Revista Encontro

Literatura

BH vive efervescência de clubes do livro

Encontros literários se espalham e ganham ainda mais força com novos projetos, como o "Educativo Lê", do CCBB BH, e o grupo criado pela Casa Umbigo

Patrícia Cassesse
São inúmeros os encontros literários que têm sido formados em Belo Horizonte: "É uma grata surpresa a gente estar vendo, no Brasil, a efervescência dessas iniciativas. Eu chamaria mesmo de um boom", afirma o pedagogo Rafael Mussolini, bibliotecário do Centro Cultural Unimed-BH Minas - Foto: Freepik
Janela para o Leste. Este é o nome de um grupo voltado para a discussão da literatura russa (e da Europa Ocidental), bem como de suas eventuais pontes com autores brasileiros, que entra em cena na novíssima livraria Ramalhete, aberta em março deste ano. Embora, neste caso, seja um recorte mais específico, a iniciativa vem para fortalecer uma tendência em alta na capital mineira. Com vários eventos dedicados à fruição coletiva da literatura já em curso, Belo Horizonte viu nascer, só neste primeiro semestre de 2026, projetos como “Educativo Lê” e “Leituras Cruzadas – Visita Mediada Literária”, ambos do CCBB BH, e o Clube de Leitura Umbigo, do Café e Espaço Cultural Casa Umbigo, situado em Santa Tereza, que já está na sua terceira edição.
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Isso sem falar das iniciativas particulares, de amantes da leitura que, por iniciativa própria, se reúnem periodicamente para ler em conjunto ou discutir obras de autores diversos.

O pedagogo Rafael Mussolini, bibliotecário do Centro Cultural Unimed-BH Minas, no Minas Tênis Clube, e mediador do grupo local, constata: “É uma grata surpresa a gente estar vendo, no Brasil, a efervescência dessas atividades. Eu chamaria mesmo de um boom. São clubes ministrados por editoras (grandes ou pequenas), ONGs, livrarias, centros culturais, grupos de amigos…” 

Na sua avaliação, no momento atual, as pessoas estão sentindo a necessidade de convivência, do encontro físico, da troca de experiências in loco. “E a literatura pode ser um ótimo caminho para isso, apesar de ser um processo que começa solitário. Na verdade, acho que isso é uma das coisas mais fantásticas da leitura. Porque eu finalizo pensando não só em mim, no que reverberou internamente, mas como aquilo vai ser respaldado no coletivo”, diz. Com o bônus, claro, da abertura a pontos de vista diferentes propiciados pelos debates literários. Criado há um ano, o Clube de Leitura do MTC reúne, hoje, uma média de 50 pessoas por edição, que acontece na primeira quarta-feira do mês, na biblioteca da Unidade I.
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Clube do Livro do Centro Cultural Unimed-BH Minas, no Minas Tênis Clube, reúne cerca de 50 pessoas por edição - Foto: Sâmara Oliveira/Divulgação 

Contra a “terceirização” do pensamento

Os ganhos advindos da participação nesses projetos coincidem com os apontados pelos mediadores ouvidos pela reportagem. Diretor pedagógico do CCBB Educativo - Mediações em Movimento, Danilo Filho menciona, por exemplo, a contribuição para o letramento e o desenvolvimento de uma formação crítica — fundamental para o questionamento da realidade e, consequentemente, para a tomada consciente de posições na sociedade. “É uma discussão constante nossa, da equipe do Educativo, o modo como a literatura tem sido cada vez mais relegada em tempos de revolução digital”, diz, alertando para questões como o uso indevido dos recursos da Inteligência Artificial (IA), que pode acarretar, por exemplo, em uma “terceirização” do pensamento.
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Atividade Livro Aberto, no CCBB BH, um dos projetos do centro cultural voltado à literatura, convida o público infanto-juvenil e suas famílias a participarem de leituras em voz alta - Foto: Lai%u0301s Gouve%u0302a/DivulgaçãoMediador do Clube do Livro da Casa Artô, escola de artes na Savassi, onde também ministra cursos de Escrita Criativa, o dramaturgo e diretor teatral Lucas Vasconcellos ressalta o aspecto democrático dos debates. “Aqui, acontece muito de alguém ir ao evento e, na edição seguinte, voltar com uma prima ou um colega de universidade. É um programa que pode ser de amigos ou mesmo da família”. Há, ainda, as amizades que por lá se formam, de forma orgânica, motivadas pela paixão em comum. Ao rol, Lucas também cita o fato de muitos participantes, estimulados pela leitura, levarem, para o encontro, materiais extras, como artigos sobre a obra. “Também estabelecem conexões com áreas como filosofia ou ciências sociais, propiciando um panorama mais completo da obra. Em todas as edições, a gente sai maravilhado com o que cada um levou para a troca”, atesta.
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Um ganho adicional curioso que Lucas levanta, no caso específico da Artô, é a decorrente movimentação do comércio local. Pelo fato de a casa estar localizada nas proximidades da rua Fernandes Tourinho, via conhecida pelas livrarias de rua que abriga (como a Quixote, Scriptum e Jenipapo), muitos participantes acabam adquirindo a obra escolhida por lá, assim como, antes dos encontros, dão uma parada nos cafés nas imediações. O Clube do Livro da Casa Artô teve início em agosto de 2023, no endereço anterior do espaço, na Floresta. Uma das diretrizes da iniciativa é alternar a leitura de clássicos e contemporâneos.
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Partilha democrática

Uma particularidade do fenômeno dos clubes de livro é que muitos frequentadores transitam por várias das iniciativas que se espalham pela cidade. Caso da jornalista e escritora Cláudia Gabriel, que atualmente participa dos eventos da Livraria do Belas, do Instituto Cervantes e do Minas, além de um quarto, este privado, com colegas de trabalho. “Ou seja, leio no mínimo quatro livros por mês”, brinda ela, que vê tais iniciativas, inclusive, como uma forma de resistência. “Em tempos nos quais as pessoas estão cada vez mais conectadas, online, nas redes sociais, esses projetos surgem como uma oportunidade de termos encontros presenciais, nos quais as pessoas se olham, manuseiam um livro de papel, discutem o conteúdo”, pondera.
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Mesmo que suficientemente poderosa, essa não é a única motivação que fez Cláudia se tornar fã de tais encontros. “Esses clubes ajudam a fixar melhor os conteúdos, a partir do momento em que você discute com outras pessoas”, determina. Um outro ponto que ela levanta é a convivência com diferentes olhares. “Às vezes, o entendimento de um participante vai mais pelo lado psicológico, o de outro, pelo político, enquanto um terceiro, pelo viés sociológico. E tem os que levam (o conteúdo) para o lado pessoal, pela forma como atinge as emoções. Então, a partir dessa diversidade de olhares, a troca é sempre interessante e, com ela, aprendemos muito.”
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Autora de livros como “Escrito na Chuva”, ela acrescenta, ainda, que a troca de impressões sobre a narrativa por vezes pode, inclusive, mudar a percepção inicial da obra. “Assim, uma pessoa que possa não ter gostado do título, após o contato com outros pontos de vista, pode até rever a opinião”, diz 

Coincidentemente, dois dos três clubes abertos que Cláudia Gabriel frequenta são capitaneados por Ingrid Silva Mello, gestora da Livraria do Belas (localizada no Una Belas Artes) e da Livres (Mercado Novo). Curadora também de encontros e feiras literárias, assim como pesquisadora, Ingrid está há 12 anos como mediadora do Clube do Belas, que atualmente atrai cerca de 60 pessoas por edição, um número admirável. Tal qual, ela está à frente da mesma iniciativa no Instituto Cervantes.
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Incentivo à prática do encontro

Indagada quanto aos benefícios da participação nestes grupos, Ingrid reforça o já citado incentivo à prática do encontro, que, lembra, “está cada vez mais escasso em uma sociedade individualista e imersa em telas”. E acrescenta outros, advindos do incentivo ao hábito da leitura. “Como o aprimoramento do poder de concentração, do conhecimento, da percepção de vida, do vocabulário, da interpretação, do senso crítico…”  

Tudo isso ganha ainda mais tônus por se tratar de uma atividade compartilhada. “É uma experiência muito diferente. Uma oportunidade de trocar e comungar perspectivas. Aliás, temos até um bordão, no Belas: ‘Ler junto é mais gostoso’”, exalta. “Entrar em contato com outros pontos de vista amplia o nosso universo e nos faz perceber aspectos que, certamente, não passariam por uma perspectiva individual”, explana Ingrid.
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Pensamento afim é comungado por Ana Pantuza, que, apesar de oriunda da área do Direito, resolveu cursar Letras e, hoje, coordena nada menos que cinco grupos de leitura. “Um ponto importante nesses encontros é o espaço de fala livre — claro, sempre respeitoso — e a escuta ativa. Na verdade, quando a gente fala das impressões quanto a uma leitura, indiretamente estamos falando também de nós mesmos”, compreende. O respeito ao ponto de vista de cada um, acrescenta, também cria um ambiente de segurança para os participantes externarem seus pontos de vista sem o receio de críticas negativas.
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Bibliodiversidade

Ao rol de benefícios, Ingrid Mello acrescenta também a bibliodiversidade, conceito surgido nos anos 1990 e que valoriza a diversidade cultural aplicada ao universo literário e das editoras. “Veja, a grande maioria dos leitores está habituada a fazer escolhas dentro de uma certa zona de conforto. Por exemplo, se você gosta de um autor, vai partir para ler outras obras dele. Nas livrarias que gerencio, estamos sempre em busca de obras de autores de vários países, de várias perspectivas e de várias editoras, assim como dos independentes... Ou seja, de muitas vozes. E o clube de leitura me traz a possibilidade de exercer esse lugar de livreira ainda com mais ênfase. Porque o livreiro de certa forma, pega na mão do leitor e o conduz”, afirma.
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Formado em Comunicação Social e em Direito, e com três obras autopublicadas, José
Eduardo Brum, 39 anos, valoriza esse aspecto citado por Ingrid. “Pra mim, são também uma oportunidade de descobrir autores e temas que eu, por vontade própria, provavelmente não leria”, reconhece ele, para quem um livro deve chacoalhar o leitor. “Não necessariamente agradar ou acalentar.”
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Atualmente, Brum frequenta três grupos na capital. “Por ter nascido no interior (em Avelar, distrito de Paty do Alferes, no Rio de Janeiro), cresci sentindo uma carência de espaços que favorecessem um encontro com a arte”, conta. Assim que se mudou para Belo Horizonte (em 2024, após ter morado também em Juiz de Fora e em Ubá), Brum partiu para se informar sobre iniciativas de cunho literário. “Pensando também em estreitar laços. Por não conhecer ninguém àquela época, de pronto quis procurar uma tribo de amantes da literatura. A primeira experiência foi tão prazerosa que acabei procurando outros”, conta.
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Atualmente, ele prepara-se para estrear como mediador no début do clube do livro da Biblioteca da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, que vai se chamar Sobremesa Literária. O primeiro título já está definido: “Crimes”, do alemão Ferdinand Von Schirach.
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Presença do autor

Ainda que mais raro, alguns clubes registram edições que se enriquecem com a presença dos próprios autores da obra selecionada. No caso do Clube do Belas, isso ocorreu muito durante a pandemia da Covid-19, em função da adaptação do projeto para o formato online, devido à imposição do isolamento social. Já a primeira edição da Casa Umbigo, como citado no início da matéria, contou com a presença da escritora Deborah R. Sousa na roda de conversa formada em torno de “Pontos Partidos” (Editora Impressões de Minas). A obra busca resgatar as memórias de uma neta após o falecimento da avó. “Na verdade, desde que o lancei, venho desenvolvendo um trabalho de aproximação da obra com leitores em diversos espaços da cidade”, conta ela, à Encontro.
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Encontros fechados

Clube Literatura, criado em 2021 e formado por 34 leitoras de cidades diferentes, que se encontram no formato presencial ou online - Foto: Acervo PessoalAlém dos encontros de leituras abertos ao público geral, a capital mineira e o entorno abrigam iniciativas de âmbito mais restrito, muitas vezes criadas por moradores de um condomínio ou por grupos de amigos. Ana Pantuza, como já assinalado, coordena alguns nesses moldes. O primeiro, lembra ela, batizado de Clube Literatura, teve início em 2021, e foi motivado por uma amiga que atravessava um momento delicado na vida. “Foi uma ideia para ajudá-la. Hoje, somos 34 leitoras de cidades diferentes, que se encontram no formato presencial ou online”. Em 2022, ela deu start ao Clube do Livro VF Alphaville, no condomínio de mesmo nome, e em parceria com a cafeteria Ateliê VF. Atualmente, são 33 membros, com encontros presenciais a cada dois meses. Em 2024, veio o Clube do Livro VF BH, que já tem 41 sócias.
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Uma coincidência marcou a entrada da professora, jornalista e doutora em sociologia Isabelle Anchieta em um grupo de um grupo de leitura composto por mulheres residentes do mesmo condomínio em Nova Lima, o Quintas do Sol. É que a moradora da casa em frente resolveu eleger a trilogia "Imagens da Mulher no Ocidente Moderno" (Edusp), de Isabelle, como espinha dorsal de uma das edições do círculo, e, aproveitando a coincidência de comungarem o CEP, a convidaram para participar do debate. "Ou seja, me chamaram inicialmente como autora".
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Isabelle lembra que de pronto se impressionou com a leitura atenta e sagaz das integrantes, bem como com o alto nível das perguntas que lhe foram dirigidas. "Ocorre que, à  época, eu estava mais isolada, por estar envolvida com meu doutorado, assim como voltando de São Paulo para a capital mineira - portanto, retomando aos poucos os meus contatos. Naquele encontro, vislumbrei a oportunidade de estabelecer vínculos de amizade com vizinhas com as quais dividia um interesse comum - o universo dos livros. E, assim, pedi para integrar o grupo". No caso específico, além da leitura da obra escolhida, antes do encontro para a discussão, os integrantes procuram materiais adicionais, como entrevistas do autor e comentários de leitores, para enriquecer ainda mais o debate. 
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Números de leitores cai no país

Divulgado em novembro de 2024, o resultado da sexta (e mais recente) edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil revelou dados perturbadores. Reconhecida como a mais completa e aprofundada pesquisa sobre os hábitos de leitura do brasileiro, e realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), a consulta apontou que, pela primeira vez na série, a proporção de não-leitores superou a de leitores. Em números, revelou que 53% das pessoas não haviam lido nem parte de um livro – impresso ou digital – de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos, nos três meses anteriores à pesquisa. Trocando em miúdos, até ali, o país registrava uma redução de nada menos que 6,7 milhões de leitores.
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O cenário poderia soar como desolador não fosse um outro dado emerso do mesmo estudo: o de que 85% das pessoas entrevistadas revelaram que sim, gostariam de ler mais. Neste quesito, várias iniciativas tratam de auxiliar, caso das bibliotecas comunitárias e, também, dos clubes de livro. 
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Fique ligado!
 
Listamos, a seguir, o endereço no Instagram de alguns dos clubes do livro atuantes na capital mineira, onde o interessado pode encontrar as informações necessárias para se programar!
  
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