Mas o automóvel como objeto de afeto não é exclusividade dos carros ilustres do percurso. Em uma das instalações, o visitante encontra orelhões antigos – daqueles que estão sumindo das ruas – onde, ao levantar o fone, ouve depoimentos gravados de pessoas comuns contando sua própria história com carros da marca. É um lembrete de um hábito que muita gente ainda reconhece na memória da própria família, quando o carro ganhava apelido e aparecia em fotos como mais um membro da casa – exemplares dessas fotografias, inclusive, também têm seu espaço na exposição.
. Muito além dos carros e suas histórias, sejam elas eloquentes ou comezinhas, “Celebrar as ruas” é uma mostra especialmente habilidosa em pensar pontos de confluência entre a indústria e a arte brasileira. Não por outro motivo, os elementos industriais não estão só no que as obras retratam, mas também no material de que são feitas e até na expografia. Há moldura em chapa metálica, pintura sobre placa de metal em vez de tela, e até uma tapeçaria que usa linhas de cores metalizadas. O exemplo mais evidente está em uma das salas do primeiro núcleo, onde há um painel de fotos da fábrica de Betim e uma pintura de Yara Tupynambá sobre trabalhadores da siderurgia, sendo as duas obras divididas em três partes, um tríptico ao lado do outro.
. A escolha não foi por acaso. “A gente precisava espacializar um conceito de exposição que é muito abstrato e muito raro no Brasil, que é essa relação entre arte e indústria”, explica o curador Yuri Fomin Quevedo, do acervo da Pinacoteca de São Paulo, que assina a curadoria ao lado de Peter Fassbender e Marcos Rozen.
. O restante do percurso se divide em outros núcleos, tão diversos quanto as ruas que dão nome à mostra. Um deles reúne quase um século de produção artística sobre paixões nacionais como o futebol e o carnaval, com obras que vão de Candido Portinari a Rubens Gerchman, além de fotografias do desfile que a Estação Primeira de Mangueira levou ao Sambódromo para o lançamento do Fiat Palio. A religiosidade que também marca as ruas brasileiras aparece em pinturas de José Antônio da Silva, Babalu, Iaponi Araújo e José Luiz Soares, ao lado de uma instalação com bugigangas de devoção penduradas em retrovisores. Já o olhar sobre o feminino ganha corpo em obras como "Mulher Mutante", de Regina Vater, e em um cartaz publicitário de 1977 que convidava leitoras de revista, entre elas Sônia Braga, a escolher a cor de um Fiat 147.
. Outro conjunto de obras funciona quase como contraponto à lógica industrial que estrutura boa parte da exposição – pinturas de paisagens rurais, cidades do interior e áreas periféricas, alheias ao ritmo fabril. É o caso das telas do mineiro Marcos Siqueira, que produz as próprias tintas com terra e folhas colhidas na Serra do Cipó, e das tapeçarias de Madeleine Colaço, criadora do chamado “Ponto Brasileiro”, que tece cidades iluminadas como constelações. Também nessa chave, Raymundo Colares registra o estranhamento diante da velocidade das metrópoles em telas com carrocerias de ônibus fragmentadas, enquanto Nelson Leirner usa miniaturas de carrinhos para dialogar com a grade geométrica de Mondrian.
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