito receptivas. Não quero voltar", diz Jhon. Eles gostam da culinária brasileira, especialmente de pratos como feijão-tropeiro, feijoada, pão de queijo e coxinha. Mas, quando entram para a cozinha, só sai a comida árabe original.

Claudio Cunha/Encontro
Eva Bara chegou há três anos casou-se na capital e estruturou a vida como professora de inglês e árabe (foto: Claudio Cunha/Encontro)
A crise financeira no Brasil não assusta os amigos. "Não acho que temos crise aqui. Temos paz e é preciso agradecer", observa Jhon. Segundo ele, quando há produtos de qualidade e vontade de trabalhar, a crise não aparece. "Estamos felizes de abrir um negócio em país estrangeiro." E quando o assunto é colocar as mãos na massa, os dois têm ritmo alucinante. Trabalham de segunda a domingo, sem folga. Nos dias de semana, as portas só se fecham às 23h e, nos domingos, à meia-noite.

Cônsul da Síria na capital, Emir Cadar ressalta que os refugiados sírios são dedicados e trabalhadores. "Eles querem oportunidade de trabalho e serem vencedores na vida. Ninguém quer ajuda", diz. Desde o início da guerra, Belo Horizonte já recebeu mais de 200 refugiados, que com o passar do tempo estão conseguindo a cidadania brasileira. "E geralmente são pessoas muito escolarizadas e falam dois idiomas, árabe e inglês", diz Emir.

Pedro Nicoli/Encontro
O cônsul da Síria na capital, Emir Cadar: "Eles querem ser vencedores na vida" (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
No salão de beleza Tif’s, na Savassi, um profissional chama a atenção e tem agenda cheia. Trata-se do sírio Nizar Kadar, que faz todos os tipos de corte feminino e masculino, além de maquiagem, escovas, pinturas e penteados para casamentos, formaturas e festas em geral. O seu diferencial é a escova no cabelo, feita com ondas e cachos. Em julho Nizar se casa com a estudante de engenharia civil Hadeel Alkazaal, que também veio refugiada da Síria para Belo Horizonte. "Há muita alegria aqui. O Brasil abriu as portas para nós", afirma Nizar. Ele pretende construir a vida e o futuro no país. "Tenho família e amigos aqui e o clima é bom. E gosto muito do arroz com feijão", brinca o cabeleireiro, que veio da cidade de Toms há pouco mais de três anos.

A professora de inglês e de árabe Eva Bara já está acostumada com o estilo de vida do Brasil. ‘’Gosto das pessoas, do clima, da natureza, da liberdade e da mistura das raças’’, diz. Ela veio de Yabroud, cidade situada ao norte de Damasco. "Gosto muito de línguas, de viajar e encontrar pessoas de culturas diferentes. Com a guerra foi difícil viver normalmente lá na Síria", diz Eva, que é apaixonada pela língua árabe e formada em letras com habilitação em inglês. Ela chegou a Belo Horizonte em março de 2014. Seus parentes que já moram aqui a ajudaram a recomeçar a vida e, dois meses depois que desembarcou, teve a sorte de encontrar o seu atual marido, o inglês Richard Postin, que também mora hoje na capital. O primeiro encontro aconteceu em um ponto de ônibus na praça da Liberdade. Richard tinha vindo de turismo para a Copa do Mundo. Com a vida - e o amor - consolidada por aqui, Eva não tem planos de voltar tão cedo para a Síria.

Ronaldo Dolabella/Encontro
O cabeleireiro Nizar Kadar: "Tenho família e amigos aqui e o clima é bom. E gosto muito do arroz com feijão" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Depois que chegou, seus pais e dois irmãos também vieram para BH a fim de tentar a vida. Hoje, produzem comida árabe autêntica e artesanal. Eva afirma que as pessoas aqui são muito interessadas na cultura e idioma árabes. "A maior dificuldade é que, no árabe, tem a linguagem coloquial e a formal. Nesta última, a pronuncia das palavras é mais difícil e detalhada", afirma. Mas quem realmente quer aprende. Basta olhar ao contrário e ver como os sírios estão se virando bem com o português, apesar do natural sotaque carregado, que confere identidade a cada um.

Manifestação pela paz na Síria

No dia 15 de agosto, das 10h às 12h, a Praça da Liberdade vai receber uma manifestação em solidariedade ao povo sírio. Os organizadores do evento esperam milhares de pessoaspara protestar contra a guerra que deixou, em seis anos, cerca de 400 mil mortos, entre eles, 100 mil crianças.

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