12 dúvidas sobre o câncer de mama

A prevenção e o diagnóstico precoce potencializam as chances de cura e são as principais armas contra o câncer que mais ameaça mulheres em todo o mundo. Encontro entrevistou cinco especialistas para esclarecer algumas questões frequentes sobre a doença

por Marinella Castro 18/10/2017 11:29

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Todos os anos, milhões de mulheres em todo o mundo recebem o diagnóstico positivo para o câncer de mama, tipo mais comum da doença entre elas. Cada uma tem sua forma particular de lidar com o tratamento e as transformações da vida a partir da doença. O diagnóstico precoce está intrinsecamente relacionado à cura. Por isso, segundo a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a mamografia indicada para mulheres acima de 40 anos é o método mais eficiente para o rastreamento da doença e deve ser uma prática regular. Com a campanha "Contra o câncer, pela vida!", a SBM reforça o direito das mulheres à prevenção e ao tratamento. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de mama vem crescendo na ordem 2% ao ano, e a estimativa para 2017 é de quase 60 mil novos casos no Brasil. "Quando a doença é diagnosticada em sua fase inicial, a cura pode atingir 99% em alguns tipos específicos", diz  o presidente da regional Minas Gerais da SBM, Waldeir de Almeida.

As causas do câncer de mama não são definidas, mas sabe-se que os fatores genéticos representam apenas cerca de 10% dos casos. Por isso, mesmo que uma mulher não tenha histórico da doença na família, não pode descuidar da prevenção. Apesar de mais frequente após os 50 anos, a doença vem crescendo entre mulheres mais jovens. Neste Outubro Rosa - movimento criado para estimular a prevenção -, Encontro entrevistou cinco especialistas no tema, respondendo a dúvidas frequentes em seus consultórios.

1) Como hábitos saudáveis podem ajudar a prevenir o câncer de mama?
A doença não tem uma causa definida, mas sedentarismo, aumento do sobrepeso e obesidade, dieta rica em gorduras, ingestão de álcool e uso de hormônios diariamente por longo prazo fazem crescer os riscos. A prática de atividade física, uma dieta equilibrada, o índice de massa corporal abaixo dos 25%, aliado a uma prática de 150 minutos de atividade física aeróbica por semana, podem ajudar a reduzir o risco do câncer de mama em até 20%. É importante dizer também que mulheres que praticam atividade física e desenvolvem o câncer têm melhor recuperação e menos chances de recidivas. Os hábitos de vida saudáveis devem estar associados à mamografia, já que, com diagnóstico precoce, dependendo do tipo do câncer, as possibilidades de curam chegam a 99%.

Waldeir de Almeida Júnior, presidente da regional Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM)

2) A mamografia é ainda a melhor forma de prevenção? ELA pode ser substituída pela Ultrassonografia?
A mamografia é comprovadamente o melhor método de rastreamento precoce do câncer de mama para a população assintomática e não deve ser substituída pela ultrassonografia. Ela é um exame seguro, com baixa radiação, e precisa ser feita anualmente. Essa é, inclusive, a indicação da Sociedade Brasileira de Mastologia e da American Cancer Society. Em alguns casos especiais, em populações específicas, de altíssimo risco, com mutações genéticas, pode ser indicado ainda um outro exame: a ressonância nuclear magnética.

Henrique Salvador, presidente e coordenador do Serviço de Mastologia do Hospital Mater Dei

3) Na pós-menopausa as mulheres estão mais sujeitas ao câncer de mama?
A incidência da doença é maior na faixa etária acima dos 50 anos. Na pós-menopausa as mulheres que já tiveram câncer de mama devem ficar atentas ao peso, já que a gordura aumenta a incidência de estrógeno nas mamas. A atividade física é recomendada, melhora a longevidade, ajuda a manter o peso em equilíbrio, regula melhor os hormônios e ajuda a reduzir a incidência do câncer de forma indireta. Outro ponto importante para esse grupo de mulheres é controlar o consumo de bebidas alcoólicas, também um fator indireto de risco.

Henrique Salvador

4) O que tem aumentado mais, o número de casos de câncer de mama ou os diagnósticos?
Os dois fatores juntos. Quando as sociedades se industrializam e se modernizam, existe um aumento da incidência de doenças na população, entre elas o câncer. Apesar de a faixa etária mais atingida estar entre os 50 e 69 anos, a doença vem crescendo entre pacientes mais jovens, abaixo dos 30 anos e entre os 30 e 40 anos. A influência dos hábitos de vida nas causas de câncer é mostrada em alguns estudos. Um deles, já antigo, mas interessante, mostrou que mulheres japonesas têm baixo índice de câncer de mama. Ao sair do Japão e migrar para os Estados Unidos, assumindo os hábitos, estilo de vida e incorporando fatores psicossocioambientais do ocidente, as mulheres passaram a ter índices da doença compatíveis com o local onde passaram a viver.

Marília Felicíssimo, coordenadora do Serviço de Mastologia do Hospital Biocor

5) Mulheres que passaram por um tratamento de câncer podem engravidar?
Podem, sim. No entanto, como a quimioterapia atua no ovário, as mulheres podem entrar em menopausa precoce. É importante que aquelas pacientes que desejam ser mães questionem seus médicos sobre a possibilidade de se preservar os óvulos. Dois anos após o tratamento com a radioterapia, e após o uso da medicação hormonal, as mulheres já podem engravidar e amamentar normalmente.  A amamentação também é um fator importante. Estudos científicos mostram que a cada dois meses de amamentação as mulheres reduzem em 4,3% o risco de desenvolver o câncer. O desenvolvimento completo das mamas só acontece durante a amamentação.

Waldeir de Almeida Júnior

6) Se na família de uma mulher não há casos de câncer, ela pode ficar mais tranquila quanto à prevenção?

Não pode. Grande parte dos casos de câncer de mama não tem fatores de risco associados. A mamografia deve ser feita anualmente e a ultrassonografia nos ajuda a tirar dúvidas e guiar procedimentos. É um complemento.

Marília Felicíssimo

7) Os tratamentos estão evoluindo, com drogas mais eficazes e com menos efeitos colaterais?
Sim, a quimioterapia tem menos efeitos colaterais que antes e resultados bem mais eficientes, essa é uma boa notícia. Contra a alopécia (queda de cabelo) existem as toucas geladas, que, dependendo do tipo de câncer, podem reduzir a queda de 59% a 80% dos casos.

Luis Cláudio dos Santos, mastologista do Hospital Felício Rocho

8) O autoexame deve continuar a ser feito mesmo com a mamografia?
É um hábito importante, que não compromete o processo da mamografia feita regularmente. Existe o carcinoma, que pode surgir em um intervalo entre mamografias. De três a quatro vezes ao ano, após a menstruação, a mulher pode fazer o autoexame. O diagnóstico precoce aumenta as chances de cura.

Luis Cláudio dos Santos

9) Quando a cirurgia para retirada das mamas, como feita pela atriz Angelina Jolie, é recomendada?
A mutação comprovadamente genética é rara. Mas quando ela ocorre, a chance de desenvolver um câncer de mama chega a 80%. Quando há hereditariedade, como o caso de incidência da doença em avós, mãe, filha, tias, ou seja, em mais de dois parentes de primeiro grau, a paciente é encaminhada para um aconselhamento genético. Caso os testes apontem alto risco, pode ser indicada a cirurgia profilática de mama e ovários.

Luiz Cláudio dos Santos

10) Desodorantes e antiperspirantes representam risco para a doença, como se diz nas redes sociais?
Esse é um mito absoluto. Não existem estudos com base científica que demonstrem relação de causa e efeito entre o uso desses produtos e o câncer.

Henrique Salvador

11) Uma nova tecnologia genética para diagnóstico do câncer é a chamada dd-PCR. Como ela funciona?
Os exames por PCR digital, como dd-PCR  (digital em gotas), oferecem maior sensibilidade para a detecção de alterações gênicas em amostras com quantidades restritas de DNA tumoral, como nas chamadas biópsias líquidas (extraídas do sangue). Elas serão cada vez mais utilizadas, pois poupam os pacientes de biópsias desnecessárias. No sistema de dd-PCR Digital, as alterações genéticas procuradas são facilmente detectadas por fluorescência. O PCR digital oferece adicionalmente custos menores  emaior rapidez nos resultados.

André Marcio Murad, coordenador da disciplina de Oncologia da Faculdade de Medicina da UFMG e diretor clínico da Personal - Oncologia de Precisão e Personalizada

12) Qual a importância de se ter um tratamento precoce e personalizado para o câncer?
O estudo genômico em oncologia serve não apenas para indicar o melhor tratamento para a doença, mas também para estabelecer seu prognóstico e a sua prevenção. Hoje nós sabemos que há pelo menos 12 genes responsáveis pela síndrome de predisposição aos cânceres de mama e ovário (os principais são os genes BRCA 1 e 2). A terapia genômica ou alvo-molecular é aquela que é desenvolvida para atuar especificamente em determinado alvo molecular causador da multiplicação das células de determinado tumor. Os medicamentos de tecnologia alvo-molecular têm atuação mais direcionada, atacando especificamente as células doentes. A quimioterapia convencional ataca células tumorais e as saudáveis também. As drogas alvo-moleculares são mais específicas no combate às células tumorais. Inúmeras drogas foram desenvolvidas com esse perfil, e várias já estão disponíveis comercialmente, inclusive no Brasil e na rede pública.

André Marcio Murad

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A jornalista Daniella Zupo, de 44 anos, recebeu seu diagnóstico positivo para o câncer de mama em 2015. De frente para a doença "ainda estigmatizada como uma sentença de morte", ela percebeu que a notícia mais difícil de toda a sua vida lhe daria também a chance de viver uma transformação profunda, uma revisão de valores, do que realmente conta e tem importância. A experiência da vida a partir do câncer de mama foi retratada por Daniella em um diário, mais tarde transformado no livro de poesia, crônica e contos Amanhã Hoje É Ontem, lançado pela editora Ramalhete. O nome do livro vem de uma frase que a jornalista ouviu de sua filha. Aos 5 anos - a menina tem hoje 11 -, ela ainda tentava compreender o tempo. Amanhã Hoje É Ontem expressa como o passado, o presente e o futuro estão conectados. "Temos a tendência de sempre adiar decisões importantes, mas o diagnóstico de uma doença grave nos faz trazer essas reflexões para o presente." Daniella também transformou sua jornada na premiada websérie de mesmo nome, compartilhando com o leitor momentos difíceis e emocionantes de sua jornada. Para a jornalista, o livro e a websérie , além de um exercício terapêutico, convidam o leitor a celebrar a vida.

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Manter a rotina, sempre que possível, foi um dos caminhos trilhados pela empresária Tina Lage quando descobriu o câncer de mama em 2009, aos 49 anos. "Meu tratamento foi completo, fiz três cirurgias, radioterapia e quimioterapia", conta. Ela se lembra que uma de suas operações foi marcada no dia do aniversário de 15 anos de sua filha. "Decidi não adiar", diz. "Não quis deixar nada para depois." Observando as campanhas de incentivo à atividade física durante este Outubro Rosa, Tina conta que em nenhum momento abandonou o "movimento", um aliado na sua trajetória. "Não consegui usar peruca e durante a quimioterapia decidi assumir minha carequice." Ela se lembra que no primeiro dia em que foi caminhar na Lagoa Seca, no Belvedere, sem cabelos, várias pessoas, algumas que ela nem conhecia, passaram a cumprimentá-la e lhe dar um abraço. Para Tina, o apoio dos amigos e da família, além de manter o corpo ativo, ajudou em sua recuperação. "Mantive minha agenda com o personal trainer durante todo o tratamento."

Violeta Andrada/Encontro
(foto: Violeta Andrada/Encontro)
Foi durante um autoexame que a funcionária pública Nádia Bueno, de 44 anos, descobriu o nódulo que se apresentou como um tipo agressivo de câncer de mama. "A princípio pensei que fosse uma sentença de morte, mas o sentimento durou pouco." A possibilidade de cura fez com que ela se enchesse de esperança. Mãe de quatro filhos, Nádia sempre gostou de fotografias e decidiu construir um blog, registrando com imagens as etapas do seu tratamento. "Decidi viver a vida com alegria e leveza, valorizando as coisas boas durante um momento tão difícil." O câncer de mama fez a rotina ganhar um gosto novo, com a valorização dos pequenos momentos. Nádia organizou a campanha "A vida é bela". A ideia veio quando ela se maquiava em frente ao espelho. "Manter a autoestima é muito importante durante o tratamento." A campanha distribui lenços, bijuterias e maquiagem novas para mulheres em tratamento que não podem comprá-las. "Em vez de pensar 'por que comigo?' passei a pensar 'para quê?' Quero transmitir a minha família e a todas as pessoas uma mensagem de alegria, mostrar que o câncer de mama é uma doença que tem cura e pode ser superada."

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