Revista Encontro

Economia

Mercado imobiliário de Minas Gerais movimenta R$ 14,5 bilhões em vendas

Desequilíbrio urbano desafia déficit habitacional na capital, com moradia em falta, estoque baixo e boom de alto padrão

Lilian Monteiro
Raphael Lafetá, presidente do Sinduscon-MG - Foto: Gabriel Araújo/Divulgação
O mercado imobiliário de Minas Gerais registrou movimentação de R$ 14,5 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) em 2025, resultado que representa crescimento de 3,3% na comparação com o ano anterior. As informações fazem parte de um levantamento divulgado nesta quarta-feira (25) pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG). O avanço foi impulsionado principalmente pelo desempenho de municípios do interior do estado, responsáveis por 51,5% das unidades comercializadas no período.
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Os dados apontam que, em meio a agruras que redesenham o horizonte e lançamentos que ostentam cifras milionárias, Belo Horizonte vive um paradoxo urbano: enquanto o déficit habitacional de moradias econômicas se aprofunda, impulsionado por lacunas na legislação, juros elevados, entraves no Plano Diretor e escassez de mão de obra, o mercado imobiliário direciona investimentos para empreendimentos de alto padrão. O resultado é uma cidade que cresce para cima — e para poucos —, com apartamentos de luxo que se multiplicam e são vendidos imediatamente, ao mesmo tempo em que famílias de renda média e baixa enfrentam escassez de oferta, encarecimento do crédito e entraves para acessar programas habitacionais. 
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A dinâmica expõe distorções estruturais e acende o debate sobre o papel do poder público e do setor privado na construção de um desenvolvimento urbano mais equilibrado. Este é o cenário posto diante dos dados divulgados pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG) no balanço do mercado imobiliário em Minas Gerais em 2025, nesta quarta-feira (25/02), descortinado pelo presidente da instituição, Raphael Lafetá, e pela economista-chefe da entidade, Ieda Vasconcelos. Eles também falaram sobre as perspectivas para o setor no estado em 2026.
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O mercado precisa ser fomentado e incentivado em Minas Gerais, diante de números pujantes no Brasil, retraídos no estado e, principalmente, em Belo Horizonte. O foco principal é o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV). “Minas está muito acanhada, de 450 mil unidades no Brasil, BH responde no máximo a 5%, número muito pequeno, levando em conta que temos déficit habitacional de 480 mil/unidades em Minas, 200 mil na capital, segundo Fundação João Pinheiro (FJP). Temos um número de lançamento muito pequeno e nosso estado é um problema. Falhamos e o mercado sozinho não consegue responder. Precisamos do estado, de modernizar a legislação para conseguir suprir a necessidade de moradia da sociedade”, alerta o presidente Raphael Lafetá. A defasagem na moradia econômica contrasta com a de super luxo. Números dos indicadores por padrão revelaram que em 2025, em BH e Nova Lima, foram lançadas 134 unidades de super luxo, acima de R$ 4 milhões. Todas vendidas.
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Ainda que ressalte a força do mercado da construção civil que, “apesar da taxa de juros extremamente elevada em 2025, em um mercado que precisa de financiamento e recurso de capital, mostrou resiliência mesmo diante do déficit habitacional e da necessidade de saneamento de obras de infraestrutura. O mercado tem respondido com números importantes, mas pode melhorar”, reforça o presidente. “Não é somente proibir ocupações em espaços não adequados ou que trazem risco para a moradia, mas fomentar o mercado para que tenha possibilidade de movimentar novas moradias em locais adequados”, avisa. 
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Ao pensar em legislação restritiva, comparando Brasil, Minas Gerais, Belo Horizonte e Nova Lima, em termos de unidades do Programa Minha Casa Minha Vida, que tem a maior parte do déficit habitacional, Ieda Vasconcelos destaca que no Brasil 46% das vendas de unidades são do padrão econômico, isso significa que de 426 mil unidades vendidas no país quase 200 mil são referentes ao Minha Casa Minha Vida. O mesmo acontece com os lançamentos, no total de 453 mil unidades vendidas no Brasil, quase 225 mil são do programa. E o estoque disponível para comercialização no país está em pouco mais de 347 mil unidades e 130 mil do programa, o que dá pouco mais de 37%.  “Em Minas, o número é mais modesto. Ou seja, do total de 21.516 unidades vendidas, 6.604 são do programa (menos de 31%) e os lançamentos e ofertas também ficam no patamar de 30%. Ou seja, enquanto no Brasil quase 50% de vendas e lançamentos estão na casa de 50% do Minha Casa Minha Vida, Minas Gerais está na faixa de 30%”.
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Em Belo Horizonte, enfatiza a economista, este número é “praticamente inexistente”. Ela aponta que “das 7.545 unidades vendidas na capital e em Nova Lima, somente 426 unidades foram do padrão econômico, ou seja, 5,65%. Isso naturalmente tem a ver com a legislação urbana restritiva. E este número modesto não significa ausência de demanda, mas ausência de oferta em função de uma legislação que impede o avanço para este tipo de construção de padrão econômico. Belo Horizonte está expulsando as pessoas para outras cidades da Região Metropolitana”, alerta Ieda Vasconcelos.  
 
Recorde FGTS – Bilhões do orçamento 
 
Para o presidente do Sinduscon, estes números trazem vergonha para o setor, já que a necessidade existe. “Falta ação e modernizar a legislação. Temos de trazer o Minha Casa Minha Vida para Belo Horizonte. Em 2026, vale registrar que será recorde de orçamento do FGTS para o programa, falamos em R$ 142 bilhões, volume que nunca foi aplicado em habitação de interesse social.  A pergunta do setor é: qual será a participação de Minas Gerais neste bolo de recursos que são gerados pelos trabalhadores?  Este recurso traz emprego, movimentação do mercado, da cadeia, organização de espaços públicos e investir em um dinheiro que é do trabalhador mineiro em Minas. Precisamos dar uma resposta e trazer este recurso para o estado”, reforça Raphael Lafetá. 
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Ieda Vasconcelos, economista-chefe do Sinduscon-MG - Foto: Sinduscon-MG/Divulgação Ieda Vasconcelos alerta que ao comparar de 2018 até 2025, ano a ano, é claro como os lançamentos do padrão econômico foram reduzindo. E o divisor de águas se estabelece de 2022 para 2023, quando o Plano Diretor foi concluído e se mostrou mais restritivo para BH. “Números não mentem. O Plano Diretor não está favorecendo a habitação em Belo Horizonte. Está espantando o morador da capital, perdemos quase 60 mil habitantes de acordo com o último censo. Perder o habitante significa diminuir o PIB da cidade, a movimentação econômica, o que ocorre no hipercentro, que está vazio e as pessoas migrando para cidades periféricas, como Nova Lima e Lagoa Santa, ainda que continuem trabalhando em BH. O que traz outro problema, a mobilidade e não ocupação de equipamentos públicos já existentes na cidade”, pontua Raphael Lafetá.  
 
Estoque baixo
 
Ieda Vasconcelos afirma que, de forma geral, o ano de 2025 mostrou resultados expressivos em lançamentos e vendas em BH e Nova Lima, apesar da queda em relação a 2024, que foi de recorde. “Lançamentos acima de 7 mil unidades em um cenário restritivo em relação à taxa de juros mostra a resiliência do mercado imobiliário. No entanto, a nossa oferta, nosso estoque de unidades, de 4.484 unidades em Belo Horizonte e Nova Lima, é tão baixo que, se considerarmos a ausência de lançamentos nos próximos meses, este estoque se esgota em apenas sete meses. Considerando a média de unidades vendidas, se não tiver lançamentos, em sete meses BH não teria mais nenhuma unidade para vender”. O número de unidades disponíveis para comercialização em BH e Nova Lima, em dezembro de 2025 era 4.484. Número próximo ao observado em Uberlândia (4.434) e inferior a cidades como Goiânia (11.771), Curitiba (11.037), Porto Alegre (7.300), Rio de Janeiro (14.404). Recife (6.709) e Salvador 6.080.   
 
“Estes números têm um efeito perverso na questão do acesso à moradia. Se tem oferta menor, os preços sobem e mais que a inflação. É a lei do mercado, oferta e demanda. O número baixo de estoque na cidade traz uma dificuldade de encontrar imóveis para alugar e adquirir. É preocupante para o mercado e como política habitacional também. Daí nossa preocupação para reverter este estoque”, alerta o presidente do Sinduscon-MG.  
 
Raphael Lafetá se diz otimista sabendo que precisa de medidas urgentes para o setor. Ele acredita que o ano eleitoral não vai interferir no mercado e a preocupação central é com a legislação e o Plano Diretor: “Economia é mais forte que a própria política. Quanto ao Plano Diretor vigente, ele traz coeficiente de aproveitamento de uma vez só, o que é uma grande restrição porque o valor da terra fica muito caro, não consegue diluir nas unidades construídas; a outorga por si só também é restritivo, pois já se mostrou ineficiente e inapropriado para o mercado imobiliário, principalmente o social; e a questão de número de vagas, o mercado é soberano em número de vagas e tem de ofertar isso de acordo com a demanda do cliente. Outro ponto é a definição de tamanho mínimo ou máximo de imóveis, que é mais restritivo que a própria norma brasileira para uma habitação confortável, a ABNT NBR 15575. As normativas deveriam adotar as normas já existentes. Além disso, há recuos, afastamento, altimetria. Hoje a altimetria de BH é medida pelo Aeroporto da Pampulha, que é o mais baixo da cidade. E mais restrições de patrimônio, tombamento... Enfim, há muitos pontos para resolver.  Teremos a oportunidade de colocá-los em discussão na Conferência das Cidades e amadurecê-los junto à sociedade e diversos outros atores envolvidos.”
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Números de destaque – 2025
  • Em 2025, Minas Gerais vendeu 21.516 apartamentos novos. Nesse ano foram lançados 296 empreendimentos com 22.606 unidades. Portanto, os lançamentos ficaram 5,07% superiores às vendas.
  • O Valor Global das Vendas (VGV) do mercado imobiliário mineiro foi de R$14,513 bilhões, e o Valor Global dos Lançamentos (VGL) foi de 14,080 bilhões.
  • Em 2025 a capital mineira se destacou com as vendas (6.517 unidades) superando os lançamentos (5.721 unidades), o que resultou na queda de 17,2% do número de unidades disponíveis para comercialização.
  • Do total de 7.545 unidades vendidas em Belo Horizonte e Nova Lima em 2025 observa-se que 30,6% (2.310 unidades) foram de padrão standard (com valores de R$350 mil até R$700 mil). Também se destacaram os apartamentos de padrão compacto, que foram responsáveis por 27,4% (2.071 unidades) das vendas.
  • Cerca de 30% (2.128 unidades) do total de lançamentos em Belo Horizonte e Nova Lima foram de imóveis de padrão compacto. E as vendas de apartamentos de padrão compacto cresceram 54,6%. Enquanto em 2024 foram vendidas 1.340 unidades, em 2025 foram 2.071.
  • A Região Sul foi destaque no mercado imobiliário em 2025. Ela foi responsável por 36,9% dos lançamentos e por 32,9% das vendas.
  • Em 2025 foram vendidos 7.545 apartamentos novos nas cidades de Belo Horizonte e Nova Lima, o que correspondeu a uma queda de 5,92% em relação ao ano anterior. Apesar desse recuo, foi o segundo melhor resultado da comercialização de imóveis novos da série histórica iniciada em 2016. É necessário ressaltar que a queda nas vendas ocorreu em função da redução dos lançamentos, e que o ano 2024 também foi recorde
  • O aumento nos preços de imóveis novos disponíveis para comercialização em Belo Horizonte e Nova Lima estão acima do custo da Construção (CUB/m²) e também da inflação oficial do País, medida pelo IPCA/IBGE
  • Na Região Metropolitana (excluída as cidades de Belo Horizonte e Nova Lima) foram vendidos 2.888 apartamentos novos, o que correspondeu a uma queda de 28,76% em relação ao ano anterior.
  • A Construção Civil criou, em 2025, 87.878 novos empregos, o que correspondeu a uma queda de 19,53% em relação a 2024.
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Construção Civil - O que esperar de 2026
 
De positivo
  1. Início do ciclo de queda da taxa de juros.
  2. Investimentos em obras de infraestruturas devem continuar
  3. Programa Reforma Casa Brasil
  4. Orçamento recorde do FGTS para habitação
  5. Novas contratações PMCMV.
  6. Novo modelo de crédito habitacional, que pode fortalecer o ânimo do mercado imobiliário
 
De negativo
  1. Taxa de juros ainda elevada
  2. Escassez de mão de obra
  3. Menor ritmo de crescimento da economia nacional
  4. Situação fiscal.

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