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Livremente inspirada em histórias reais, a produção explora diferentes manifestações da violência de gênero, desde comportamentos abusivos mais sutis até agressões explícitas. Entre as referências estão a cantora Eliane de Grammont, assassinada pelo ex-marido durante uma apresentação em 1981, e a artista Nina Simone, que sofreu abusos físicos e psicológicos do marido e empresário.
. Com atuação de Daniela Rosa e Rafael Bougleux, direção de Fernando Gimenes e trilha sonora executada ao vivo por Renata Prado e Wendel Dima, a peça acompanha um casal que, ao som do jazz, vivencia um processo artístico de investigação sobre a violência e o feminicídio. A montagem utiliza os movimentos corporais e a música para explorar os limites das relações amorosas e provocar reflexões sobre o machismo estrutural.
. Segundo Daniela Rosa, atriz, fundadora da Cia. Entre Nós e idealizadora do espetáculo, a criação da obra surgiu da necessidade de transformar experiências e relatos de violência em expressão artística.
. “Da minha própria vivência como mulher e artista, cercada por marcas, travessias de abusos e violências ao redor que atravessam a vida de tantas de nós. Eu sentia a necessidade de usar o corpo e a dança-teatro não apenas como expressão estética, mas como uma ferramenta política e pessoal. Ao lado de Fernando Gimenes e Rafael Bougleux, buscamos transformar essa memória vivida e presenciada em uma narrativa poética e contundente — que denunciasse o abuso, fizesse o público refletir criticamente sobre o machismo estrutural”, conta.
. A montagem estreou em 2015 e permanece no repertório da companhia. Para Daniela, a continuidade das apresentações está relacionada à permanência da violência de gênero na sociedade brasileira.
. “A permanência da obra no repertório (da companhia) carrega um sentimento agridoce. Por um lado, escancara que a pauta continua tragicamente urgente, por outro, mostra a força da dança-teatro como poderoso instrumento de denúncia para transformar realidades. Acessamos o público de uma forma que os números e as estatísticas talvez não consigam: pela empatia, o afeto e a subjetividade da cena. O palco vira um alto-falante para denunciar o que muitas vezes é empurrado para debaixo do tapete”, afirma.
. Dança-teatro e música ao vivo
Em cena, os movimentos dos atores são utilizados como parte central da narrativa, sem uma separação rígida entre dança e teatro. De acordo com o diretor Fernando Gimenes, a linguagem corporal permite expressar aspectos das relações que nem sempre são revelados pelas palavras. “O corpo vem antes, sempre. Ele denuncia o espírito. Ele denuncia a realidade mesmo que a palavra tente confundir ou organizar o discurso verbal. Um olhar é corpo transbordante. Neste trabalho, não nos preocupamos em diferenciar a dança do teatro. Não acredito nesses limites, preferimos borrá-los ao máximo possível”, comenta Fernando Gimenes.
. Além das histórias reais, a montagem reúne referências de obras da escritora Dione Carlos, da performer Suzanne Lacy e da fotógrafa Nan Goldin. A proposta é envolver o público na narrativa, colocando os espectadores na posição de testemunhas das situações apresentadas. “A relação com quem assiste é direta, poética e profunda: o público não é mero espectador. Sentimos em cena um incômodo palpável no ar, um silêncio denso que, por vezes, se torna insuportável ali permanecer. Percebemos que a plateia reconhece no palco as violências do cotidiano — das mais sutis e veladas às mais explícitas. É frequente ver pessoas profundamente emocionadas, mulheres que se identificam com o que veem e homens constrangidos ou deslocados de sua zona de conforto. A obra funciona como um espelho e um espaço seguro de escuta por onde passamos, provocando essa tomada de consciência que o ato de testemunhar juntos artisticamente consegue gerar”, comenta Daniela Rosa.
. Serviço
Espetáculo "NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA”
Até 26 de outubro, sexta a segunda-feira, às 19h
Local: CCBB BH – Teatro II
Por causa das eleições, a sessão do dia 25/10 será transferida para o dia 24/10, às 15h
Classificação indicativa: 16 anos | Duração: 60 minutos
Ingressos gratuitos para o espetáculo com retirada no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria