Os dados apontam que, em meio a agruras que redesenham o horizonte e lançamentos que ostentam cifras milionárias, Belo Horizonte vive um paradoxo urbano: enquanto o déficit habitacional de moradias econômicas se aprofunda, impulsionado por lacunas na legislação, juros elevados, entraves no Plano Diretor e escassez de mão de obra, o mercado imobiliário direciona investimentos para empreendimentos de alto padrão. O resultado é uma cidade que cresce para cima — e para poucos —, com apartamentos de luxo que se multiplicam e são vendidos imediatamente, ao mesmo tempo em que famílias de renda média e baixa enfrentam escassez de oferta, encarecimento do crédito e entraves para acessar programas habitacionais.
. A dinâmica expõe distorções estruturais e acende o debate sobre o papel do poder público e do setor privado na construção de um desenvolvimento urbano mais equilibrado. Este é o cenário posto diante dos dados divulgados pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG) no balanço do mercado imobiliário em Minas Gerais em 2025, nesta quarta-feira (25/02), descortinado pelo presidente da instituição, Raphael Lafetá, e pela economista-chefe da entidade, Ieda Vasconcelos. Eles também falaram sobre as perspectivas para o setor no estado em 2026.
. O mercado precisa ser fomentado e incentivado em Minas Gerais, diante de números pujantes no Brasil, retraídos no estado e, principalmente, em Belo Horizonte. O foco principal é o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV). “Minas está muito acanhada, de 450 mil unidades no Brasil, BH responde no máximo a 5%, número muito pequeno, levando em conta que temos déficit habitacional de 480 mil/unidades em Minas, 200 mil na capital, segundo Fundação João Pinheiro (FJP). Temos um número de lançamento muito pequeno e nosso estado é um problema. Falhamos e o mercado sozinho não consegue responder. Precisamos do estado, de modernizar a legislação para conseguir suprir a necessidade de moradia da sociedade”, alerta o presidente Raphael Lafetá. A defasagem na moradia econômica contrasta com a de super luxo. Números dos indicadores por padrão revelaram que em 2025, em BH e Nova Lima, foram lançadas 134 unidades de super luxo, acima de R$ 4 milhões. Todas vendidas.
. Ainda que ressalte a força do mercado da construção civil que, “apesar da taxa de juros extremamente elevada em 2025, em um mercado que precisa de financiamento e recurso de capital, mostrou resiliência mesmo diante do déficit habitacional e da necessidade de saneamento de obras de infraestrutura. O mercado tem respondido com números importantes, mas pode melhorar”, reforça o presidente. “Não é somente proibir ocupações em espaços não adequados ou que trazem risco para a moradia, mas fomentar o mercado para que tenha possibilidade de movimentar novas moradias em locais adequados”, avisa.
. Ao pensar em legislação restritiva, comparando Brasil, Minas Gerais, Belo Horizonte e Nova Lima, em termos de unidades do Programa Minha Casa Minha Vida, que tem a maior parte do déficit habitacional, Ieda Vasconcelos destaca que no Brasil 46% das vendas de unidades são do padrão econômico, isso significa que de 426 mil unidades vendidas no país quase 200 mil são referentes ao Minha Casa Minha Vida. O mesmo acontece com os lançamentos, no total de 453 mil unidades vendidas no Brasil, quase 225 mil são do programa. E o estoque disponível para comercialização no país está em pouco mais de 347 mil unidades e 130 mil do programa, o que dá pouco mais de 37%. “Em Minas, o número é mais modesto. Ou seja, do total de 21.516 unidades vendidas, 6.604 são do programa (menos de 31%) e os lançamentos e ofertas também ficam no patamar de 30%. Ou seja, enquanto no Brasil quase 50% de vendas e lançamentos estão na casa de 50% do Minha Casa Minha Vida, Minas Gerais está na faixa de 30%”.
. Em Belo Horizonte, enfatiza a economista, este número é “praticamente inexistente”. Ela aponta que “das 7.545 unidades vendidas na capital e em Nova Lima, somente 426 unidades foram do padrão econômico, ou seja, 5,65%. Isso naturalmente tem a ver com a legislação urbana restritiva. E este número modesto não significa ausência de demanda, mas ausência de oferta em função de uma legislação que impede o avanço para este tipo de construção de padrão econômico. Belo Horizonte está expulsando as pessoas para outras cidades da Região Metropolitana”, alerta Ieda Vasconcelos.
Recorde FGTS – Bilhões do orçamento
Para o presidente do Sinduscon, estes números trazem vergonha para o setor, já que a necessidade existe. “Falta ação e modernizar a legislação. Temos de trazer o Minha Casa Minha Vida para Belo Horizonte. Em 2026, vale registrar que será recorde de orçamento do FGTS para o programa, falamos em R$ 142 bilhões, volume que nunca foi aplicado em habitação de interesse social. A pergunta do setor é: qual será a participação de Minas Gerais neste bolo de recursos que são gerados pelos trabalhadores? Este recurso traz emprego, movimentação do mercado, da cadeia, organização de espaços públicos e investir em um dinheiro que é do trabalhador mineiro em Minas. Precisamos dar uma resposta e trazer este recurso para o estado”, reforça Raphael Lafetá.
. Estoque baixo
Ieda Vasconcelos afirma que, de forma geral, o ano de 2025 mostrou resultados expressivos em lançamentos e vendas em BH e Nova Lima, apesar da queda em relação a 2024, que foi de recorde. “Lançamentos acima de 7 mil unidades em um cenário restritivo em relação à taxa de juros mostra a resiliência do mercado imobiliário. No entanto, a nossa oferta, nosso estoque de unidades, de 4.484 unidades em Belo Horizonte e Nova Lima, é tão baixo que, se considerarmos a ausência de lançamentos nos próximos meses, este estoque se esgota em apenas sete meses. Considerando a média de unidades vendidas, se não tiver lançamentos, em sete meses BH não teria mais nenhuma unidade para vender”. O número de unidades disponíveis para comercialização em BH e Nova Lima, em dezembro de 2025 era 4.484. Número próximo ao observado em Uberlândia (4.434) e inferior a cidades como Goiânia (11.771), Curitiba (11.037), Porto Alegre (7.300), Rio de Janeiro (14.404). Recife (6.709) e Salvador 6.080.
“Estes números têm um efeito perverso na questão do acesso à moradia. Se tem oferta menor, os preços sobem e mais que a inflação. É a lei do mercado, oferta e demanda. O número baixo de estoque na cidade traz uma dificuldade de encontrar imóveis para alugar e adquirir. É preocupante para o mercado e como política habitacional também. Daí nossa preocupação para reverter este estoque”, alerta o presidente do Sinduscon-MG.
Raphael Lafetá se diz otimista sabendo que precisa de medidas urgentes para o setor. Ele acredita que o ano eleitoral não vai interferir no mercado e a preocupação central é com a legislação e o Plano Diretor: “Economia é mais forte que a própria política. Quanto ao Plano Diretor vigente, ele traz coeficiente de aproveitamento de uma vez só, o que é uma grande restrição porque o valor da terra fica muito caro, não consegue diluir nas unidades construídas; a outorga por si só também é restritivo, pois já se mostrou ineficiente e inapropriado para o mercado imobiliário, principalmente o social; e a questão de número de vagas, o mercado é soberano em número de vagas e tem de ofertar isso de acordo com a demanda do cliente. Outro ponto é a definição de tamanho mínimo ou máximo de imóveis, que é mais restritivo que a própria norma brasileira para uma habitação confortável, a ABNT NBR 15575. As normativas deveriam adotar as normas já existentes. Além disso, há recuos, afastamento, altimetria. Hoje a altimetria de BH é medida pelo Aeroporto da Pampulha, que é o mais baixo da cidade. E mais restrições de patrimônio, tombamento... Enfim, há muitos pontos para resolver. Teremos a oportunidade de colocá-los em discussão na Conferência das Cidades e amadurecê-los junto à sociedade e diversos outros atores envolvidos.”
. Números de destaque – 2025
- Em 2025, Minas Gerais vendeu 21.516 apartamentos novos. Nesse ano foram lançados 296 empreendimentos com 22.606 unidades. Portanto, os lançamentos ficaram 5,07% superiores às vendas.
- O Valor Global das Vendas (VGV) do mercado imobiliário mineiro foi de R$14,513 bilhões, e o Valor Global dos Lançamentos (VGL) foi de 14,080 bilhões.
- Em 2025 a capital mineira se destacou com as vendas (6.517 unidades) superando os lançamentos (5.721 unidades), o que resultou na queda de 17,2% do número de unidades disponíveis para comercialização.
- Do total de 7.545 unidades vendidas em Belo Horizonte e Nova Lima em 2025 observa-se que 30,6% (2.310 unidades) foram de padrão standard (com valores de R$350 mil até R$700 mil). Também se destacaram os apartamentos de padrão compacto, que foram responsáveis por 27,4% (2.071 unidades) das vendas.
- Cerca de 30% (2.128 unidades) do total de lançamentos em Belo Horizonte e Nova Lima foram de imóveis de padrão compacto. E as vendas de apartamentos de padrão compacto cresceram 54,6%. Enquanto em 2024 foram vendidas 1.340 unidades, em 2025 foram 2.071.
- A Região Sul foi destaque no mercado imobiliário em 2025. Ela foi responsável por 36,9% dos lançamentos e por 32,9% das vendas.
- Em 2025 foram vendidos 7.545 apartamentos novos nas cidades de Belo Horizonte e Nova Lima, o que correspondeu a uma queda de 5,92% em relação ao ano anterior. Apesar desse recuo, foi o segundo melhor resultado da comercialização de imóveis novos da série histórica iniciada em 2016. É necessário ressaltar que a queda nas vendas ocorreu em função da redução dos lançamentos, e que o ano 2024 também foi recorde
- O aumento nos preços de imóveis novos disponíveis para comercialização em Belo Horizonte e Nova Lima estão acima do custo da Construção (CUB/m²) e também da inflação oficial do País, medida pelo IPCA/IBGE
- Na Região Metropolitana (excluída as cidades de Belo Horizonte e Nova Lima) foram vendidos 2.888 apartamentos novos, o que correspondeu a uma queda de 28,76% em relação ao ano anterior.
- A Construção Civil criou, em 2025, 87.878 novos empregos, o que correspondeu a uma queda de 19,53% em relação a 2024.
Construção Civil - O que esperar de 2026
De positivo
- Início do ciclo de queda da taxa de juros.
- Investimentos em obras de infraestruturas devem continuar
- Programa Reforma Casa Brasil
- Orçamento recorde do FGTS para habitação
- Novas contratações PMCMV.
- Novo modelo de crédito habitacional, que pode fortalecer o ânimo do mercado imobiliário
De negativo
- Taxa de juros ainda elevada
- Escassez de mão de obra
- Menor ritmo de crescimento da economia nacional
- Situação fiscal.