Revista Encontro

INTERNACIONAL

Como é a rotina dos bombeiros mineiros em Moçambique

Capitão Kleber Silveira contou à nossa redação como tem sido o trabalho feito no local

Marina Dias
- Foto: CBMG
A equipe de vinte membros do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais que chegou a Moçambique no último dia 1º tem passado por cenários desafiadores no país mais afetado pela passagem do ciclone Idai, em 14 de março. Além dos efeitos do fenômeno natural, a situação precária de grande parte da população também deve ser considerada nos tratamentos de recuperação e ajuda humanitária, pois muitos ainda não têm acesso a itens básicos, como água potável, e não conseguiram retornar ao local onde moravam, tendo perdido tudo.

Em entrevista exclusiva a Encontro, capitão Kleber Silveira, piloto e especialista em gestão de Defesa Civil que está no país africano, explicou que os bombeiros estão baseados no aeroporto do município de Beira, na região central, área mais atingida pelo ciclone. É nessa base que os mineiros montaram suas barracas e guardam equipamentos e material operacional. A partir de lá, vão para outras localidades, onde fazem acampamentos temporários, ou retornam no mesmo dia, se possível.

Segundo o capitão, as principais missões atuais da equipe envolvem liberação de vias ainda obstruídas e recuperação de estruturas, como telhados — por exemplo, telhados de escolas, para retomada das aulas, que estão paradas desde a passagem do Idai. No distrito de Búzi, onde está grande parte dos bombeiros no momento, eles liberaram esta semana uma escola local após trabalhos na estrutura, que estava comprometida. “Em Búzi, que fica a seis horas de distância, a equipe monta acampamento provisório. Lá, ficam em um centro de convenções, uma sala pequena e muito perto de lixeiras e latrinas, então, um local com cheiro ruim e com muitas moscas. Mas não há outra opção”, conta o capitão.
As próximas missões devem ser nos distritos de Dondo (a cerca de 30 km de Beira) ou Nhamatanda (a cerca de 100 km).


O militar conta que o que mais os chocou foi a condição sanitária, e que o trabalho dos envolvidos na recuperação do país pós-desastre também é no sentido de diminuir impactos secundários, como doenças (cólera, malária, diarreia) que aumentam devido à falta de saneamento. “Poucos lugares usam água tratada e muitas casas sequer têm banheiro. Assim, transferir essas pessoas para abrigos temporários lhes garante melhor condição de saúde, alimentação, hidratação, pois isso é oferecido nesses acampamentos”, explica.
 
 
 
Apesar de a obstrução das estradas e problemas no tratamento de água terem afetado grande parcela da população, capitão Kleber Silveira diz que o tamanho do impacto do ciclone depende muito do nível social. “Quem tem casa de alvenaria foi menos afetado, pois tem caixas d´água grandes e consegue contratar um caminhão pipa para se abastecer”, explica. “Mas a classe pobre e a classe miserável, mesmo quem vive no entorno da cidade, mora em ocas feitas de madeira e barro, e teto de piaçava. Se usava poços artesianos, por exemplo, estes foram contaminados e não podem ser usados. Não há água potável para todos”, afirma.

Crianças que pedem para tirar fotos com os bombeiros ou que chegam curiosas, querendo saber de seu trabalho, recebem água e barrinhas de cereais. “Damos água e o que temos de comida para elas, pois é gratificante saber que podemos ajudar assim também, com itens que são escassos aqui”, diz. Os bombeiros devem ficar até o dia 16 de abril no país africano.

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