“Adriane e eu conversávamos sobre questões muito concretas, quase prosaicas, referente ao nosso próprio envelhecimento. Ela, mais jovem, queria ouvir sobre a minha experiencia com a passagem do tempo. Caso da entrada na menopausa, questões que passam pela imagem, pelo desejo...Mas também pelas formas possíveis de reinvenção”, esclarece Thaís, ressaltando que envelhecer, para uma mulher, mesmo nos tempos atuais, de mais posicionamento, ainda significa enfrentar muitas imposições. “A verdade é que há uma indústria inteira sustentada pela negação do envelhecimento feminino”, lamenta a escritora.
. Por outro lado, é fato é que o Brasil está envelhecendo, como comprova a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) 2025, divulgada em abril deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado revelou uma queda da proporção de pessoas abaixo de 40 anos de idade: o grupo está 6,1% menor em 2025 do que em 2012. Por outro lado, há um crescimento dos que estão acima dessa faixa etária, como citado pela Agência Brasil.
. “Nós estamos envelhecendo, é inequívoco. Mas, na verdade, o que nos interessava desde o início era pensar o lado íntimo, simbólico e social da experiência do envelhecer na vida das mulheres para além das estatísticas - mesmo porque, essa não é a nossa seara”, relembra Thaís. Foi quando despontou o ensejo de reverberar a discussão em um livro. Assim, as duas se propuseram a pensar como mulheres escritoras que vivenciaram ou vivenciam a experiência do envelhecimento trataram esse tema em suas obras.
. “Em outras palavras, seria um outro olhar para escritoras de obras já lidas por nós. Mas não queríamos falar apenas do envelhecimento, havia também um outro movimento neste projeto. Queríamos falar de memória literária, de mulheres que escreveram antes de nós e que muitas vezes foram lidas de modo insuficiente e lateral. Mulheres que foram apagadas pelo cânone ou simplesmente esquecidas”, pormenoriza Thaís.
. Dessa forma, ela e Adriane Garcia escolheram 34 escritoras. “Assim, Adriane escreveu em diálogo com 17 escritoras, e eu, com outras 17”. As escolhas, prossegue Thaís, foram feitas a partir da própria memória afetiva das duas. “A nossa memória leitora em especial, porque são obras que estavam (estão) nas nossas estantes. Então, é um percurso de leitura que nós revisitamos. De décadas de leituras. E, nesse sentido, eu posso dizer que esse projeto, esse livro, ele nasce de duas perguntas cruzadas”, explana Thaís.
. São elas: “Como as mulheres escreveram o envelhecer e como nós, mulheres que escrevemos hoje, podemos atravessar poeticamente essa experiência acompanhadas pelas que vieram antes. Então, essa é arquitetura do nosso livro: são 34 poemas dedicados a 34 mulheres, a começar de Maria Firmina dos Reis, que é a primeira romancista do Brasil, chegando até a poeta contemporânea Sônia Queiroz, que está entre nós, produzindo”. Além das já citadas, Thaís e Adriane reverenciam Hilda Hilst, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Marina Colassanti, Maria Valéria Resende, Clarice Lispector, Ruth Rocha, Alaíde Lisboa, Alice Ruiz, Branca Maria de Paula, Olga Savary, Orides Fontela e muitas outras.
. Com a palavra, mais uma vez Thaís. “Digo que é um projeto que nasceu há quatro mãos porque a concepção de toda escrita nasceu especialmente de uma amizade literária, de uma admiração e de uma confiança muito grande entre a Adriane e eu”. Thaís Guimarães também assina a concepção editorial do livro, a partir do projeto gráfico desenvolvido pela designer Rita Davis. O posfácio, por sua vez, é da pesquisadora e professora Constância Lima Duarte, que considera a publicação uma contribuição relevante para o resgate da literatura de autoria feminina.
. Cumpre acrescentar que, ainda em processo de elaboração, “Círculos Onde Envelheço” tornou-se finalista do Prêmio Literário Cidade de Belo Horizonte em 2024. Posteriormente, integrou projeto selecionado pelo Edital Minas Literária, com apoio institucional do Governo de Minas Gerais, que viabilizou sua finalização e publicação. Instada a falar mais sobre o conteúdo, Thaís, simpaticamente, declina. “Eu penso que falar muito de um livro que está sendo entregue ao mundo é como pisar em areia movediça - é melhor que os poemas falem por si. Por mais que eu diga do livro, a mágica da poesia é ouvir a voz do poema. E esse é o convite que eu deixo aqui: ouvir as vozes, as várias vozes que ecoam em círculos onde envelheço”, despede-se.
Serviço
Lançamento do livro “Círculos Onde Envelheço”
Sessão de autógrafos e venda de exemplares no sábado, 27 de junho, das 11 às 14h, na Livraria Ramalhete (Rua Pernambuco, 1.000, Savassi).
.