'O Estado virou um muquifo', afirma Anastasia sobre a gestão do PT em Minas

O senador, candidato ao governo mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto, fala sobre os principais erros do governo atual e por que acredita que sua experiência é essencial para a reconstrução de Minas Gerais

por Alessandro Duarte 07/08/2018 17:08

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Ronaldo Dolabella/Encontro
(foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Jornada dupla. Assim o senador e ex-governador de Minas Antonio Anastasia definiu o período de pré-campanha ao governo do estado. De terça a quinta, ele dava expediente em Brasília e nos outros dias da semana rodava o estado em reuniões, palestras e encontros nos quais tentava explicar por que sua volta à Cidade Administrativa seria importante para "colocar novamente a casa em ordem". "Como a pré-candidatura não tem nenhuma estrutura, ela exige muito do pré-candidato", afirmou, em entrevistaaà Encontro. Essa situação começou a mudar no dia 28 de julho, quando seu nome foi homologado por unanimidade em convenção do PSDB, realizada na Arena do Minas Tênis Clube. Agora, ele é oficialmente o candidato do partido. Primeiro colocado em todas as pesquisas de intenção de votos divulgadas até o momento, o tucano faz duras críticas ao governo do PT (o atual governador, Fernando Pimentel, também foi convidado por Encontro para ser entrevistado, mas não atendeu à solicitação) e diz que recebeu carta branca para fazer composições políticas e montar o perfil de governo que considerasse mais adequado às necessidades mineiras. "Temos de apresentar novas alternativas. Nova realidade, nova equipe, novas pessoas e novas energias para o Estado se recompor." A seguir, os principais trechos da conversa realizada em seu escritório, em Lourdes.

  • Quem é: Antonio Augusto Junho Anastasia, 57 anos

  • Origem: Belo Horizonte, Minas Gerais

  • Formação: Graduado em direito pela UFMG e mestre em direito administrativo, também pela UFMG

  • Carreira: iniciou a carreira como técnico da Fundação João Pinheiro e, posteriormente, ocupou os cargos de secretário-adjunto de Estado de Planejamento e Coordenação Geral, secretário de Estado de Cultura, secretário de Estado de Recursos Humanos e Administração, presidente da Fundação João Pinheiro, secretário de Planejamento e Gestão, e  secretário de Estado de Defesa Social, estando à frente da criação do Choque de Gestão. Em 2006, foi eleito vice-governador e assumiu o governo de Minas em 31 de março de 2010, após a desincompatibilização de Aécio Neves. No mesmo ano, foi reeleito governador. Atualmente, é senador por Minas Gerais

ENCONTRO: Antes de anunciar sua candidatura, por diversas vezes o senhor negou que disputaria o governo de Minas. O que o fez mudar de ideia?
Antonio Anastasia: Durante muito tempo me manifestei contrário a me candidatar nas eleições de 2018. A minha posição no Senado é bastante confortável, sob o ponto de vista da respeitabilidade que tenho entre os colegas. Eu gosto muito de trabalhar lá. Mas tivemos a percepção de que o quadro político de Minas Gerais estava de tal forma que se eu não assumisse certa responsabilidade, juntamente com um segmento importante de empresários, prefeitos, políticos e da sociedade civil, todos articulados, talvez tivéssemos dificuldade em derrotar o nosso adversário político, que é o PT. Sempre insisto que não há inimizade. Temos um adversário político, que é o atual governo. Acreditamos que ele vem cometendo muitos equívocos administrativos. Uma campanha muito curta, de 30 dias, favorece aquele que é conhecido. Os outros pré-candidatos não tinham esse conhecimento e, por isso, havia certa dificuldade em agregar partidos em torno deles. Então, eu me vi com essa responsabilidade. E essa responsabilidade decorre do fato de que fui um dos responsáveis por colocar a casa em ordem. Aí, depois de quatro anos, vimos que o Estado, que estava como uma casa arrumada, virou um muquifo, como se diz. A casa está depredada, o jardim cheio de mato, a fiação foi roubada... E entre as pessoas ficou um sentimento de tristeza, de baixa autoestima.

E quais foram os erros do governo do PT?
Em 2013, quando eu era governador do estado, alertei que o Brasil entrava em um novo ciclo econômico negativo. Tomei, ali, publicamente, diversas atitudes, como extinção de secretarias, redução de cargos comissionados, proibição de viagens e contratação de consultorias. Um conjunto de medidas que resultavam em uma economia expressiva. Em 2015 veio o novo governo e, em vez de adotar uma política austera, cria secretarias, cria cargos comissionados, aumenta o ingresso de protegidos no governo. Soma-se a um quadro econômico ruim um estado despreparado para enfrentar a crise. Então, um ano e nove meses depois, para de pagar o salário dos servidores no quinto dia útil. E ainda coloca a culpa na herança que recebe. Como, se nós pagamos regularmente até o último dia do nosso mandato e ele também pagou regularmente durante um ano e oito meses? Isso significa que as medidas necessárias não foram tomadas durante o mandato dele mesmo.

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Colocar o salário (do funcionalismo) em dia é mais do que obrigação, é retomar o funcionamento dos serviços públicos e garantir um mínimo de sanidade, de rigidez à economia do estado" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
O senhor chegou a dizer que sua prioridade número 1 seria pagar o salário do funcionalismo em dia, no quinto dia útil. Como fazer isso com as contas tão deterioradas?
Isso é prioridade, mas não estou dizendo que vai acontecer no primeiro dia de governo. Esse pagamento não é apenas simbólico e de respeito ao servidor e ao cidadão. O professor que não recebe e o policial que não recebe não têm ânimo nenhum de trabalhar. Isso leva a uma decadência dos serviços públicos. Ademais, quando ele não recebe em dia, atrasa a conta da mercearia ou da farmácia, que sem receita demite seu funcionário privado, que não tem nada a ver com a história. Entramos num círculo vicioso de dificuldades. Então, colocar o salário em dia é mais do que obrigação, é retomar o funcionamento dos serviços públicos e garantir um mínimo de sanidade, de rigidez, à economia do estado.

E quais são suas outras prioridades?
A ideia de nossa campanha é a da reconstrução do estado. O que significa reconstrução? É colocar novamente o estado funcionando. Hoje, ele não funciona. Um governo estadual que não repassa a cota de ICMS, de IPVA, do Fundef aos municípios e tira a capacidade de cogestão dos municípios não tem como funcionar. Os municípios são parceiros imprescindíveis do estado na execução das políticas públicas. Temos de erguer a bandeira da simplicidade, tornar mais fácil a vida das pessoas, diminuir a burocracia. Isso não custa nada. Precisamos diminuir as questões tributárias, ambientais, de saneamento... Tudo isso é possível. É preciso experiência, que, imodestamente, adquiri. Se no passado havia uma certa gordura, hoje não é possível ter gordura nenhuma. Essas medidas levarão a um ambiente favorável no estado, que permitirá fazer parcerias empresariais e trazer para Minas Gerais o que nós precisamos: investimentos, quer de infraestrutura quer de empresas. E o investimento vai gerar tributo. O tributo gera emprego, o emprego gera renda, a renda gera consumo e o consumo gera recursos.

Por que medidas assim, simplicadoras, não foram tomadas lá atrás, quando o seu partido e o senhor governaram o estado?
Muitas medidas foram tomadas. Nós conseguimos tornar Minas Gerais o estado em que é mais rápido abrir empresas, em média nove dias. Conseguimos, com o Descomplicar – Minas Inova, facilitar muito as atividades empresariais. Trouxemos para cá empresas como Coca-Cola, Ambev, Panasonic e outras. É claro que, agora, é preciso fazer mais. Porque o quadro de 2019 é diferente do de 2011. Fizemos lá, mas agora temos de fazer mais e diferente. Porque também as pessoas não querem saber de café requentado. Temos de apresentar novas alternativas. Nova realidade, nova equipe, novas pessoas e novas energias para o estado se recompor.

Ronaldo Dolabella/Encontro
"Eu me assemelho muito ao Geraldo Alckmin porque nós dois temos uma coisa que considero uma qualidade: a serenidade" (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Pensar novo, com gente nova e um novo espírito de gestão. Isso obviamente soa como música para quem teme que um eventual governo do senhor possa vir acompanhado de velhos nomes do PSDB, maculados seja por denúncias seja por questões polêmicas, como o senador Aécio Neves, o ex-deputado Nárcio Rodrigues. Esses nomes estarão entre aqueles que o ajudarão a governar Minas Gerais?
Primeiro é sempre bom lembrar que esses nomes citados e tantos outros que não foram tiveram uma contribuição muito importante no passado, na vida administrativa e política de Minas Gerais. Quando eu falo em renovação, quero dizer que as pessoas precisam ter ideias novas. E na administração pública há sempre a tendência de quem já fez falar: "assim dá certo porque já foi testado". Há certa resistência, por isso, à ideia de novidade, de gente nova, de gente que teve experiências no setor privado. Então temos de mesclar experiência com o arrojo, com a iniciativa. Do ponto de vista político, quando aceitei a missão do meu partido e dos partidos aliados de ser candidato, recebi deles carta branca para fazer composições políticas e montar o perfil de governo que considerasse mais adequado às necessidades mineiras, coordenando, sob minha exclusiva responsabilidade, não só a campanha, como o governo. Vamos fazer isso com o meu estilo. Claro que toda contribuição é muito bem-vinda, mas a decisão final será do governador, caso eu seja eleito.

No plano nacional, por que o PSDB esteve tão relutante em relação ao nome de Geraldo Alckmin como candidato à presidência? E por que insistiu em dificultar um cenário que já é difícil?
Eu não me considero um político profissional. Eu entrei na política partidária há poucos anos, apesar de estar na administração pública há mais de 30 anos.  Mas, ao entrar na atividade partidária, passei a conhecer os políticos melhor. E os políticos têm uma característica que os une, que é a ansiedade. A ansiedade é mãe de muitos males, inclusive da aflição que os políticos sentem às vésperas da eleição. Os políticos vivem muito do poder, mas também da expectativa de poder. Se algum candidato não está bem na pesquisa, a expectativa é fraca, então tem de mudar. Mas é preciso haver certa racionalidade, certa serenidade. Eu me assemelho muito ao governador Geraldo Alckmin porque nós dois temos uma coisa que considero uma qualidade: a serenidade. Temos calma e esperamos as coisas virem a seu tempo. É claro que você não vai ficar deitado esperando que as coisas aconteçam por si só. Você tem de fazer um trabalho sério, responsável, que chegue àquele ponto. Mas não adianta açodamento, aflição, pressa, desespero. Eu sempre digo que o desespero é mau conselheiro. A estrutura do PSDB, aliada a um bom conteúdo do plano de governo, ao perfil do candidato, que é um candidato de centro, equilibrado, maduro, que não vai pregar nenhum tipo de promessa irracional nem nada fora da realidade, levará a eleição a esse caminho tranquilo. Como os políticos estão mais acostumados com gritos e movimentos mais abruptos, aí começam a ver distúrbios.

Qual a importância da eleição de Geraldo Alckmin justamente para ajudar a governar Minas, caso o senhor seja eleito governador? Um eventual governo Bolsonaro ou Ciro Gomes dificultaria sobremaneira o governo de Minas?

Para começar, eu considero o Geraldo Alckmin, de longe, o melhor candidato. Dentro das hostes do PSDB, temos bons nomes. Mas, a meu juízo, o Geraldo Alckmin reúne algumas qualidades importantes neste momento. Primeiro, a experiência como homem público. Ele foi quatro vezes governador de São Paulo, o maior estado da federação. É um homem de temperamento tranquilo, moderado em seus costumes. É também um homem afável. O Brasil precisa exatamente de tranquilidade, paz, serenidade. E ele passa essa imagem. Caso eleito governador de Minas Gerais, dependo de uma presidência afinada com Minas. Coisa que não temos há mais de 30 anos. Mas é claro que, se outro for eleito, o governo de Minas não será inviabilizado. Mas deveríamos ter uma boa vontade com essa eleição. Uma das conversas que tive com o Geraldo Alckmin antes de aceitar ser candidato seria o reconhecimento de que Minas precisaria, depois de tantos anos de abandono por parte dos sucessivos governos federais, de um tratamento, não digo diferenciado, mas à altura do segundo estado da federação. Ele se comprometeu a fazê-lo e eu acredito piamente na palavra dele. Então é claro que teríamos com Geraldo Alckmin um tratamento especial. Com os outros presidentes, teríamos de conquistar isso. Mas conseguiríamos demonstrar essa importância e essa necessidade. Não só por causa do governador, mas pela nossa bancada, que é a segunda maior da Câmara, e pela força empresarial do estado. Acho que é possível fazê-lo, com atitudes mais coordenadas e mais firmes. Mas eu volto a dizer: acredito que na hora, como se dizia antigamente, de a onça beber água, o eleitor será racional e votará no candidato que é sereno e racional para acalmar e tranquilizar o Brasil com a bandeira da simplicidade. Assim teremos um ambiente favorável a investimentos, sem o qual o país não vai se desenvolver.

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