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Estado de Minas ESPECIAL EDUCAçãO | TECNOLOGIA

Colégios de Belo Horizonte investem em tecnologia para despertar o interesse dos alunos

Tablets, smartphones, robótica, linguagem computacional, o futuro chegou às escolas, que buscam dar autonomia aos estudantes e ensinar de forma cada vez mais interessante e lógica


postado em 26/09/2017 14:34

Rafael Silluzio, Júlia Cerqueira (em cima), Júlia Rocha e Matheus Coelho: na aula de robótica do Colégio Santo Agostinho, conceitos como trabalho em equipe, planejamento e organização do tempo são importantes em todas as etapas do curso(foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Rafael Silluzio, Júlia Cerqueira (em cima), Júlia Rocha e Matheus Coelho: na aula de robótica do Colégio Santo Agostinho, conceitos como trabalho em equipe, planejamento e organização do tempo são importantes em todas as etapas do curso (foto: Cláudio Cunha/Encontro)
Se para muitos adultos as novas ferramentas tecnológicas que surgem a cada dia são um desafio, para os pequenos da geração Alpha (nascidos depois de 2010) ou mesmo da geração Z (nascidos a partir dos anos 1990), as novidades não assustam. E é exatamente por isso que o uso da tecnologia está crescendo nas escolas. O objetivo é tornar o colégio cada vez mais interessante e desenvolver nos pequenos estudantes autonomia para utilizar as ferramentas não apenas como consumidores, mas produtores de conhecimento.

No Colégio Loyola, por exemplo, o trio professor, pincel e lousa continua tão importante como sempre foi, mas, depois de um mergulho na história do antigo Egito e das relações que se desenvolveram às margens do rio Nilo, o reforço da matéria para os alunos do 6º ano acontece na aula de pensamento computacional. O notebook substitui os cadernos e a linguagem objetiva da programação deixa a matéria mais clara, esclarece dúvidas e reforça o conteúdo. "O objetivo da atividade é enriquecer o que foi aprendido em diversas disciplinas, como inglês, matemática e português", explica o professor Fernando José Nunes. Ao mesmo tempo que reforçam os pontos mais difíceis da matéria, os alunos desenvolvem habilidades da linguagem da programação para no futuro usar em qualquer que seja a carreira escolhida.

Estela Souto e Joaquim Gomes transformaram o Rio Nilo e seus personagens em uma animação: atividade no Colégio Loyola reforça o conteúdo da sala de aula usando como ferramenta o pensamento computacional(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Estela Souto e Joaquim Gomes transformaram o Rio Nilo e seus personagens em uma animação: atividade no Colégio Loyola reforça o conteúdo da sala de aula usando como ferramenta o pensamento computacional (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Os colegas Joaquim Gomes e Estela Souto usam figuras do antigo Egito para criar uma história no computador, inclusive com interação com os espectadores. "Fizemos uma animação que resume a matéria que estudamos, falamos sobre a cultura, a religião e a sociedade da época", explica Estela. "O pensamento computacional, além de nos ajudar a compreender melhor a assunto, vai ser muito importante para nosso futuro, no mercado de trabalho. Em qualquer profissão precisamos saber usar a tecnologia", diz Joaquim. O próximo projeto da turma vai reforçar a redação. Com o uso da ferramenta - e muita diversão - escrever ficará mais interessante. Os alunos vão desenvolver um enredo interativo no qual o desfecho será construído de acordo com as escolhas de quem lê. "Cada aluno poderá criar sua história com várias possibilidades", diz Estela, que já se tornou uma fã da atividade.

Mais que apoio multidisciplinar, a linguagem da programação se tornou uma disciplina na Fundação Torino. Assim como os alunos aprendem a pensar em português, italiano e inglês, a ideia é que sejam fluentes também na linguagem da tecnologia. A instituição foi a primeira do Brasil a incluir o conteúdo na grade curricular. Pequenos estudantes como Otto Bernardes, de 6 anos, já transitam em um mundo aberto e de mais autonomia. Diante de um joguinho, pensam não só como consumidor da diversão, mas com ideias de quem pode também criar. "Percebo que o pensamento lógico provoca outro tipo de atitude, mais objetiva, diante da solução de pequenos problemas do cotidiano. Também desenvolve nas crianças nova postura em relação ao mundo digital", observa a mãe do garotinho, a psicanalista Walesca Bernardes. Otto é aluno da linguagem da programação desde os 5 anos e já começou a pensar de forma estratégica. "Certo dia, enquanto jogava videogame, o Otto comentou que, se tivesse criado o jogo, os personagens fariam um caminho diferente, passando por outros desafios, e justificou os motivos. Em pequenas atitudes percebo uma mudança na forma de relacionamento com o mundo digital", observa a mãe.

Os alunos Rafael Freire Nunes, Giovanni Carvalho Loschi, Bernardo Guido Santos e Otto Faria Bernardes (da esq. para a dir.), da Fundação Torino: desde a educação infantil a escola busca desenvolver o pensamento lógico(foto: Divulgação)
Os alunos Rafael Freire Nunes, Giovanni Carvalho Loschi, Bernardo Guido Santos e Otto Faria Bernardes (da esq. para a dir.), da Fundação Torino: desde a educação infantil a escola busca desenvolver o pensamento lógico (foto: Divulgação)
Na Fundação Torino, a disciplina substituiu a tradicional aula de informática. "Entender o conceito da programação é tão importante neste novo mundo quanto uma segunda língua", observa Márcia Naves, diretora da escola e pesquisadora das tecnologias virtuais. As aulas de programação acontecem de forma transversal. Isso quer dizer que, se o professor ensinou na lousa operações de multiplicação, os alunos podem ser incentivados a construir um aplicativo para desenvolver o cálculo. Aproveitando a aula de história, a tarefa pode ser criar uma espécie de "Supertrunfo" com as figuras do Brasil Império ou da República. "Queremos que o ser humano seja mais proativo, que ele programe, e não seja programado, que desenvolva raciocínio lógico, que seja maior que a máquina."

No Colégio Santo Agostinho, os alunos da 1ª série do ensino médio testam a capacidade de seus robôs para desempenhar tarefas simples. O interesse em desvendar os caminhos do mundo das máquinas, com o uso da física, matemática e programação estimulou, inclusive, a criação de equipes de robótica no colégio. Na aula, os estudantes constroem semáforos, criam sistemas de alarme e sensores para carros, fazem luzes piscar. A partir daí estão prontos para desenvolver desafios mais complexos, como fazer um robozinho cumprir tarefas em um circuito com diversas manobras. As equipes do colégio participam de competições universitárias e da Olímpiada Brasileira de Robótica. "Criar soluções para problemas reais é um dos grandes atrativos da disciplina", explica Clovis Oliveira, diretor da unidade Belo Horizonte.

Sérgio dos Santos e Luiza Barros são alunos do Colégio Bernoulli: aplicativo criado pela escola colocou a sala de aula na palma da mão e potencializou a rotina de estudos para o Enem(foto: Violeta Andrada/Encontro)
Sérgio dos Santos e Luiza Barros são alunos do Colégio Bernoulli: aplicativo criado pela escola colocou a sala de aula na palma da mão e potencializou a rotina de estudos para o Enem (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Júlia Cerqueira, de 15 anos, e Matheus Coelho, de 17, são da mesma equipe R2D2, uma homenagem ao emblemático robô da série Star Wars. "Sou muito curiosa para saber como as coisas funcionam", diz Julia. Mateus acredita que será um futuro engenheiro, mas por enquanto todos os esforços estão voltados para fazer o pequeno robô cumprir os requisitos do circuito durante uma competição. Rafael Silluzio, de 17 anos, conseguiu ótimos resultados e extrapolou os ensinamentos da aula para criar um aplicativo que permite acender a luz do seu quarto com o celular. Já Júlia Rocha, de 15 anos, está em contato com a disciplina pela primeira vez e adorou usar a física e a matemática para criar soluções práticas. "Na aula de biologia, desenvolvemos um modelo para dar comida ao peixe na hora certa", conta Júlia. "Além dos conceitos da programação e projetos interdisciplinares, a robótica tem pontos importantes, como o trabalho em equipe, objetivos, planejamento e cumprimento de prazos e metas", observa o diretor Clovis.

Desenvolver o pensamento lógico para organizar melhor as tarefas do dia pode ajudar muito no aproveitamento do tempo, especialmente na rotina rígida de quem estuda para o Enem. Com um aplicativo desenvolvido pelo Colégio Bernoulli, o tempo parece se alongar um pouco para os estudantes Luiza Barros e Sérgio dos Santos, da 3ª série do ensino médio. No radar dos dois adolescentes está a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e cursos com disputa acirrada, como direito e medicina. A rotina de estudos é de domingo a domingo, normalmente quase 10 horas por dia, e o aplicativo Meu Bernoulli se tornou parceiro inseparável. A ferramenta contém uma série de dispositivos que leva a sala de aula para o quarto ou para o clube. É possível acessar videoaulas sobre os conteúdos e sugestões de links para aprofundar o conhecimento. A correção dos exercícios pode ser acompanhada on-line. Outra opção disponível no aplicativo tem funcionado quase como um bálsamo para acalmar a ansiedade: o dispositivo traz de imediato as respostas dos simulados, com a correção de todas as questões. Assim que o estudante deixa a sala de aula, já pode saber exatamente qual foi sua performance. "O professor sempre será necessário, mas a tecnologia nos dá mais autonomia e faz o tempo ser melhor aproveitado na sala de aula", observa Luiza.

Otávio Luiz Gerth, João Pedro Barbosa e Aniele Knop Pio, observados pela diretora do Coleguium, Daniele Passagli: jogos de matemática e aplicativos garantem autonomia aos estudantes(foto: Violeta Andrada/Encontro)
Otávio Luiz Gerth, João Pedro Barbosa e Aniele Knop Pio, observados pela diretora do Coleguium, Daniele Passagli: jogos de matemática e aplicativos garantem autonomia aos estudantes (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Rommel Fernandes Domingos, diretor de ensino do Grupo Bernoulli, não acredita que o professor será substituído pela tecnologia, mas os educadores poderão usar em doses cada vez maiores essa parceria. Hoje, os alunos da escola convivem ao mesmo tempo com as apostilas de papel, os tablets e smartphones. As novas ferramentas têm também um fim prático: aliviar o peso da mochila, uma vez que todo o material está disponível na versão digital. "Disponibilizamos os recursos para que o caminho da tecnologia seja tranquilo para nossos estudantes", diz Rommel.

No Coleguium, a tecnologia está presente nas diversas fases da formação do estudante, de acordo com a faixa etária. "Um dos projetos do ensino fundamental I são os jogos de matemática, em que as crianças respondem aos desafios direcionados pelo professor, tornando a solução de problemas e a fixação do conteúdo quase uma brincadeira", explica Daniele Passagli, diretora pedagógica do Coleguium Rede de Ensino. Ela explica que no ensino fundamental II as ferramentas são ampliadas e já existem videoaulas e sistema de monitoria virtual, o que ajuda na solução de dúvidas do para casa, ampliando a autonomia do aluno. O modelo se torna ainda mais amplo no ensino médio, quando uma completa plataforma de videoaulas, suporte na correção de atividades, respostas aos simulados do Enem e exercícios extras são estimulados e potencializados por meio da tecnologia.

Ensino com inovação: no Unimaster, o projeto Mundo Leitor pode ter como resultado a criação de um livro digital(foto: Paulo Márcio/Encontro)
Ensino com inovação: no Unimaster, o projeto Mundo Leitor pode ter como resultado a criação de um livro digital (foto: Paulo Márcio/Encontro)
Lousa interativa, computadores, projetores. O acesso ao mundo digital é rotina na sala de aula do Colégio Cotemig, onde a formação do ensino médio é concomitante com o ensino técnico em informática. Ao mesmo tempo que usam a tecnologia para potencializar o aprendizado, os estudantes estão também do outro lado, criando novos conceitos. Um dos projetos atuais está sendo desenvolvido com alunos da 3ª série do ensino médio, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "A atividade integra nosso projeto de inovação tecnológica, que incentiva o empreendedorismo. Os estudantes identificam problemas em suas comunidades e buscam soluções para resolvê-los", diz Leonardo de Souza, coordenador técnico do colégio.

Na parceria com a Embrapa, os aplicativos serão usados pelo produtor rural como plataforma para obter informações rápidas sobre a qualidade do leite e o que influencia no preço final recebido pelo produtor. O app também traz ferramentas que vão auxiliar principalmente o pequeno e médio produtor rural a monitorar e calcular o custo de produção, uma informação importante para organizar o negócio e torná-lo mais lucrativo. Ele será apresentado na Finit (Feira Internacional de Negócios, Inovação e Tecnologia), que acontece em outubro no Expominas.

Igor Macedo, Diego Rates, Arthur Lemes e Joey Clapton (da esq. para a dir.), estudantes do Colégio Cotemig: desenvolvimento de aplicativo para ajudar o produtor de leite a monitorar a qualidade do alimento e conhecer seu custo de produção   (foto: Violeta Andrada/Encontro)
Igor Macedo, Diego Rates, Arthur Lemes e Joey Clapton (da esq. para a dir.), estudantes do Colégio Cotemig: desenvolvimento de aplicativo para ajudar o produtor de leite a monitorar a qualidade do alimento e conhecer seu custo de produção (foto: Violeta Andrada/Encontro)
O uso de ferramentas tecnológicas dentro e fora da sala de aula também é um aliado de peso no Colégio Unimaster, do grupo de ensino SEB. Um dos projetos pedagógicos da escola é o Mundo Leitor, um método que desenvolve o olhar da criança sobre si mesma, sobre o outro e o mundo, a partir de livros "imaginéticos", da educação infantil até o 5º ano do ensino fundamental. A atividade articula, com o suporte da tecnologia, diversas áreas do conhecimento. De forma lúdica, as crianças pesquisam um tema e a partir daí elaboram um plano de ação com várias etapas, inclusive campanhas de conscientização com a população. "No desfecho da atividade, os estudantes criam seu próprio livro em duas versões, no papel e na plataforma digital", diz a diretora Eliane Veloso.

A tecnologia tem trazido o mundo desconhecido para mais perto dos estudantes, afinal, a realidade pode ser também virtual. Com o uso de óculos que permitem a interação, alunos da Fundação Torino conseguem ampliar as aulas de artes e geografia. É possível visitar o museu que foi objeto de estudo em sala de aula ou mesmo conhecer a cidade onde farão um intercâmbio. Clones tão perfeitos como os vistos no filme Blade Runner, sucesso da década de 1980 que acaba de completar 35 anos, podem ainda ser uma ficção atualmente, mas o fato é que a máquina está cada vez mais próxima de nós. O que as escolas buscam é que as novas gerações estejam prontas para usá-las e as vejam não como ameaça, mas como ferramenta para melhorar a qualidade de vida e das relações em um mundo mais humano e cooperativo.

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