Instituída pela Lei nº 14.519/2023, a data também coincide com o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Pelo quarto ano consecutivo, a capital mineira recebe o ato, que busca ampliar o debate sobre ancestralidade, diversidade religiosa e direitos da população negra.
. A programação inclui atividades para diferentes públicos, como atrações infantis, apresentações de capoeira, ritualística e shows com o Bloco Samba D’Ouro e as artistas Cinara Gomes e Dona Eliza. A proposta é ocupar o espaço público com manifestações culturais e religiosas de matriz africana, promovendo visibilidade e reconhecimento.
. “É um dia para dizer à sociedade que os povos de matriz africana são a base da identidade do país. Um dia para combater o racismo e o racismo religioso. Por isso é tão importante expandir o entendimento desta data. Não é só mais um dia para celebrar, mas também para ocupar, para tomar posse, reivindicar direitos e denunciar”, explica Pai Ricardo, zelador da Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente, um dos organizadores do evento.
. A mobilização também traz à tona outras pautas relacionadas à população negra, como a violência de gênero e o encarceramento. “É um ato pelo fim da intolerância religiosa, pelo fim do racismo com nossas crianças nas escolas, pelo fim do feminicídio de nossas mulheres e adolescentes, pelo fim do encarceramento dos nossos jovens e homens negros. Queremos mostrar à cidade que a população negra traz a existência a riqueza da diversidade cultural”, afirma Mãe Ana Maria, zeladora da Casa Pai Francisco de Angola e Mãe Maria Conga.
. Para os organizadores, a data deve ser compreendida como um momento político de afirmação de direitos. “O 21 de março pra gente é um momento político, para reafirmar nossos direitos, de nos fortalecer, de pedir mais políticas públicas que defendam o povo de matriz africana, de realidade matriz africana. Essa data precisa ser cada dia mais incentivada, precisa de mais recursos porque não se combate o racismo e o racismo religioso sem recursos. Só papel e tinta não vão impedir o ataque às casas, aos terreiros e aos povos de matriz africana”, afirma Pai Ricardo.
. Ele também destaca a importância da ocupação dos espaços urbanos como forma de resistência. “É preciso preencher os espaços públicos com as nossas cores, nossos corpos. Cada dia é uma forma a mais de reivindicar essa atenção, de reivindicar esse respeito”.
. Entre os temas que devem ganhar destaque no ato está o feminicídio, especialmente no contexto das religiões de matriz africana. “A maioria das casas de matriz africana que são atacadas, tem as matriarcas na direção. EM BH temos os casos envolvendo a Mãe Gilda, Cailane, Bernadette que foi assassinada no Quilombo, dentre outras. Há um ataque sistemático às mulheres e isso não pode continuar”, completa.
. Dados recentes ajudam a dimensionar o cenário. Segundo levantamento da Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (IPEC), 51% da população brasileira já presenciou alguma situação de racismo, enquanto 81% acreditam que o país é racista. Informações da Fundação Cultural Palmares indicam que pessoas negras representam 77,9% das vítimas de homicídios no Brasil.
. No campo jurídico, os processos criminais por racismo bateram recorde em 2025, com mais de 8.500 novas ações registradas — número significativamente superior aos 4.205 casos contabilizados nos dez primeiros meses de 2024.
. Já em relação ao racismo religioso, o país registrou 2.774 denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, segundo o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). O número representa um aumento de 12,2% em comparação ao período anterior.
. Relatório do próprio ministério, intitulado “Respeite Meu Terreiro”, aponta que 76% dos terreiros pesquisados já sofreram algum tipo de racismo religioso, enquanto 80% relataram que membros de suas comunidades foram vítimas diretas dessas violências. O levantamento também mostra que 93% dos terreiros com mais de 100 frequentadores já vivenciaram episódios desse tipo, indicando a relação entre visibilidade e exposição à violência.
. As ocorrências incluem desde discriminação e agressões verbais até depredações e interrupções de rituais, evidenciando o racismo religioso como elemento estrutural dessas práticas.
. A escolha do dia 21 de março remete ao Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960, na África do Sul, quando uma manifestação pacífica contra as leis do Apartheid foi reprimida, resultando na morte de 69 pessoas e deixando cerca de 180 feridos. Em memória ao episódio, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu, em 1966, o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.
. No Brasil, a legislação que criminaliza práticas de racismo e discriminação foi consolidada pela Lei nº 7.716, enquanto a criação do Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações de Candomblé, em 2023, amplia o reconhecimento institucional dessas culturas e religiões.
. Serviço
4º ato “Zumbi e Dandara Vivem em Nós”
Data: 21 de março, sábado
Horário: a partir das 15h
Local: Praça Floriano Peixoto – Santa Efigênia – Belo Horizonte/MG
Programação:
Programação:
15h – Atração infantil: Bicho Folha convida Voa Andorinha
15h às 17h15 - Prosa de Saberes Tradicionais - Coletivo Minhas Plantas
17h15 - Ala de Berimbaus da Floresta & Grupo Candeia de Capoeira - Coordenação: Mestra Alcione
18h – Ritualística
18h30 - Fala Institucional
19h30 – Bloco Samba D’Ouro
20h40 - Cinara Gomes convida Dona Eliza
22h – Encerramento
Intervalos com DJ Black Josie
Entrada gratuita