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Espetáculo "RISCO" celebra 15 anos do Grupo Contemporâneo de Dança Livre

Montagem inédita estreia nesta semana na Funarte MG e transforma medo, permanência e instabilidade em dança, trilha ao vivo e experimentação sensorial

Da redação
A montagem parte da ideia do risco como experiência cotidiana e corporal - Foto: Duna Dias/Divulgação
O Grupo Contemporâneo de Dança Livre estreia nesta semana, em Belo Horizonte, o espetáculo “RISCO”, obra que marca os 15 anos de trajetória do coletivo e transforma a noção de perigo, instabilidade e permanência em movimento. As apresentações acontecem entre sexta-feira (15) e domingo (17), às 20h, na Funarte MG, com entrada gratuita sujeita à lotação. A sessão do último dia contará com audiodescrição.
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A montagem parte da ideia do risco como experiência cotidiana e corporal. Em cena, os dançarinos Duna Dias, Heloisa Rodrigues, Leonardo Augusto e Socorro Dias dividem o palco com o músico piauiense Érico Ferry, responsável pela trilha executada ao vivo. Entre imagens abstratas, deboche e tensão, o espetáculo investiga as marcas deixadas pelo medo, pela violência e pelas disputas de território.
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“Como atravessar o que nos coloca em perigo?” e “Que danças podem surgir de nossa insistência em permanecer, nossa teimosia em viver e nosso direito de ser?” são algumas das perguntas que orientam a criação.
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Para o grupo, a obra surge em um momento em que o medo e o desconforto assumem novos significados. “Estamos em constante risco trabalhando com arte e educação. É algo que faz parte de nós enquanto grupo. A criação do espetáculo veio também a partir de uma provocação minha em pensar em um projeto de criação para o grupo que nos colocasse em situações ainda não vividas e que nos fizesse pensar de maneira poética em toda a dureza que vivemos", comenta Duna Dias.
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“RISCO” também inaugura uma nova dinâmica criativa dentro da companhia. Pela primeira vez, o grupo divide a direção com o ator e dançarino Oscar Capucho, artista com deficiência visual que já colaborava com o coletivo desde 2017 em projetos como a Cia Ananda e o espetáculo “Cartas para Irene”.
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Segundo Duna Dias, a parceria nasceu de uma afinidade artística construída ao longo dos anos. “Eu e Oscar temos uma relação de trabalho e amizade de muita cumplicidade e admiração e nos encontramos em um momento de pensamentos sobre criação e direção muito parecidos. Foi um processo muito fluido, intenso e prazeroso. Nós dois estávamos com muita vontade de fazer esse trabalho juntos e isso também está na cena", afirma.
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Oscar define a experiência como um processo de mistura estética e sensorial. “Eu acho que deu liga. A Duna cuida muito da estética e temos bailarinos com uma força muito grande”, diz o diretor. Para ele, o espetáculo permanece em transformação constante. “Acredito que o resultado na arte vem de uma maneira diferente. Cada dia a cena encontra novidades e se alimenta para que o trabalho esteja sempre vivo. É um resultado momentâneo que se modifica a cada dia”.
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A direção propõe uma inversão da lógica tradicional da dança, deslocando o foco da visualidade para a escuta, o toque e a sensação. “A estética do movimento de risco, o movimento em risco e o movimento arriscado” formam os três pilares da criação, segundo Oscar. “Eu trouxe textos para eles e quis inserir movimento e fala, porque fala também é corpo. Existe uma coerência do que a gente se propôs a falar, que é o risco iminente que todos vivemos”, explica.
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Duna Dias afirma que a escolha pela direção compartilhada também representa um posicionamento político e artístico. “Minha sensação é que o corpo expande quando damos atenção aos outros sentidos e passamos a construir imagens a partir de outros referenciais. Para mim desperta uma construção de movimento e dramaturgia que não é completamente ligada à estética, mas ao clima e à atmosfera”, afirma. Ela também destaca os desafios do processo: “acalmar as ansiedades em relação ao produto final, pois quando a visão não é a principal referência, os processos de criação e direção podem se inverter em relação ao que estamos acostumados na dança”.
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Processo de produção

Nos primeiros ensaios, o elenco foi provocado a trabalhar sem roupas como forma de romper com a ideia do corpo observado e estimular outras percepções sensoriais. “Como um artista cego e gay, eu quis trazer algo novo para eles: o desafio de trabalhar sem o foco no olhar do outro. Coloquei-os desprovidos de roupa para trazer pele e textura, algo que tem muito a ver com a minha experiência como pessoa cega”, explica Oscar. “Eu quis valorizar esses corpos, trabalhando uma sensualidade que é sutil, mas bonita. É sobre não ter a preocupação com o que o outro está vendo, e sim com o que eu estou propondo a fazer.”
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Com elenco formado por artistas acima dos 30 anos — incluindo Socorro Dias, fundadora do grupo e recém-chegada aos 45 anos de palco — “RISCO” simboliza, segundo o coletivo, uma fase de renovação e intensidade. Em cena, a resistência aparece como tema central e também como síntese da trajetória do grupo.

“Nossa trajetória é pautada pela resistência em fazer dança onde não tínhamos visibilidade. Nossa dança é nossa forma de dizer que estamos presentes e atentos”, finaliza Duna.
 
Serviço
Grupo Contemporâneo de Dança Livre estreia "RISCO”
Datas: 15, 16 e 17 de maio
Horário: 20h
Local: Funarte MG (Rua Januária, 68 - Centro, Belo Horizonte)
Entrada gratuita.
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