Para Marlene Barros, sua exposição poderia ser chamada de “quimera”, e assim ela deve tocar o público ao expor uma obra orgânica com peças que passeiam do fantástico ao monstruoso e extraordinário, da coerência ao absurdo, do sonho à utopia, do disparate à imaginação, da ilusão à realidade dura e crua. “Produzo uma arte que não fique à parte”, ela alerta. E, assim, Marlene escreve em sua obra uma “poesia visual” que abarca tanto pela beleza quanto como arma para falar ao agressor da mulher. “A proposta é que as pessoas reflitam”. Uma convocação, principalmente, aos homens.
. A artista propõe desencadear um pensamento crítico sobre o corpo feminino, com significados e significantes, o alerta sobre a violência em escala, a desvalorização, o calar, o subestimar e a invisibilização de seus fazeres no campo da arte. “Não ouvimos falar em gênia da arte”, alfineta.
. Linhas, agulhas, costura, crochê, o fazer manual, habilidades ainda vistas como próprias do universo feminino e que fazem parte da vida de Marlene desde sempre. E que, descoberta artista há quatro décadas, fez do costurar uma forma de pensar o mundo e da agulha um instrumento de denúncia, como as antepassadas. “Vejo que muitas mulheres trabalharam em silêncio. Aponto as Arpilleras (mulheres chilenas que durante a ditadura militar de Pinochet (1973-1990) bordavam em tecido rústico como forma de denúncia, resistência e subsistência) como a grande força de fazer de um objeto fino e delicado, mas que fura, fere e tira sangue, uma voz”.
Entre as obras presentes na exposição, chama a atenção “Eu tenho a tua cara”, uma instalação composta por 49 rostos de mulheres com olhos e bocas trocados e costurados. “É uma provocação. Tiro a personalidade de todo mundo, transformo em outros rostos. A minha intenção é dizer que esta boca e este olho não são de ninguém, mas de todas nós, para uma falar e olhar pela outra”.
. Outras criações que tocam são “Entre nós” e “Quem pariu, que embale” , que tensionam o espaço doméstico e o cuidado sempre à cargo da mulher. “Por mais que não queira, ainda repetimos esta educação. E o homem não quer que mude porque é confortável para ele. As mulheres mudaram, eles continuam os mesmos e, agora, estão sem chão. Nada contra eles, é só uma observação”.
. Ao criar sobre o universo feminino, Marlene revela que o tema a escolheu e não o contrário. “Desde menina, sempre fui ligada à figura da mulher. Ter esta ligação e não vazar por este caminho, não abordar a violência, é impossível. Quero mesmo que meu trabalho seja uma arma, a mais potente que eu puder criar”. E os números embasam a artista. Conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, no Brasil, 1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio durante o ano de 2025. Média de 4 mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. Em Minas, números da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp), foram registrados 139 feminicídios em 2025, sendo o segundo estado que mais registrou casos no país, atrás apenas de São Paulo (233 casos), com média de uma mulher assassinada a cada dois dias. “Ao vir para cá, soube deste cenário, e achei importante. Por isso, quero muito que os homens venham, vejam e se sensibilizem porque não vamos fazer nada sem a colaboração deles. Não é uma luta contra homens, pelo contrário, queremos todos juntos, com o mesmo sentido e sentimento”. Marlene teve avó e tia vítimas de violência.
. Em “Tecitura do Feminino”, Marlene nos mostra como cada ponto é uma palavra não dita, como cada fio é uma história que se recusa a desaparecer. “É bom deixar a interpretação em aberto. Quando deixo tantas agulhas com linhas nas obras quero dizer que a obra não fecha, não encerra, está sempre em processo e o olhar do outro é o principal. Meu trabalho só tem continuidade no olhar do outro... e da outra”.
. Fazendo sua estreia em Minas, indagada se pudesse bordar uma frase nas paredes do CCBB BH qual seria, Marlene falou em percepção: “O prédio me impactou e me impressionou ao perceber as grades que são fortes e rendadas ao mesmo tempo, rendas de aparência frágil. Além, claro, da beleza, do acolhimento do espaço e das pessoas. Então, escreveria ‘bordar e abordar o CCBB”.
Com curadoria de Betânia Pinheiro, a mostra transforma o gesto íntimo do costurar em narrativa pública de resistência. A montagem do percurso expositivo, coordenada por Fábio Nunes, com produção executiva de Júlia Martins, propõe uma trajetória não cronológica, permitindo que o público construa sua própria experiência. “A ordem de visita é livre, o visitante pode dialogar hoje com uma obra, ir embora, voltar outro dia se sentir à vontade ou não com um outro percurso. É uma exposição de instalações individuais, com mensagens individuais que estão interligadas. Uma vivência da artista que se junta à história do outro, há uma conexão adentrando à narrativa da outra pessoa e ali se escuta. Uma narrativa do universo feminino, que não está no Norte, no Nordeste, mas em todo lugar”, reforça Betânia Pinheiro.
. Conceito que transborda
Entre as obras apresentadas nesta primeira exposição de Marlene Barros , vale chamar a atenção para cinco criações que se destacam pelo transbordamento de sensibilidade e denúncia. São elas:
Eu tenho a tua cara – Instalação composta por 49 rostos de mulheres com olhos e bocas trocados e costurados.
. Caixa Preta – Caixas com fotografias, intervenções têxteis, colagens e escritas compõem uma espécie de autorretrato expandido.
Coso porque está roto – Casaco cujo avesso revela o interior do corpo humano. A obra dialoga com o dito popular que associa o ato de remendar à proteção contra o mal-agouro.
. Entre nós – Imersão em objetos de crochê que convida à reflexão sobre atividades historicamente atribuídas às mulheres e naturalizadas em contextos de submissão doméstica.
. Quem pariu, que embale – Trabalho que problematiza a atribuição quase exclusiva do cuidado dos filhos às mulheres.
Vale ressaltar que a exposição abraça ainda mais a inclusão ao selecionar obras que podem ser tocadas, uma verdadeira imersão para ampliar seu alcance com o público com alguma deficiência.
. Ações formativas gratuitas e abertas ao público
A temporada da exposição vai oferecer ações formativas gratuitas e abertas ao público. Durante todo o período expositivo, o público poderá interagir com a exposição, num espaço/ateliê e, assim, criar trabalhos manuais, seja de bordados, costura ou crochê.
. No dia 7 de março (sábado), das 15h às 17h, ocorre uma visita mediada com a artista Marlene Barros e a curadora Betânia Pinheiro. No Dia Internacional da Mulher, 8 de março (domingo), às 16h, Betânia coordena a palestra “Tecitura do Feminino: Processos”.
Oficina e obra-instalação
A programação oferece, ainda, a oficina “Arpilleras de si”, ministrada pela artista-pesquisadora, psicóloga e psicanalista, Maria Vasconcelos, que desenvolve no doutorado em psicologia uma pesquisa sobre o bordado livre e a costura como formas de expressão e elaboração do trauma em mulheres com histórico de violências.
. Por meio da técnica da arpilharia e do bordado livre, as participantes vão ser convidadas a materializar memórias e vivências em retalhos. O resultado deste processo coletivo vai se transformar em uma obra-instalação, que vai integrar à exposição.
. A oficina ocorrerá em três datas: de 11 a 14 de março e de 15 a 17 de abril, com Maria Vasconcelos, e de 11 a 15 de maio, com Marlene Barros. As atividades serão sempre das 14h às 17h, com vagas limitadas.
. As ações formativas vão oferecer certificado de 12h e são destinadas a pessoas de todos os gêneros e faixas etárias. Inscrições neste link.
. Sobre a artista
Marlene Barros nasceu em Bacurituba, no Maranhão, e se apresenta ao mundo como uma artista brasileira múltipla, que desenvolve sua obra por meio do crochê, escultura, pintura, performance e intervenção artística, revelando inquietação e vontade constante de experimentar. Tem como missão questionar estereótipos e expor contradições, fortalecendo, assim, o papel da arte como instrumento de transformação social e resistência cultural.
. Coordenadora do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM, Marlene Barros é bacharel em desenho industrial pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo Senac, além de mestre em arte contemporânea pela Universidade de Aveiro, em Portugal.
SERVIÇO
Evento: “Marlene Barros: tecitura do feminino”
Data: 04/03/26 a 01/06/26
Local: Centro Cultural Banco Do Brasil - CCBB Belo Horizonte - Galerias do Térreo
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, BH (MG)
Horário: Quarta a segunda, das 10h às 22h.
Classificação: 14 anos.
Ingressos: https://ingressosccbb.com.br/exposicao-marlene-barros-tecitura-do-feminino__3522