Mãe que perdeu filha única em acidente na MG-030 abre o coração em entrevista exclusiva

Beatriz, de 19 anos, morreu após o carro em que estava cair em uma ribanceira. O veículo era conduzido pelo namorado da menina, que, segundo a polícia, tinha "sinais de embriaguez" e "hálito etílico". Mãe de Beatriz, a engenheira Tânia Machado fala sobre sua dor e do que mais a ajuda a lidar com a ausência: a certeza de não ter arrependimentos em seu relacionamento com a filha

por Alessandro Duarte e Marina Dias 11/06/2018 14:18

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Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O sábado havia sido de muito trabalho para a estudante de direito e maquiadora nas horas vagas Beatriz Carvalho Pettersen, de 19 anos. Com a clientela de seu pequeno estúdio de beleza - montado em casa por incentivo da mãe, Tânia Machado - crescendo cada vez mais, graças à divulgação do portfólio no Instagram, ela tinha preparado diversas meninas para festas naquele dia, fechando a agenda às dez horas da noite. A própria Bia foi em seguida para a boate naSala, com o namorado, Bernardo Moss, de onde saíram pouco antes das cinco da manhã.

Mas também tinha sido um sábado de mimos. Tânia, engenheira de 51 anos, tinha recusado duas viagens de lazer naquele fim de semana, justamente para poder passar um tempo a mais com a única filha. Preparou a comida preferida de Bia: purê de batata, filé mignon e arroz. Conversaram, brincaram, falaram bobagens. "Era o que a gente mais fazia", diz Tânia.

Saindo da boate, no dia 8 de abril, o combinado era que o casal fosse para a casa dos pais do estudante. Como não chegavam, a mãe dele, preocupada, ligou para Tânia, que acionou um aplicativo de busca de celular e viu que estavam a dez minutos do destino. Ficou tranquila. Pouco depois, ela olhou de novo: continuavam no mesmo lugar. A tranquilidade deu lugar à apreensão. Não demorou muito para saber que o carro onde estavam - e que Bernardo dirigia - saiu da pista, na MG-30, no sentido Nova Lima, atravessou para o sentido contrário e caiu em uma ribanceira de quase 40 metros. Segundo o médico que atendeu ao chamado, o garoto tinha "sinais de embriaguez" e "hálito etílico". Ele foi levado em estado grave para o hospital e sobreviveu. Beatriz morreu no local. E a apreensão de Tânia se transformou em uma dor imensurável.

No dia em que recebeu a reportagem de Encontro para esta conversa, um mês e três semanas depois do acidente que tirou a vida de sua filha, Tânia demonstrou uma força rara de ser vista. Tímida, com muita serenidade, explicou que se vê como uma locomotiva. "A locomotiva sai da estação andando devagarzinho, depois pega um ritmo. Posso dizer que estava no momento em que a locomotiva tinha chegado à velocidade máxima. Estava superfeliz. Com a partida da Beatriz, o trem descarrilou. Então o que estou fazendo agora é tentar colocar o trem no trilho de novo."

A força, ela diz que tira da religião espírita, dos amigos, do trabalho, dos depoimentos reconfortantes dos muitos amigos da filha. E, sobretudo, de não ter nenhum "e se?" para indagar. "Não éramos só mãe e filha, mas amigas, cúmplices. Conversávamos muito, sobre tudo. Então esse ‘se’ não existe."

Arquivo pessoal
Tânia e Beatriz no aniversário de 18 anos da filha (foto: Arquivo pessoal)
E ela busca toda essa força pois acredita que precisa superar e continuar vivendo. "Sinto muita saudade, mas não adianta tornar minha vida uma amargura e passar isso para o resto das pessoas", afirma. Retomou com o namorado os passeios de moto, dos quais tanto gostava na juventude, e vai viajar na garupa em julho, num trajeto pela Europa. Quer seguir em frente. E, para quem ainda tem a chance de estar com os familiares, dá um conselho: "As pessoas precisam ter tempo, precisam se voltar mais para dentro de casa, para conseguirem ter com os filhos a oportunidade de convivência que eu tive com a minha Beatriz".

Como era a Beatriz?
Ela era uma menina extremamente especial. De qualquer problema, via o lado bom. E era uma pessoa muito intensa. Durante os 19 anos que a gente viveu junto, ela trouxe felicidade para a família toda. Aliás, continua trazendo até hoje. Nos últimos dias, descobri muita coisa dela que eu não sabia. Ela ia a uma instituição de idosos fazer trabalho voluntário. Também não sabia que ela tinha feito trabalho voluntário com crianças do Instituto Mario Penna. Estava trabalhando no Tribunal de Justiça com o desembargador Catta Preta em um estágio voluntário. Nunca me deu problema com notas. Nossa vida era assim: eu trabalho muito, mas uma vez por ano a gente viajava, em julho, perto do aniversário dela, dia 20. Todo ano, fazíamos uma viagem diferente. Neste ano teve a coincidência que ela havia marcado um passeio com o Bernardo e me disse "mamãe, vai ser a primeira vez que vamos passar meu aniversário longe uma da outra". E aí eu mesma marquei outra viagem. E realmente é a primeira vez que vamos passar o aniversário dela distantes.

Ela também parecia muito trabalhadora...
Sim, eu a ensinei desde cedo a trabalhar, assim como meu pai me ensinou. Ela começou a maquiar, de forma amadora, com uns 15 anos de idade. Como sua avó paterna tem uma loja de roupa, ela colocou a Beatriz na Socila, ensinava postura, a desfilar de salto… Ela não tinha altura para ser manequim, mas era muito bonita. E toda manequim tem de saber se maquiar. Foi assim que começou. Então sugeri que ela montasse um quarto para isso aqui em casa. O pai também incentivou, pagou cursos, e ela começou a ficar conhecida no Instagram. Passou a ter muitos clientes. Ela e o pai estavam até resolvendo ampliar o negócio, transferi-lo para junto à loja da avó. Ela trabalhava muito. Começava na quinta, quando chegava da faculdade, e ia até sábado. Tanto que no dia do acidente ela teve cliente até as dez da noite.

E de que forma você tem passado por esse momento?
Sou engenheira, então sou como uma locomotiva. A locomotiva sai da estação andando devagarzinho, depois ela pega um ritmo. Eu estava num momento em que a locomotiva tinha chegado à velocidade máxima, estava superfeliz. De repente, o trem descarrilou. Então o que estou fazendo agora é tentar colocar o trem no trilho de novo. Hoje, eu busco forças no meu trabalho. Tento me distrair o dia inteiro. E à noite eu brinco que a gente veste uma fantasia da alegria. Ponho um sorriso no rosto e vou conversar com os amigos. A minha religião também me dá força. Eu acredito que, para a Beatriz estar forte, eu tenho de estar bem.

Você procurou grupos de apoio?
Neste momento, estou vivendo a dor como eu preciso viver. Que não é uma dor, aliás, vou transformar a palavra em outra coisa. É saudade. Mas, na semana passada, fui a um encontro da API - Apoio a Perdas Irreparáveis. Um trabalho voluntário da psicóloga Gláucia Tavares, que faz palestras para pessoas que passaram por situações parecidas ou até piores do que a minha. Quando você chega a um lugar assim, descobre que a dor não é só sua. Aí você começa a ficar forte. E lá havia cinco pessoas que conheciam a Beatriz.

Arquivo pessoal
Tânia com Beatriz e o namorado da filha, Bernardo, que conduzia o veículo no momento do acidente, em foto recente (foto: Arquivo pessoal)
Ela era uma menina muito popular...
Se eu morresse no domingo às seis da manhã e a notícia começasse a circular na internet às dez, nunca iria no meu velório a quantidade de gente que foi ao velorío da minha filha. Estiveram lá desde o diretor da PUC e do Santo Agostinho, onde ela estudou, até o assessor do desembargador com quem ela fazia estágio, além dos amigos, muitos jovens. No velório, eu ia para o jardim, e todo mundo achava que eu estava meio atordoada, mas eu ficava olhando para as pessoas e pensando: "que força é essa que minha filha tinha? Que amor foi esse que ela espalhou".

Ela também era muito próxima da família, não é?
Sim. Eu vivia para a Beatriz, mas não só eu, como todos. Ela era paparicada de todos os lados. Era a princesa das duas famílias, tanto materna quanto paterna. E sempre prezei por isso, pela família. Independentemente de eu ser separada do pai dela, cultivamos esses laços. Isso porque, nas horas em que mais precisamos, quem nos dá apoio é a família. Beatriz tinha um irmão por parte de pai, Manoel, de quase 2 anos, que amava. Que ama, vou falar no presente. Todo dia após sair do trabalho, ia brincar com ele.

Como era a rotina dela?
Ela ia para a aula e nós almoçávamos juntas todos os dias. Fazia trabalhos sociais, alguns dos quais só descobri depois que ela se foi. E, na PUC, estava numa atividade, que contava como estágio, que era com deficientes visuais. Ela tinha um forte senso de justiça.

Você perdoou o Bernardo?
Não tenho por que perdoá-lo. Foi uma fatalidade. Não sei o que aconteceu e não vai adiantar especular. O fato é que ele era a última pessoa que queria que ela fosse embora. Queria deixar registrado que eu amo o Bernardo, ele fez minha filha muito feliz.

Vocês se falam?
Ele foi lá em casa na sexta-feira. Ele já está fisicamente se recuperando, está fazendo fisioterapia. Ficou muito abalado quando entrou lá em casa. Ele é um menino muito bom, e tem de ser forte. Eu tenho certeza de que ele vai ser forte, vai conseguir, pela Beatriz. Ela passou na vida dele por algum motivo.

E para você, o que mudou?
Quando acontece uma fatalidade dessas, a gente muda por completo. Meus valores são totalmente diferentes do que eram há um mês e vinte dias. A primeira atitude é não reclamar por pequenas coisas. A gente reclama demais. Temos de aprender a respeitar a experiência de cada um, mas, quando vejo alguém reclamando porque o celular estragou pela terceira vez, penso: "coitado". Eu sempre fui muito carinhosa com meus pais, mas, se eu puder ir mais à casa deles, vou. Estou inclusive pensando em ir morar com eles. Vi uma postagem esta semana nas redes sociais que resume o meu sentimento atual: "a vida é um momento, é um sopro. E a gente só leva daqui o amor que deu e recebeu, a alegria e mais nada". E é verdade.

O que lhe dá alegria hoje?
Eu comecei a namorar em janeiro. Foi muito interessante, pois fiquei 13 anos separada e nunca havia encontrado alguém especial. Parece que ele veio para eu ter companhia após a partida da Beatriz. Com ele, voltei a andar de moto. Temos, inclusive, uma viagem programada de motocicleta pela Europa, em julho. Sempre gostei de andar de moto, na garupa. Mas há muito tempo não tinha oportunidade. A gente sente uma sensação de liberdade muito boa em cima da moto.

Arquivo pessoal
Mãe e filha faziam uma viagem anual, sempre perto do aniversário de Beatriz, 20 de julho. Nesta foto, em Canela (RS), na Cachoeira do Caracol, em julho de 2015 (foto: Arquivo pessoal)
Você pensa em algo que poderia ter feito, que queria ter feito?
Não. Isso me ajuda muito, também. Uma das amigas da Beatriz me mandou um áudio recentemente em que fala que a coisa da qual tinha mais inveja - uma inveja branca - é da relação que eu e Beatriz tínhamos. Que não éramos só mãe e filha, mas amigas, cúmplices. A gente conversava muito, sobre tudo. Então esse "se" não existe. Agora, se você me perguntar "e se eu tivesse fechado a porta para ela não sair aquele dia?" [Pausa, reflete] Mas também não. É porque chegou a hora mesmo. Aconteceu. Mesmo na última semana, Deus me deu várias oportunidades de viajar e eu não fui. Me chamaram para ir para o Rio, eu não quis ir. Uma amiga me chamou para ir a uma palestra em Pedro Leopoldo e eu não fui. Disse que ficaria em casa paparicando a Beatriz. Fiz no sábado a comida que ela mais gostava: purê de batata, filé mignon e um arrozinho. Sem champignon. E a gente dormiu junto a semana inteira, ela pediu para dormir no meu quarto a semana toda. E todo dia ela falava "mamãe, você é a melhor mãe do mundo. Eu te adoro". Então tem um conforto muito grande, porque não houve um "se".

Você fez alguma coisa diferente para se lembrar da Beatriz?

Eu fiz agora uma tatuagem idêntica à que a Beatriz tinha feito recentemente. Minha filha vivia intensamente, e fez uma tatuagem com a frase "live a little" [viva um pouco]. E eu falava com ela que essa frase não combinava, porque ela viveu mais em 19 anos do que eu em 50. Mas o que ela fez foi deixar um recado para mim. Ela sabia que minha vida era trabalhar e viver para ela.

Se pudesse resumir a Beatriz em uma palavra, qual seria?
Doação. Ela era pura doação. De cada problema, escolhia olhar o lado bom, nos fazia enxergar o lado bom. Tratava todo mundo bem, todo mundo com carinho. Se você ficasse cinco minutos ao lado dela, tinha a sensação de conhecê-la há muito tempo. Ela era uma pessoa especial. E vivia intensamente. Chegava em uma festa e falava "pá, cheguei!" Então brinco que até para ir embora ela fez "pá, fui". Teve de avisar para Belo Horizonte inteira que tinha ido embora.

Que mensagem gostaria de passar para quem lê esta entrevista?
A primeira coisa é que a nossa vida é muito corrida, mas eu sempre reservei tempo na hora do almoço, à noite, para ficar com a Beatriz. Para que ela tivesse senso de família, para cultivar esse valor. E os avós e o pai também sempre estiveram presentes. Isso é o que acho que mais está faltando no mundo: amor, dedicação e senso de família. As pessoas precisam ter tempo, precisam se voltar mais para dentro de casa, para conseguirem ter com os filhos a oportunidade de convivência que eu tive com a minha. E, nesses momentos difíceis, a gente tem de tentar superar. Sinto muita saudade, mas não adianta tornar minha vida uma amargura e passar isso para o resto das pessoas. Perdi a única filha, mas minha vida não acabou.

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