Diretor-presidente da Usiminas garante que a empresa voltará a ser referência

Ele explica como conduziu o processo que está deixando para trás a pior fase da siderúrgica e diz que espera ver a volta da harmonia entre controladores da companhia, agora que o lucro retornou ao balanço

por Marinella Castro e Alessandro Duarte 06/12/2017 14:52

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Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
No dia 26 de outubro, às 10h, horário que em 1962 foi acionado o alto-forno de Ipatinga, cerca de 1,5 mil funcionários da Usiminas participaram, na sede da empresa, em Belo Horizonte, de uma homenagem aos 55 anos de operação da siderúrgica. Conectados, eles entoaram um parabéns para você, puxado pelo diretor-presidente, Sérgio Leite de Andrade. As palmas por mais um ano de vida traziam um gosto diferente, alívio, orgulho e fé no futuro. Nos últimos três anos, a sobrevivência da empresa entrou em xeque. A crise foi tão profunda que no início de 2016 o mercado chegou a ter dúvidas se a Usiminas alcançaria o seu 55º aniversário. Três fatores complicaram a situação da companhia: a recessão brasileira, a queda da demanda pelo aço no mercado internacional e um desentendimento entre os sócios controladores, o grupo japonês Nippon Steel e o conglomerado ítalo-argentino Ternium/Techint. A briga ainda está na Justiça e provocou uma dança das cadeiras na presidência da empresa. O maior centro de serviços e distribuição de aços planos do Brasil correu o risco de entrar em recuperação judicial "e até mesmo de falir", admite Leite, que completa 40 anos na companhia. No fim de outubro, a homenagem que aconteceu em Belo Horizonte se repetiu em Ipatinga, com a presença de diretores e do conselho da Usiminas. "Em Ipatinga nós acendemos a chama do futuro", diz Sérgio Leite. Nos três primeiros trimestres deste ano, a Usiminas registrou lucro líquido de 360 milhões de reais, contra prejuízo de 380 milhões de reais no mesmo período de 2016. Uma mudança e tanto. A empresa voltou a contratar - foram quase mil novos funcionários em 2017 - e planeja para abril religar o alto-forno 1 de Ipatinga. Com uma dívida robusta, de 6,9 bilhões de reais, a siderúrgica quer enviar bons sinais ao mercado antecipando pagamentos. As metas são ambiciosas, mas, como Sérgio conta nesta entrevista a Encontro, prometem fazer com que a Usiminas volte, em dois anos, a ser referência nos mercados nacional e internacional.

Quem é: Sergio Leite de Andrade, 64 anos
Origem: Belo Horizonte (MG)
Formação: Graduado em engenharia metalúrgica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em engenharia metalúrgica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possui especializações como engenheiro e auditor da qualidade pela American Society for Quality (ASQ) e pela Associação Brasileira de Controle da Qualidade (ABCQ)
Carreira: Diretor-presidente da Usiminas, ingressou na empresa em 1976. É vice-presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil, do qual é membro desde 2008, e integrante do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais (ABM), do qual também foi diretor por dois mandatos (1993 e 1998/1999)

ENCONTRO - Nos três primeiros trimestres deste ano, a companhia apurou lucro líquido de 360 milhões de reais, depois de um prejuízo de 380 milhões de reais no mesmo período de 2016. No ano passado houve até risco de uma recuperação judicial. Qual a receita dessa virada?
SÉRGIO LEITE DE ANDRADE - De fato, a Usiminas atravessou três anos muito delicados. Foram os três anos mais difíceis da empresa. A crise começou no quarto trimestre de 2014 e percorreu o ano de 2015, quando percebemos a deterioração constante de nossos resultados. No início de 2016 a empresa correu elevado risco de recuperação judicial, e até de falir. Chegamos a apresentar Ebtida (sigla em inglês para lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) negativo no primeiro semestre de 2016. Mas a partir daí lançamos um plano de sobrevivência. Nós iniciamos um trabalho muito forte na Usiminas, focado em gestão, no qual tínhamos um objetivo importante que era gerar resultado. A meta era de 100 milhões de reais de Ebitda por mês, de julho a dezembro de 2016. O que conseguimos cumprir.

Quais foram os principais pontos desse plano de salvação?
A Usiminas teve um aporte de capital de 1 bilhão de reais. O objetivo era prover dinheiro no caixa para que ela continuasse suas operações. O aporte foi feito pelos dois maiores acionistas, Techint e Nippon, além daa CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). Voltamos a ter caixa, o que nos permitiu retomar as operações. Renegociamos a dívida com os bancos e por fim, inspirados no filme Os Sete Samurais, criamos o grupo dos 10, formado por profissionais de elevada competência em posições de comando. Esse foi o núcleo de transformação da empresa, no qual todas as ações começaram a ser construídas. A partir desse grupo envolvemos milhares de pessoas. Conseguimos alcançar nossas metas de Ebitda positivo.

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Nós, da Usiminas, esperamos que os bons resultados da empresa tragam harmonia entre os controladores. Somos avessos a conflitos e a discussões destrutivas" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
E o conflito entre os controladores da empresa, os japoneses do grupo Nippon e os ítalo-argentinos daTernium/Tenaris, que provocou inclusive uma dança de cadeiras na presidência da companhia? O impasse pode chegar ao fim?
Esse conflito entre os dois controladores é real, é público, está na mídia e nos tribunais. O meu papel é de união, mediação, busca de entendimento. Nisso temos tido sucesso. Dentro da Usiminas não existe conflito. Todos estão trabalhando juntos, de forma integrada. Brasileiros, japoneses e ítalo-argentinos estão contribuindo para a construção desse resultado.

Em que medida a disputa influenciou negativamente a companhia?
Podemos dizer que a deterioração de resultados foi influenciada, sim, pelo conflito. Mas é claro que a recessão e a crise mundial do setor siderúrgico também criaram um cenário conturbado para operação da empresa.

Dizem que em casa onde falta pão todos brigam e ninguém tem razão. Os bons resultados podem melhorar o ambiente entre os controladores da companhia?
(Risos.) Concordo com esse ditado muito usado aqui em Minas. Quando falta pão, os problemas surgem. Quando os resultados aparecem, eles contribuem para a solução. Nós, da Usiminas, esperamos que os bons resultados da empresa tragam harmonia entre os controladores. Somos avessos a conflitos e a discussões destrutivas. Esperamos que todo esse trabalho feito com a equipe motivada, equilibrada e unida leve para fora da empresa esse clima de satisfação e orgulho. Quero que os mineiros tenham orgulho de uma empresa que constrói, que pratica o bem.

Neste ano as ações da siderúrgica tiveram uma das maiores valorizações do Ibovespa. A antecipação do pagamento da dívida é uma sinalização positiva para o mercado?
Fechamos o terceiro trimestre de 2017 com um Ebitda anual acumulado próximo a 2 bilhões de reais. Esse é o mesmo resultado apurado pela empresa em 2013, antes de entrar na crise. Com a antecipação da amortização da dívida, sinalizamos para o mercado a situação financeira e operacional saudável da Usiminas. No início de 2016, a empresa não tinha condição de amortizar sua dívida com bancos brasileiros e japoneses. Agora, renegociamos a dívida com os bancos. Fizemos um acordo de reescalonamento para amortização em 10 anos e três anos de carência. No entanto, vamos antecipar essa amortização, que começaria em setembro de 2019, para este mês de dezembro. Serão 90 milhões de dólares amortizados em dezembro e 180 milhões de dólares em janeiro, o que soma mais de 900 milhões de reais.

A Usiminas tem como foco principal o mercado interno. A companhia está confiante na retomada da economia?
Sim. Em 2018 deve haver um crescimento do consumo de aço plano no Brasil entre 5% e 10%. Puxada pelas exportações, a indústria automotiva está crescendo 27% neste ano, o que é espetacular. Acreditamos em um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2,5% e 3% em 2018.

Mas e o futuro do aço plano? O consumo brasileiro tem baixo crescimento na comparação com outros países. Quando vamos repetir os resultados de 2013?
O melhor ano de venda de aço no Brasil foi 2013. As vendas ultrapassaram 24 milhões de toneladas. Quando vamos repetir esse recorde? Imaginando as premissas atuais da economia, estudos do setor apontam que somente em 2028. Teremos anos difíceis para o consumo aparente de aço. No entanto, o Brasil tem um grande potencial. Tem carência em infraestrutura e o aço é o material extremamente adequado para atendê-la. O Brasil tem um déficit habitacional de mais de 5 milhões de moradias. A construção civil é o maior consumidor mundial de aço.

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"Fechamos o terceiro trimestre de 2017 com resultado anual acumulado de cerca de 2 bilhões de reais. É o mesmo que apuramos em 2013, antes da crise" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A reabertura do alto-forno 1 de Ipatinga significa uma confiança na economia brasileira?
Esta volta, em abril, está conectada com uma análise da economia brasileira. Foram quase três anos da maior recessão em nossa história. A reforma vai gerar um incremento de cerca de 700 mil toneladas anuais à capacidade de produção de ferro-gusa na Usina de Ipatinga. O investimento para religar o alto-forno  foi de 80 milhões de reais. A crise política é grave, mas percebemos que está havendo um descolamento entre economia e política. Cada vez a influência da política é menor. Temos um governo com taxa alta de impopularidade, mas o ritmo da economia está seguindo o seu curso.

A transparência tem sido uma demanda permanente da sociedade. Vemos que grandes empresas estão investindo fortemente nisso. A Usiminas tem um setor de compliance?
A transparência é fundamental para a Usiminas.  Temos recebido prêmios nesse sentido. Nosso trabalho é liderado pelo jurídico e pela auditoria. Como empresa de capital aberto, nós apresentamos todos os nossos resultados aos investidores e à sociedade.

Em todo o seu processo de recuperação, a Usiminas falou em redução de custos. Ainda há espaço para cortes?
Há sempre espaço para reduzir custos. Estamos fechando o nosso orçamento para 2018 e já temos definidos nossos alvos. Onde podemos conseguir esse resultado? Em melhoria de processos e ganhos de produtividade usando tecnologia da informação. Na nossa visão, esse é um processo permanente e vai continuar acontecendo. Tudo pode ser melhorado. Aliás, essa é a grande essência da raça humana.

O que o senhor espera do ano que vem? As eleições podem perturbar esse curso da economia?
Não acredito. Esperamos crescimento do PIB e que o governo eleito conduza o país para novos rumos.

E quais serão os novos rumos da Usiminas?
Temos em curso um projeto estratégico em parceria com a Fundação Dom Cabral, chamado de Trilhas da Liderança. O foco desse projeto é preparar os nossos líderes para o futuro da Usiminas. Saímos da fase de sobrevivência e estamos agora planejando o que a siderúrgica quer para 2020, 2021, 2022. Em dois anos, até 2020, a empresa deve ser novamente referência no mercado de aço nacional e internacional.

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