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Grupo dos Dez retorna a BH com o premiado musical "Madame Satã"

Espetáculo será apresentado em sessão única no Sesc Palladium e integra a celebração dos 15 anos da companhia

Da redação
Musical fica em cartaz no dia 1º de março - Foto: @felipebarbosafotografias/Divulgação
O Grupo dos Dez retorna aos palcos de Belo Horizonte com apresentação única do premiado espetáculo “Madame Satã” no dia 1º de março, às 20h, no Sesc Palladium. A montagem integra o projeto “Grupo dos Dez – 15 anos de Teatro Negro”, iniciativa que prevê mais de 60 apresentações em sete estados, reunindo obras inéditas, espetáculos consagrados e ações formativas voltadas ao diálogo entre arte, memória e território.
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Dirigido por João das Neves e Rodrigo Jerônimo, o musical é o terceiro espetáculo do Grupo dos Dez e revisita a trajetória de João Francisco dos Santos, personagem emblemático da cultura negra brasileira. A montagem dialoga com questões como racismo, homofobia e transfobia, ao mesmo tempo em que lança luz sobre sujeitos historicamente invisibilizados por não se enquadrarem na heteronormatividade dominante.
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Criado em 2014 dentro do projeto Oficinão do Galpão, em Belo Horizonte, o espetáculo estreou em 2015 e permaneceu em circulação até 2019, com apresentações em diversas capitais brasileiras. A produção recebeu importantes reconhecimentos, entre eles o Prêmio Brasil Musical 2019 (melhor espetáculo musical Sudeste) e o Prêmio Leda Maria Martins 2017 na categoria melhor espetáculo.
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Após um período de suspensão e incertezas enfrentado por coletivos independentes no contexto pós-pandemia, o retorno da companhia à capital mineira, que recebeu o espetáculo pela última vez em 2018, no Aquilombô – Fórum Permanente de Artes Negras, marca um novo momento de retomada e reafirmação do teatro negro como eixo fundamental da cultura brasileira.
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Rodrigo Jerônimo, responsável pela co-direção e dramaturgia do espetáculo e pela coordenação do projeto comemorativo, destaca o significado simbólico da retomada: “chegar aos 15 anos significa olhar para trás e reconhecer tudo o que conquistamos, mas também reafirmar que nosso trabalho só ganha sentido quando é capaz de criar coletivamente e transformar realidades”. 
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Para a artista e diretora musical Bia Nogueira, a temporada reforça uma vocação histórica da companhia. “Estar de volta com essa temporada é potencializar vozes que refletem o Brasil em toda a sua diversidade e afirmar que a arte deve ser acessível a todas as pessoas”.
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“Madame Satã” é o único espetáculo de João das Neves (1935–2018) ainda em cartaz entre os mais de 40 dirigidos pelo encenador ao longo de sua trajetória no teatro brasileiro. A relação do diretor com o Grupo dos Dez é considerada estruturante para a identidade artística da companhia: ele dirigiu montagens, acompanhou processos criativos e contribuiu diretamente para o fortalecimento da linguagem cênica do coletivo.
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“A gente tem brincado que o João das Neves não gostava de ser chamado de mentor. Então, eu estou chamando João de farol. Porque ele orienta, direciona as nossas decisões enquanto cerne criativo. No meu caso, especialmente, o João me ensinou a ver a cultura brasileira e o povo trabalhador brasileiro como protagonista das suas próprias histórias. O João está impregnado em mim de uma maneira irreversível. Mesmo que eu tentasse sair pela tangente de João das Neves, as minhas decisões todas têm a ver com o que ele me ensinou sobre a magia do teatro, essa coisa deslumbrante”, diz Rodrigo Jerônimo.
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O artista também ressalta as atualizações feitas na dramaturgia ao longo do tempo e o diálogo permanente com a realidade contemporânea: “Assistir a este espetáculo é aceitar um convite ao deslocamento e à escuta atenta de histórias que a sociedade insiste em empurrar para as margens. Ao acompanhar a trajetória de Madame Satã, o público é confrontado com tensões que não pertencem apenas ao passado, mas que seguem estruturando o presente. A cada apresentação, temporada ou reflexão que fazemos sobre o espetáculo, percebemos a necessidade da atualização da dramaturgia. Apesar de discursos de ódio estarem impregnados em nossa sociedade desde os primórdios, é importante mostrar que os crimes permanecem impunes e continuam acontecendo no Brasil, como o assassinato do povo negro, indígena e de LGBTs”.
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Além da circulação do repertório, o projeto marca a celebração dos 15 anos do Grupo dos Dez e inclui a estreia do novo espetáculo cênico “Afroapocalíptico”, prevista para 16 de março, no Palácio das Artes. A nova montagem parte da cosmovisão do congado mineiro para construir uma experiência artística imersiva, sensorial e política.
 
Serviço
Madame Satã – Grupo dos Dez. 1º de março (domingo), às 20h. Sesc Palladium, Belo Horizonte. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia), pelo Sympla. Classificação: 16 anos. 

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