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"Afroapocalíptico" leva teatro imersivo ao Palácio das Artes

Espetáculo do Grupo dos Dez transforma galeria em percurso sensorial inspirado no Congado e em reflexões sobre memória, resistência e ancestralidade

Da redação
O espetáculo "Afroapocalíptico" fica em cartaz até 29 de março - Foto: Lucas Bois/Divulgação
O espetáculo “Afroapocalíptico”, novo trabalho do Grupo dos Dez (Madame Satã), estreia nesta terça-feira (17), às 19h, na Galeria Genesco Murta, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A montagem propõe uma experiência artística imersiva e sensorial que desloca o teatro para dentro do espaço expositivo, transformando a galeria em um percurso cênico.
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Durante o espetáculo, o público é dividido em dois grupos e conduzido por um labirinto de instalações sonoras e visuais. Entre tambores, texturas, bombardeios, objetos do Reinado e cheiros de ervas, os visitantes atravessam referências ao Congado mineiro e às tragédias humanas contemporâneas. A direção é assinada por Rodrigo Jerônimo e Ana Paula Bouzas, com instalação sonora e direção musical de Bia Nogueira, dramaturgia de Marcos Fábio de Farias e assistência de direção de Júlia Tizumba.
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A temporada integra o projeto “Grupo dos Dez – 15 anos de Teatro Negro”, que prevê mais de 60 apresentações em sete estados, reunindo obras inéditas, espetáculos do repertório do grupo e ações formativas voltadas à relação entre arte, memória e território.
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Origem 
 
O conceito de ‘Afroapocalíptico”, criado por Rodrigo Jerônimo, surgiu em 2018, durante uma residência artística realizada pelo ator em uma galeria de Nova York, nos Estados Unidos. A sensação de deslocamento vivida naquele contexto, como artista de teatro e homem negro,  motivou uma série de reflexões que posteriormente deram origem ao livro “Afroapocalíptico”, publicado em 2023 pela editora Aquilombô e escrito em parceria com Marcos Fábio de Farias.
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Agora, o conceito chega ao palco em forma de espetáculo. Segundo Jerônimo, a ideia parte de uma releitura da noção tradicional de apocalipse. “O mundo já ‘acabou’ quando a humanidade foi destruída pela violência do Estado e do Capital. Todos os que ainda permanecem — negros, indígenas, LGBTQIA+, mulheres, crianças — são vistos como sobreviventes de um trauma coletivo iniciado na Escravidão, considerada a maior catástrofe humana da história, da qual até hoje sofremos as consequências. Mesmo que a gente acabe com o meio ambiente, se sobrar um pedacinho de planeta, ainda assim é planeta e ele vai continuar e se reestruturar. Aqui estamos falando da possibilidade de extinção da raça humana pelo próprio homem. Nós aqui somos sobreviventes a essa hecatombe de genocídios de negros, indígenas, palestinos etc. Esses valores que estão aí não deram certo. Só precisamos de uma nova forma de estar no mundo e essa resposta é a tradição ancestral”, afirma.
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Na dramaturgia de “Afroapocalíptico”, Jerônimo e Marcos Fábio de Farias deslocam a visão ocidental de apocalipse como destruição final e propõem uma outra leitura: o afroapocalipse como resposta construída a partir da tradição do Congado.
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Experiência 

A encenação ocupa o espaço da galeria com duas grandes instalações em formato de espiral. Fora delas estão representados os escombros do mundo e tragédias humanas — como Palestina, Brumadinho e Mariana — que surgem em forma de sons de sirenes, bombardeios e ruídos humanos.
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A instalação sonora criada por Bia Nogueira reúne instrumentos musicais, coroas, cânticos e aromas de ervas, compondo um ambiente sensorial que dialoga com as tradições afro-mineiras.

Logo no início do percurso, uma capitã de reinado, interpretada pela atriz Kátia Aracelle, mantém viva a tradição congadeira e conduz os últimos sobreviventes, representados pelo público, até os elementos que simbolizam resistência. Entre eles está o próprio Rodrigo Jerônimo.
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A experiência multilinguagem dura cerca de 40 minutos e se constrói a partir da interação entre teatro, música, instalação artística e ritual. “‘Afroapocalíptico’ não é sobre ruína, mas sobre permanência. Não anuncia o fim, mas revela os modos de seguir existindo. É uma obra que articula ritual, teatro, música e política para afirmar que, diante do colapso imposto, a experiência negra nunca foi apenas sobrevivência, mas reinvenção contínua do mundo”, conclui Rodrigo.
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Teatro e artes visuais

Para a diretora baiana Ana Paula Bouzas, a escolha da galeria de arte como espaço de encenação cria novas possibilidades na relação entre público e artistas. “Há um desejo de partilhar com o espectador o que temos investigado nesse campo e propor uma vivência que já traz alguns resultados, pra nós, bem provocadores, a exemplo do espaço onde ela se dará: a galeria de arte. A partir daí, temos alterações substanciais na relação entre artistas da cena e público. Essa é uma das reverberações dessa fricção entre o teatro e as artes visuais, e que aponta diretrizes outras, tanto na construção do pensamento sobre a encenação, como no modo de atuar. Tudo tem sido pensado e vivido a partir desse convívio instigante e desafiador entre as linguagens. Uma pesquisa que seguirá viva, certamente, a cada sessão”, diz.
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Outra colaboração importante na montagem é da cantora e pesquisadora da cultura afromineira Júlia Tizumba, responsável pela assistência de direção. No espetáculo, ela contribui com elementos simbólicos ligados ao Congado e ao Candomblé. “Cânticos, ritmos, danças, símbolos e elementos do Reinado que podem servir como faróis para a construção de um mundo de mais igualdade e dignidade para todas as pessoas”, diz.
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Memória

Inspirado nas histórias e estratégias desenvolvidas por quilombos mineiros, o espetáculo também dialoga com a figura histórica de Chico Rei, personagem associado à resistência negra em Minas Gerais.
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Segundo Jerônimo, a obra ressignifica o símbolo do ouro no contexto colonial. “O ouro, em Afroapocalíptico, deixa de ser símbolo da exploração colonial e passa a representar aquilo que foi produzido, arrancado e apropriado da população negra. Devolver o ouro é devolver poder, memória, autonomia e futuro”, explica o artista.

Serviço
Temporada de estreia do espetáculo “Afroapocalíptico”
17 a 29 de março, terça a domingo, às 19h
Galeria Genesco Murta / Palácio das Artes
Além das sessões, as instalações do espetáculo seguem expostas até 5 de abril, para visitação, no horário de funcionamento das galerias do Palácio das Artes:
Terça a sábado, das 9h30h às 21h.
Aos domingos, das 17h às 21h 
O acesso é gratuito.


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