Revista Encontro

Entrevista

Rusty Marcellini retorna ao Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes

De volta à curadoria após dez anos, pesquisador fala sobre o crescimento do evento, a relação entre Minas e Portugal e os planos para a edição de 30 anos

Marília Mendonça

O pesquisador e gastrônomo Rusty Marcellini, curador do Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes - Foto: Fartura/Divulgação

Em seu primeiro fim de semana, entre os dias 21 e 23 de agosto, o Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes foi um sucesso de público. Recebeu cerca de 30 mil pessoas, um dos seus eventos, o sunset na Vinícola Trindade, esgotou, assim como os festins, e foi marcado por praças cheias. É nessa expectativa que o evento chega para seu segundo e último final de semana, que acontece desta sexta-feira (28) a domingo (30). 

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E o pesquisador e gastrônomo Rusty Marcellini só observa. Uma década após ficar fora da organização (ele já havia sido curador entre 2013 e 2016), ele marca o seu regresso ao festival neste 2026 bastante impressionado com a dimensão que o evento vem tomando. E traz o desafio e a responsabilidade de alinhar esse crescimento de público ao que ele acredita que deve ser a essência da festa, a valorização de toda a cadeia produtiva — dos produtores locais ao prato final.
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Nesta edição, sua curadoria se debruça sobre um tema de relevância histórica: os elos profundos que unem a gastronomia mineira às suas raízes portuguesas, tema que Rusty sugeriu por conhecer como ninguém. Em entrevista, o especialista detalha os bastidores dessa pesquisa, antecipa a expedição que vai mapear os caminhos históricos do Sul de Minas para a criação de conteúdos exclusivos e partilha os detalhes da sua mais recente empreitada digital, o App do Rusty, bem como as novidades do seu espaço de conhecimento, o Rusty & Co.
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Confira, a seguir, a conversa na íntegra sobre a celebração dos sabores, os saberes partilhados entre continentes e as perspetivas para o futuro do festival, que ruma aos seus 30 anos.
 
Encontro: Passado o primeiro final de semana do Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes, qual foi a sensação real de retorno à curadoria do evento depois de dez anos?
 
Rusty Marcellini: Fiquei muito feliz com o convite para ter voltado. É muito agradável ver que o Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes segue de pé e continua com toda a força. Muito bom poder estar junto das pessoas que a gente admira, que a gente convidou; é bom receber os chefs, os convidados, acompanhar as aulas… Tem sido um momento de muito trabalho, mas também de muita observação, porque, como estou voltando, muita coisa está diferente de dez anos atrás.
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Encontro: O que mais te chamou a atenção após uma década longe da organização?
 
Rusty Marcellini: O festival cresceu muito em dimensão de público. Antigamente, eram apenas duas praças e havia mais festins em restaurantes. Hoje em dia, são três praças e um festim. Estou ainda tentando entender um pouco mais (sobre o novo formato) para fazer um trabalho mais efetivo, deixar um pouco mais da minha marca também.
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Encontro: Como você avalia essas mudanças? Mudou o perfil de público?
 
Rusty Marcellini: Isso é uma coisa que eu preciso entender ainda. Esta edição tem sido muito mais para a gente sentir (que caminho o festival tem tomado). Mas, independentemente de uma democratização ou não, eu acho que o mais importante é envolver a cidade e seu entorno. E um dos meus objetivos é justamente esse. Para tanto, preciso saber para onde a cidade — que pula de 10 mil habitantes para 40 ou 50 mil durante o festival — está indo, como recebe tudo isso e o que seria mais adequado a ela. É preciso envolver toda a comunidade, focando naquilo que é e sempre foi o meu trabalho, muito além de apenas restaurantes e chefs de cozinha.
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Encontro: De que forma?
 
Rusty Marcellini: Destacando a gastronomia como um todo. Quem são as pessoas do entorno da cidade, os produtores, como isso se distribui... todo o meu trabalho sempre foi baseado em toda a cadeia produtiva, e não apenas naquele elo final ali do chef de cozinha. E isso é algo que eu pretendo também começar a fazer já no próximo ano.
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Encontro: Neste ano, o Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes tem uma das agendas gastronômicas mais extensas da sua história. Pode falar um pouco sobre isso?
 
Rusty Marcellini: Eu posso falar pela quantidade de aulas, que são realmente muitas, mas ainda acho que cabe mais, sabe? Porque eu prezo pelo conhecimento. Todo o meu trabalho tem a ver com isso. E, de novo, não apenas aquela coisa de fazer receita, que é a culinária; eu penso muito mais na gastronomia, na questão de tudo o que envolve o estar ao redor da mesa, e não simplesmente ensinar as pessoas a cozinhar. Até porque isso já tem muita gente fazendo. Vamos conseguir valorizar esses profissionais que estão ali por meio do conhecimento da gastronomia, do seu papel como educação, e não apenas do entretenimento.
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Encontro: O festival tem essa temática do elo entre Minas e Portugal. Como foi seu trabalho de curadoria para este ano? Pode contar um pouco para a gente sobre as suas pesquisas e essas descobertas?
 
Rusty Marcellini: A primeira atitude que tomei assim que voltei foi: nós precisamos ter um tema. Precisamos ter alguma linha a seguir. E pensei imediatamente em algo que tem a ver com a história de Minas, que é a relação com Portugal, um país que conheço muito; então, tenho conhecimento e propriedade para falar sobre isso, fora os contatos que tenho por lá também.
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Encontro: Pode nos especificar melhor esse elo?
 
Rusty Marcellini: Os mineiros talvez não percebam o quanto nós somos próximos de Portugal… Toda a questão do modo de fazer o nosso queijo, toda a técnica — uma das principais identidades mineiras — vem dos portugueses. Temos também os quintais, que são muito presentes em Portugal. Foram os portugueses que nos ensinaram como cuidar deles, como plantar uma couve… você pode pegar a folha, depois volta e pega outra, ela vai crescer, você não está arrancando o pé.
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Tudo isso tem a ver com o conhecimento passado pelos tropeiros. Temos em Portugal, por exemplo, muito arroz com feijão. Herdamos de lá, e muita gente não sabe: a nossa feijoada também veio daí. Não veio das senzalas, como os historiadores falavam antigamente.
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Muitas coisas da nossa comida mineira vêm de lá: nossos embutidos (que eles chamam de enchidos), as curas, o jeito do manuseio do porco. Eu quis colocar nas aulas justamente essa temática, assim como nos festins: chefs mineiros cozinhando com chefs portugueses, exatamente para ter esse tipo de troca de conhecimento.
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Encontro: Todo esse conhecimento vai virar algum tipo de conteúdo que possa ser visto ou consultado posteriormente?
 
Rusty Marcellini: Sim. Após o festival, mais para o final de setembro, vamos fazer a nossa expedição. Partiremos com uma equipe para registrar algumas regiões e contar um pouco da história da nossa riqueza. E eu justamente vou fazer essa ligação novamente com Portugal através do Sul de Minas: cidades como Heliodora e seu entorno, Campanha, São Gonçalo do Sapucaí e toda aquela região que tem, inclusive, a Vinícola Bárbara Heliodora. É a região por onde os portugueses passavam, por onde passou Dom Pedro II e sua corte quando se dirigiam para a região de Caxambu e São Lourenço por conta das águas termais… Vamos abordar essa ligação dos mineiros com Portugal.
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Encontro: E esse conteúdo chega para a gente em que formato?
 
Rusty Marcellini: Pequenos vídeos, que provavelmente devem estar prontos no final de outubro ou início de novembro para serem divulgados nas redes sociais da Plataforma Fartura.
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Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes acontece desta sexta-feira (28) a domingo (30) - Foto: Thiago Morandi/Divulgação 
 
Encontro: Falando de seus projetos pessoais agora, você está num momento super produtivo, não é? Lançando um aplicativo, promovendo eventos no seu espaço, o Rusty & Co. Conta um pouquinho sobre esse momento.
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Rusty Marcellini: Desde quando comecei, lá em 2004, o meu objetivo sempre foi levar as pessoas a conhecer quem são aqueles profissionais apaixonados pelo ofício que têm alguma relação com a gastronomia. Eu acho que acabei virando referência. Já rodei o Brasil inteiro duas vezes mapeando sempre a cadeia produtiva gastronômica. Primeiro, lá de 2004 a 2008, por meio de um projeto da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) chamado Caminhos do Sabor. Depois, rodei Minas Gerais inteira por conta do programa Trilhas do Sabor, que era exibido na Rede Minas. Entrei para o Fartura em 2013, quando ainda se chamava Expedição Brasil Gastronômico, ocasião em que circulamos por todo o Brasil. 
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Acabei criando um imenso banco de dados e meu nome começou a circular como pesquisador, como a pessoa que viajou por tudo quanto é canto. Virei referência por conta das dicas. Praticamente todo dia eu recebo uma mensagem do tipo: “Poxa, estou em Goiânia, onde eu vou para comer?”, “Estou aqui no Sul do Brasil, tem algum lugar que você me indica?”.
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E acabei decidindo criar um aplicativo que reunisse todas essas dicas, o App do Rusty. Ele tem uma anuidade de R$ 40 e contém, além das minhas indicações, todas as apostilas de aulas que dou desde 2010. Aulas que têm o objetivo de divulgar a gastronomia brasileira — não receita ou culinária, mas aula de gastronomia. Nesta semana, por exemplo, dei aulas cujos temas eram as montanhas mineiras. Quais são os ingredientes que encontramos nas principais serras de Minas Gerais, como a região do Espinhaço, da Mantiqueira e do Caparaó? Existe uma culinária própria nessas regiões? As aulas sempre têm esse objetivo.
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Encontro: As aulas têm acontecido no seu espaço na Vila da Serra, o Rusty & Co?
 
Rusty Marcellini: Sim. O Rusty & Co é um espaço de eventos e conhecimento gastronômico, mas que está aberto para as pessoas também fazerem seus eventos privados, locações ou até mesmo para outros chefs e cozinheiros darem aula lá. Temos toda a estrutura. O Rusty & Co tem exatamente esse objetivo: ser meu, mas ser de outras pessoas também que quiserem divulgar o seu conhecimento. Já tivemos aulas com o Eduardo Girão falando de queijo, com a Fabiana Arreguy falando de cerveja, de harmonizações de vinhos com o Márcio Oliveira, com o Gerson Lopes e tantas outras pessoas que já passaram por lá para divulgar seu conhecimento gastronômico.
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Encontro: Em 2027, o Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes completa 30 anos. O que você vislumbra para o evento?
 
Rusty Marcellini: Precisamos deixar passar essa edição do festival para ver o que vai ser no ano que vem. Mas penso que tem de ser uma grande celebração, porque são 30 anos... é o festival mais longevo do Brasil, sem dúvida alguma. Enquanto isso, vamos aproveitar ao máximo o segundo final de semana! Vai ter muita coisa legal. A gente vai ter lá o Nuno Oliveira, da Doces de Portugal, ensinando a fazer doces; a principal chef de um dos principais restaurantes de cozinha portuguesa no Brasil, que é a Patrícia Sampaio, do Bela Sintra, que fará um festim ao lado do Rodolfo Maia, do Angatu, um chef local que a gente fez questão também de levar. Além das cozinhas ao vivo, muita coisa boa.
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Serviço
29º Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes
Data: Até 30 de agosto de 2026
Espaços gratuitos
Praça Santíssimo
Praça da Rodoviária
Largo das Forras
Festins
28 e 29 de agosto de 2026
Sunset Fartura na Vinícola Trindade
29 de agosto de 2026
Casa Localiza
Rua Direita, 159 – Tiradentes/MG
Funcionamento:
Sexta-feira: 17h às 22h
Sábado: 12h às 22h
Domingo: 10h às 15h

 

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