Educar os filhos na era da tecnologia é um desafio, diz a pediatra Dra. Filó

Após palestra que bombou nas redes sociais, ela fala sobre a dificuldade de pais educarem seus filhos em um mundo no qual a tecnologia leva, silenciosamente, perigos para dentro de casa

por Marina Dias 20/03/2018 14:02

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Samuel Gê/Encontro
"Observo que muitos pais não dão limites aos filhos não é porque não querem, mas porque não sabem. Eles me procuram para me pedir ajuda sobre como impor limites aos filhos. Eu tento ajudar, mas esse papel é de pai e mãe. E, para dar limites, os pais precisam ter seus próprios limites" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Você apostaria na viralização de um aúdio (portanto, sem imagens), de 45 minutos de duração, na internet? Pois foi exatamente o que aconteceu com uma palestra proferida no Colégio Santo Antônio. Por trás da surpreendente repercussão, está a médica pediatra Filomena Camilo do Vale, conhecida por dra. Filó, e suas contundentes afirmações sobre como educar filhos. Na verdade, o problema é mais profundo. Por trás de toda essa repercussão reside um dilema: a enorme dificuldade que pais desta geração estão tendo para educar seus filhos, notadamente diante das tentações e perigos que a internet trouxe para dentro de nossas casas.

Diante disso, a experiência, aliada ao jeito firme com o qual dra. Filó transmite seus ensinamentos, soa como luz na escuridão. A médica não atende a novos pacientes, porque não dispõe de mais horários. Tampouco aceita convites para novas palestras. Mas ela não abre mão de sua rotina semanal na igreja do Belvedere e em hospitais públicos, como a Santa Casa; também não deixa de atender quem já é seu paciente (a qualquer hora do dia ou da noite).

Neste ano, quando foi convidada pelo Colégio Santo Antônio para debater um tema de sua escolha com pais de crianças entre 9 e 11 anos, dra. Filó não teve dúvidas: decidiu dividir sua vivência no consultório e relatar os casos cada vez mais precoces de síndrome do pânico, depressão e até suicídio. De acesso a redes sociais até a importância de ensinar os pequenos a andar de bicicleta, ela fala sempre de um jeito simples, fácil de entender, mas duro e firme. Nas palestras, ressalta principalmente o papel dos pais na imposição de limites e na construção da autoestima dos filhos. Reforça, ainda, como é trabalhoso, mas necessário, olhar de verdade para eles. "Observo que muitos pais não dão limites aos filhos não é porque não querem, mas porque não sabem. Eles me procuram para me pedir ajuda sobre como impor limites aos filhos. Eu tento ajudar, mas esse papel é de pai e mãe. Pode buscar ajuda, o que não pode é deixar de tentar", diz.

A médica, contudo, aponta um caminho para quem carece de apoio nesse quesito: "Você não dá o que você não tem. Para dar limites, os pais precisam também ter seus próprios limites."

Dra. Filó não fala com base em estatísticas. Ela apresenta casos que viu no seu próprio consultório, que abriu há mais de 25 anos em BH. Como ela mesma diz, vida de pediatra é uma doação. "Se você não ama profundamente, não escolha essa especialidade", afirma. No caso da mineira de Oliveira, de 56 anos, a profissão nem parece ter sido escolha. Filó conta que, depois que passou no vestibular, sua mãe finalmente lhe confessou sua "predestinação". "Ela me disse que, quando eu nasci, o obstetra me segurou e falou: ‘nasceu uma médica’."

Nessa vida de doação, sobra pouco tempo livre, muito do qual ela ocupa com sua fé. São famosos os grupos de oração que ela realiza, toda terça-feira, na igreja Nossa Senhora Rainha, no Belvedere. Estão sempre lotados. E agora, ela e o marido, o engenheiro Anselmo de Carvalho, também se dedicam ao papel de avós. O pequeno Felipe, filho de sua enteada Lívia Carvalho, tem 1 aninho. "Na casa de vó tudo é doce. Avó é mãe de mel", diz.

Quem é: Filomena Camilo do Vale, 56 anos
Origem: Oliveira (MG)
Formação: Graduada em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, com residência médica em pediatria pelo Hospital da Baleia e em cardiologia infantil pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Tem mestrado em saúde da criança e do adolescente pela UFMG
Atuação: É médica diarista do CTI pediátrico da Santa Casa de Misericórida de Belo Horizonte e tem consultório particular

A senhora esperava a repercussão que o áudio teve?

Foi um susto para mim. Eu fui para uma conversa informal no Colégio Santo Antônio. Como em 2017, as coordenadoras me ligaram para falar aos pais das crianças de 9 a 11 anos neste início de ano letivo. Elas não estabeleceram qual seria o assunto, pediram que eu escolhesse, apenas levando em conta a faixa etária dos meninos. E como a questão da construção da autoestima para mim, hoje, é um ponto muito sério – afinal, todo mundo sabe o que é uma alimentação boa, por exemplo, quais são alimentos que fazem bem, quais fazem mal –, achei que seria melhor para os pais ouvir sobre isso. Mas foi absolutamente sem pretensão. E a palestra atravessou fronteiras, foi para fora do Brasil! Isso foi um impacto, um susto muito grande. Até agora não sei explicar o que aconteceu. Não sei se foi uma realidade muito rasgada.

E por que a sua principal preocupação é com a autoestima das crianças?
A preocupação é quanto ao adulto que ela será e, portanto, a atenção que precisamos ter na construção da criança. Quando se recebe um filho, recebe-se um mistério. A família precisa trabalhar em sua construção. Tudo que se deseja é que ele seja uma pessoa inteira: uma pessoa de equilíbrio, que seja um bom cidadão, que saiba viver as dificuldades da vida e que tenha consciência daquilo que ele é. Que seja uma pessoa com limites, que saiba conviver com aquilo que é diferente, que saiba respeitar o outro. E a criança vai aprendendo com aquilo que ela vive e vai realizando aquilo que aprendeu. Portanto, temos de atentar: o que ela está vendo? Como está vivendo? Como está experimentando as coisas?

Colégio Santo Antônio/Divulgação
(foto: Colégio Santo Antônio/Divulgação)
E os pais são os principais atores nessa construção?
A grande escola da criança são o pai e a mãe, a família. Pai e mãe são o maior referencial. Isso vai desde o bebê, que só vai no colo de outra pessoa se, ao olhar para os pais, receber uma permissão, sentir confiança para isso, até a idade adulta. Dura para sempre.

Como identificar que a criança está com a autoestima baixa?
A criança tem suas marcas. A principal é a alegria. Qual a razão de ela não ser feliz? Qual a preocupação que uma criança tem? Só brincar. Então é importante observá-la. Eu digo sempre que a consulta médica não começa com exame, começa quando se olha para a criança. É preciso aprender a olhar, a enxergar, a ver. O menino não quer brincar? Não é normal criança não querer brincar. Outra coisa importante é acompanhar seu desenvolvimento. Então pergunto sempre: como ela interage? Tem amigos? É capaz de desenvolver as habilidades relativas a sua idade?

Como estimular esse desenvolvimento de habilidades?
Quando se começa a ensinar equilíbrio? Quando dou uma bicicleta para a criança. Com 3 anos ela pode aprender, e precisa ter meta: vamos aprender a andar com rodinha, depois de "x" meses, vamos tirar a rodinha. Ela vai cair? Claro! Mas tem um adulto atrás que fala "levanta, meu filho. Começa de novo". Essa frase é para a vida. E ela precisa saber para, no futuro, quando os amigos forem andar juntos, ela poder ir também. Outra coisa: tem de pular corda. Para pular corda, precisa ter timing; isso ajuda o menino na concentração na escola. Com 3 anos, a criança precisa aprender a nadar. Nessa idade, já consegue fazer a sincronia entre respirar, bater braços e bater pernas. E aos 7, quando a escola fizer piscinada, ele não vai ficar acanhado porque não sabe nadar. Uma das coisas que fico mais encantada numa consulta é olhar a criança do joelho ao pé. Quanto mais machucado, mais estrupiado, melhor. Eu falo com eles: "sabe o que a tia Filó está lendo nas suas perninhas? Felicidade".

E nessa infância atual, em que as crianças às vezes preferem o tablet, como incluir essas brincadeiras?
É preciso ter equilíbrio. Meu filho vai ter horário do tablet? Vai. Mas não posso deixá-lo apenas lá. Ele precisa ter tempo da escola, tempo do esporte, tempo de brincar. E são brincadeiras simples. Monta um boliche, daqueles de R$ 1,99! A criança tem de andar para montar as garrafinhas e voltar. Aí derruba: tem de ir lá, montar e voltar. Daqui a pouco está morta de tanto andar. Também tem de ser capaz de criar, de pensar, não pode só repetir, seguir ordens. É preciso, ainda, dar à criança o hábito de leitura, de contar histórias. Antes de dormir não pode nada eletrônico. Pode escutar histórias. E os pais podem aproveitar para contar a sua própria história, senão os meninos acham que a vida é mágica. Tem de saber que, se o pai pode dar a ele isso hoje, é porque estudou, trabalhou, acordou cedo… houve uma construção. Não pode ser simplesmente "me dá" ou "passa no cartão de crédito" e pronto.

Samuel Gê/Encontro
"É como se a criança estivesse caminhando numa ponte sobre um abismo: ela precisa de um parapeito para se proteger. Se tiver essa proteção, caminha firme. Se não, vai retroagir, vai ficar insegura e não vai andar. Criança não pode ficar sem limite" (foto: Samuel Gê/Encontro)
E como impor limites aos filhos?
É como instalar um parapeito. O que o menino vai fazer quando vir que foi colocado um parapeito onde antes não tinha? Vai chutar, vai balançar. O parapeito mexe? Não. Se você colocar limites, ele vai tentar confrontar. Mas se vir que aquilo permanece, você gera confiança nele. E ele precisa entender que você está fazendo aquilo para protegê-lo. Como eu disse na palestra: o rio só corre porque tem margem. A criança será um adulto inteiro apenas se tiver limites. Tem autores que falam que uma criança vivendo a vida é como se ela estivesse caminhando numa ponte sobre um abismo: ela precisa de um parapeito para se proteger. Se tiver essa proteção, caminha firme. Se não, vai retroagir, vai ficar insegura e não vai andar. Criança não pode ficar sem limite.

A criança consegue entender o motivo dessas imposições?

É preciso explicar a ela. Quando os pais falam "não pegue a faca", devem dizer que é porque, se a criança pegar, pode se cortar. Ela vai tentar mais uma, duas, três vezes… mas vai entender, toda vez, que o motivo para o "não" é o mesmo. Contudo, se hoje falo "não pegue, porque você pode se cortar" e amanhã estou muito cansada e a deixo pegar, ela não vai entender. E a imposição de limites não é para se ter uma criança disciplinada para ser obediente. É para que ela saiba fazer o que é certo independentemente da presença do adulto, pois ela já entendeu o porquê daquilo.

Quanto à internet e redes sociais, de que forma trabalhar com limites?

Não é questão de proibir o uso, mas de regrar, restringir. Dependendo da idade, a criança não tem maldade para saber que não se pode colocar toda a sua vida no Facebook porque do outro lado da tela pode existir alguém que trará prejuízo para a vida dela. Quem precisa ter essa maldade somos nós. E aí ela vai poder ver vídeos, fotos dos amigos, enfim, as coisas que você permitir que ela veja. Mas à medida que a criança tem 9, 10, 11, ela tem de saber que há pessoas do outro lado da tela que podem lhe fazer mal.

A senhora diz que poucas crianças de 12 anos não viram pornografia. O que fazer caso os pais descubram que o filho teve acesso a esse tipo de conteúdo?
Sentar e conversar. Tudo precisa da verdade. A verdade liberta. Você deve falar "meu filho, essas coisas existem. Mas elas edificam? Isso é bom para você?" Tudo pode, mas nem tudo devo. Existe a curiosidade natural e também o desejo de desafio daquele adolescente – que não é mais criança, mas ainda não é adulto. Ele acha que pode desafiar os pais, acha que está driblando ao acessar conteúdos impróprios, usando drogas… É preciso sempre conversar com esse adolescente, estabelecer regras e mostrar quais são os riscos das atitudes.

Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
A senhora fala sobre a importância de a criança aprender a lidar com a frustração. Como ajudá-la a construir isso?
Quando ela quiser fazer alguma coisa para a qual não está apta, vai receber o "não". E aí vai aprender a lidar com isso. Para uma criança de 6 anos, por exemplo, "você não pode atravessar a rua sozinha". O "não" tem de ser firme, não se pode mudar de ideia se a criança pressionar, do contrário não se estabelece a coerência. Além disso, as verdades têm de ser ditas, ela precisa entender o motivo. Assim a criança vai parar, pensar e vai conseguir trabalhar essas questões dentro de si. Isso é devagar, mas a criança faz esse processo. "Se minha mãe falou que não posso atravessar a rua sozinha com 6 anos, é porque posso ser atropelada e me machucar, então preciso dar a mão para alguém, porque nesta idade não sou capaz de perceber o perigo."

Como não atingir a confiança dela ao dizer que ela não está preparada para algo?
Uma coisa é ela ainda não dar conta, outra é ser incapaz. Os pais devem dizer que, nessa idade, ela ainda está treinando. Podem dizer que, agora, eles atravessam a rua de mãos dadas. Depois, atravessarão lado a lado, sem segurar as mãos. Que é uma fase.

Quais são os sinais de que algo de errado está acontecendo com a criança?
Os pais precisam, de fato, procurar para ver se algo está diferente: um olhar diferente, comportamento diferente. Se o menino que conversa, interage, vai bem na escola e sempre teve uma evolução boa, de repente, começa a cair de rendimento escolar, por exemplo, é sinal de algo que não está certo. E é obrigação dos pais procurar, ver o que pode ser, abrir a rede social. Uma mãe me disse "mas o Whatsapp da minha filha é só com colegas de escola!". Abra mesmo assim. E se ela estiver sofrendo bullying, como eu tive alguns casos no consultório? Essa paciente, meiguinha, linda, caladinha, não disse nada, mas estava sofrendo bullying de uma coleguinha. Se você não olhar para o seu filho, não verá. Adolescente pode ficar trancado em quarto? Isso não é marca do adolescente, que anda em bando. É a isto que pais precisam estar atentos: qual o comportamento normal para cada faixa etária.

A senhora é da opinião de que criança não pode ter senha...
Claro que não pode. Os pais precisam checar o que o filho está fazendo a hora que quiserem. Em todos os casos que presenciei [de problemas na internet], a mãe ou o pai desconfiou porque o filho estava mexendo demais no celular. Quando se entrega um telefone na mão do filho, entrega-se um mundo abertinho para ele. O mundo na palma da mão. Não se sabe o que ele está vendo. O pai às vezes fica tranquilo, pois pensa que o menino está em casa. Mas não está, está no mundo, aberto para ele, com milhões de possibilidades. E a pedofilia, por exemplo, é uma assustadora realidade hoje, da qual a criança não tem dimensão e não tem condição de reconhecer. Pedófilos mandam vídeos para os meninos verem e repetirem – e eles o fazem com o celular. Você precisa ver as coisas que eu vi, os casos que tive. Então não pode ter senha, porque não tem maturidade para tal. Se acontece algo, como é que acessamos os aparelhos para descobrir para onde esse menino ou essa menina foi?

O que esses pacientes a que a senhora se refere, vítimas de crimes cibernéticos, de pedofilia, tinham em comum?
A autoestima baixa. Uma delas era recusada pelos colegas, não estava bem na sala, ficou muito fechada e foi para o computador. Entrou num chat, tinha alguém lá que a convidou para uma conversa sozinha, e assim foi. Quando viu, havia foto dela nua sendo vendida mundialmente. E, quando o adolescente percebe o que está acontecendo, fica deprimido. Tive um caso em que o pai me ligou e falou que tinha algo errado com a filha: ficava só no quarto, o rendimento escolar havia caído etc. Perguntei: "já abriu a rede social?". O pai resistiu. Eu disse que a veria, faria os exames, mas que achava que a doença dela não era física. Quatro meses depois, recebi um telefonema, o pai mal conseguia falar, de tanto que chorava. Havia descoberto que a menina tinha dois perfis no Facebook, um para a família, outro para o mundo, e estava tendo casos por lá.

Samuel Gê/Encontro
"Quando você entrega um telefone na mão do filho, entrega um mundo abertinho para ele. O mundo na palma da mão. Você não sabe o que ele está vendo. O pai às vezes fica tranquilo, pois pensa que o menino está em casa. Mas não, está no mundo" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Por que a internet é tão sedutora?
O mundo virtual te aceita. Nele eu posso mentir, posso dizer que sou uma coisa que não sou. No mundo real, você está me olhando, pode não gostar do meu cabelo, do meu batom, pode pontuar coisas que eu não estou a fim de saber. Na internet, quando não quero ouvir, eu tenho o poder de apagar. Na vida real, é preciso conviver, ter confrontos. É por isso que crianças e adolescentes curtem tanto a internet. É mais fácil viver num mundo de fantasia do que encarar a vida real. Se a gente não acordar, os meninos se tornarão couch potatoes [pessoas que ficam muito no sofá, sedentárias, na televisão ou na internet]. Tive um paciente outro dia que, aos 13 anos, pesava mais de 90 quilos. Mas volto ao mesmo assunto: ninguém deita magro e acorda gordo, nem o inverso. O que está faltando é ver.

Como a senhora avalia a atitude da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) contra as canções de funk?
Fiquei orgulhosa da SBP. Há clipes e vídeos que induzem a violência, naturalizam o estupro. Está tudo muito vulgar. Então eu fiquei feliz, pois pensei que estivesse sozinha nessa luta, que estivesse como Dom Quixote. Fico feliz que não seja a única achando isso.

O que os pais podem fazer, se muitas vezes o contato das crianças com essas músicas se dá nas escolas ou em festas?
Pai e mãe têm de sentar e conversar. Mas a intenção da SBP é impedir que isso seja tocado, porque somos responsáveis pela formação física, mental, espiritual da criança. Temos de permitir que ela cresça num ambiente que seja saudável. Temos de dar um alicerce.

Os pais estão com mais dificuldades em criar os filhos hoje?
Antigamente, eles iam ao consultório com uma questão específica de uma doença. Hoje pedem muita ajuda de criação. E, quando pais buscam ajuda, grande parte é quanto a como lidar com o excesso.

E os casos estão cada vez mais impressionantes?
É tanta síndrome do pânico, depressão, anorexia. É normal uma menina ter síndrome do pânico aos 8 anos? Tentar autoextermínio aos 10? Não. A síndrome do apontador [crianças que usam a lâmina do apontador para se cortar]? E eu me pergunto: qual é a angústia? Qual é o sofrimento em uma geração que tem tudo? Onde está a ausência? Será que não estamos dando demais? Esses meninos não têm mais desejo, não têm tempo de desejar. Por que tudo tem de ser premiado?

Outro ponto que a senhora ressalta na palestra é a importância de a criança compreender que as atitudes têm consequências.
Sim. Desde cedo. O que fazer quando o menino pequeno corre e bate em uma mesa? Você vai lá bater na mesa e falar que ela é boba? Se faz isso, ensina que toda causa de sofrimento dele é o outro. Ora, a mesa está parada. Você deve explicar que, sempre que ela correr e não olhar para frente, vai se machucar. Isso vai sendo construído. Ela precisa entender que é responsável por seus atos. A mãe de uma paciente me ligou certa vez e disse que havia descoberto que a filha de 12, 13 anos, estava tendo vida sexual. "Faço vista grossa, Filó?", ela me perguntou. Eu disse que não, de jeito nenhum. Não se pode fingir que não está vendo. Falei: "Faça o contrário. Acenda todas as luzes da casa. Sente-se com ela e diga que ficou sabendo, e pelo Facebook". Disse que deveria explicar as consequências. Ela pode impedir a menina de fazer alguma coisa, pode andar 24 horas com ela? Não. Mas pode conversar. Os problemas da atualidade têm de ser resolvidos de frente. Não vamos tapá-los, escondê-los debaixo do tapete. E é preciso estar atento. O menino está esquisito? Cheire-o. Veja como ele está chegando da festa, não apenas fique em seu celular e confira se o Uber o deixou em casa.

Como a espiritualidade pode ajudar as crianças?

Acho que nós não somos só isso que parecemos ser, não somos só matéria. Então, na minha opinião, o que precisa ser introduzido na vida das crianças é a noção de sentido da vida. Com 4 anos de idade, a criança passa a ter consciência de morte, começa a descobrir que pai e mãe vão morrer. E a criança pode perder alguém. Aí fica a questão: leva ao velório? Leva. Um dos direitos da criança é saber que existe a morte. Não pode haver mentira, ela tem de viver o luto. E o como trabalhar a perda fica de acordo com a crença da família. Na minha visão – não é o que as famílias têm de fazer, é minha opinião –, se lhe dou a consciência de que a vida é eterna, que não se encerra com a morte, isso pode ajudar a lidar com a morte, pode ser melhor do que não ter esperança nenhuma. É preciso mostrar o sentido da vida: a convivência, a fraternidade, a solidariedade, cuidarmos uns dos outros, do planeta… Senão, vamos viver só voltados para o próprio umbigo.

E o que fazer quando os filhos não quiserem frequentar a igreja, por exemplo?
Deus não pode ser obrigado. Mas todas as crianças que conheço cujos pais têm verdadeira fé, elas vão, porque descobriram que não é uma obrigação, é um encontro com Aquele que a criou. A criança vai viver da forma como os pais conduzem. Se lhe mostro a imagem de um Deus juiz, que vai me pegar em uma curva, ela pode se rebelar contra ele. Mas se mostro um Deus pai de amor, quem não quer? Quem não quer um colo desses? 

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