Uma volta pelo hipercentro de Belo Horizonte é capaz de revelar algo interessante: profissionais que vivem de ofícios praticamente extintos. Muitos herdaram do pai ou de algum conhecido o aprendizado. São alfaiates, fotógrafos de câmera lambe-lambe, livreiros de sebos, engraxates e ourives, fáceis de encontrar nas ruas e galerias de metrópoles como a nossa.
Francisco Alves, de 61 anos, conhecido como Chico Manco, é fotógrafo lambe-lambe e trabalha há cerca de meio século no parque municipal Américo René Gianetti. Numa época em que celulares tiram fotos perfeitas e câmeras automáticas surpreendem pela facilidade e pelos efeitos, Francisco e sua câmera podem ser considerados antiquados, mas eles sobrevivem graças àqueles que são atraídos pela curiosidade ou pelo charme do passado. Os fotógrafos lambe-lambes eram bastante procurados por pessoas que saíam para passear em praças ou jardins. Com uma câmera montada dentro de uma caixa escura e em cima de um tripé, eles tiravam as fotos e revelavam na hora. Antes, o papel fotográfico era lambido para que eles soubessem em qual lado a emulsão – que receberia as imagens – estava.
Em 20 minutos (preta e branca) ficava pronta. Hoje, Chico Manco (que também teve de se modernizar) é um dos poucos donos de uma câmera lambe-lambe em BH e trata a relíquia como uma filha.
Numa época em que as pessoas leem livros virtuais com seus iPads e Kindles nos ônibus, ainda tem gente que insiste em vender livros antigos. Lourenço Carrato Côco é dono do Sebo Amadeu, onde 40 mil exemplares estão espremidos em uma pequena loja na rua dos Tamoios, esquina com rua dos Guaranis. O sebo foi aberto por seu falecido pai, Amadeu Rossi, em 1962, e hoje é o mais antigo da capital. Lá é possível encontrar de tudo: de cartilhas de instruções a alta filosofia. “Ser livreiro significa muito mais do que comprar e vender livros. É tornar o desejo de uma pessoa, de achar uma obra literária antiga, realidade”, afirma. Alguns até se emocionam quando acham livros raríssimos.
Mesmo com a resistência desses profissionais, é bem provável que as próximas gerações desconheçam esses ofícios.