Revista Encontro

ESPECIAL NOVO CORONAVÍRUS

Escolas particulares de BH discutem o futuro da educação

Ensino on-line por causa da Covid-19 mostra que instituições devem ser híbridas pós-pandemia, com aulas virtuais e presenciais

Marina Dias
Pandemia alavancou o investimento em tecnologia e ensino remoto: no futuro, muito do que foi testado na quarentena deve se manter nas propostas das escolas - Foto: Freepik
Alunos de Belo Horizonte, dos pequeninos aos vestibulandos, começaram a semana do dia 15 de março normalmente: frequentando escolas, aglomerando com os colegas no recreio e nos corredores, lanchando juntos, tudo como sempre - no antigo normal. Contudo, na quarta-feira daquela mesma semana, os colégios fecharam as portas como medida de evitar a disseminação do novo coronavírus e os estudantes se viram, todos, dentro de casa. Para aqueles matriculados em escolas particulares, o que de início pode até ter parecido um movimento em direção a férias sem prazo para retorno foi aos poucos se tornando uma nova forma de frequentar a sala de aula: ensino à distância para a educação básica.
 
O período de isolamento social total em BH, ou seja, desde o fechamento de escolas e serviços não essenciais até o início da reabertura gradativa na cidade, em 25 de maio, durou pouco mais de nove semanas. Durante esse tempo de home office, ensino remoto e confinamento - sem precedentes na comunidade escolar - a dinâmica foi de tentativas, experimentações, dificuldades, sucessos, surpresas e coração aberto para o novo, tanto de instituições e professores como de alunos.
 
Afinal, até as escolas mais à frente no quesito tecnologia tiveram pouco tempo para se organizar e planejar a forma como todos os estudantes teriam algum suporte e, eventualmente, aulas regulares, durante a pandemia. Várias semanas depois do baque inicial, muitos colégios já estão estabelecidos em termos de formato desse serviço, o que é positivo, considerando que ainda não se sabe como serão os próximos meses - pode ser que aulas à distância ainda perdurem, mesmo que misturadas com o ensino presencial, por algum tempo. Encontro conversou com cinco escolas da cidade para saber quais lições foram tiradas do período e o que se manterá (ou, pelo menos, deveria se manter) na educação do futuro. Confira:

Presença física e olho no olho continuam essenciais

Rommel Domingos, diretor de ensino do Bernoulli: "O que ficou bem claro para nós é que realmente podemos avançar nesse mundo à distância usando as plataformas digitais" - Foto: Samuel Gê/EncontroA escola física não vai acabar. Se alguém pensou que isso seria uma possibilidade após a experiência totalmente virtual, essa não é a visão dos educadores.
É consenso entre eles que o espaço físico e a presença física dos alunos e profissionais têm papel essencial no processo, e que as aulas 100% remotas no ensino básico ficarão para trás assim que a pandemia permitir. "A escola é lugar de comunidade, a educação é fundida com a necessidade social de troca de ideias, de aprender com o outro, e vai continuar sendo”, afirma a diretora da Escola Americana, Catarina Song Chen. A diretora pedagógica do Coleguium, Alessandra Dias, reforça o papel do ambiente físico. "O convívio em sala de aula é essencial e consideramos que a questão da aprendizagem da criança e do adolescente não se constrói apenas por roteiros e atividades, mas por todo o espaço escolar, bem como pela interação física com colegas e educadores da escola”, explica. 

A tendência será, mais do que nunca, o ensino híbrido

Catarina Song Chen, diretora da Escola Americana: "A escola é lugar de comunidade, a educação é fundida com a necessidade social de troca de ideias, de aprender com o outro, e vai continuar sendo" - Foto: DivulgaçãoNas escolas que implementaram ensino remoto na pandemia, não haverá volta a uma educação sem a presença profunda da tecnologia. "O que ficou bem claro para nós é que realmente podemos avançar nesse mundo à distância usando as plataformas digitais”, afirma Rommel Domingos, diretor de ensino do Bernoulli. Para Aleluia Heringer, diretora do Santo Agostinho Contagem, a pandemia acelerou mudanças que já estavam em curso. "A escola está sofrendo uma mutação. Algumas velhas roupagens não mais servirão, em termos de práticas, métodos, referência”, explica. 
 
As instituições relataram diversas experiências positivas e um sem-fim de possibilidades que o digital oferece. No caso do Coleguium, por exemplo, eles reformularam um projeto focado no Enem por meio do YouTube, o que possibilitou que o conteúdo chegasse a todas as unidades da escola, mas não apenas, pois quaisquer alunos, inclusive de escolas públicas, também podem ter acesso. O Bernoulli está estudando formatos de listas de exercícios aleatórias (em que cada aluno recebe um material diferente do colega), tem tido bom resultado e pensa em manter as monitorias no modo online, bem como a plataforma em que se dá a entrega e correção das redações -  o que permitirá, no futuro, um acompanhamento de todo o trajeto escolar e evolução do aluno na atividade. A variedade de formas de avaliação e de produção por parte dos alunos - podcasts, vídeos, projetos com fotos - também deu um salto na pandemia.

Equilíbrio é o segredo

Alessandra Dias, diretora pedagógica do Coleguium: "A questão da aprendizagem da criança e do adolescente não se constrói apenas por roteiros e atividades, mas por todo o espaço escolar, bem como pela interação física com colegas e educadores" - Foto: DivulgaçãoA maioria dos colégios têm optado por uma mistura de formatos, variando entre conteúdos síncronos e assíncronos ("ao vivo” e gravados). Há um tempo de convívio entre os colegas, de ambiente coletivo, de presença do professor, com horário marcado; e também parte das aulas disponíveis para que o acesso seja feito quando o aluno puder e preferir. Além disso, ressalta Catarina Song Chen, da Escola Americana, a instituição propõe muitas atividades e projetos que sejam feitos offline, para evitar o excesso de tempo gasto na tela.
"Queremos diminuir as horas que os alunos ficam em frente ao computador. Como não há outra opção hoje, eles precisam ficar para os momentos ao vivo. O resto do tempo a gente quer os meninos trabalhando offline. Equilíbrio é importante”, afirma.
Rommel Domingos, do Bernoulli, ressalta que as instituições poderão mesclar bem a melhor utilidade de cada meio. "À escola cabe saber equacionar isso. Para álgebra, por exemplo, talvez seja melhor o ensino presencial: é algo abstrato, tem-se que pensar junto, e estar junto com o professor pode ajudar no raciocínio. No caso da geometria, pode ser que seja melhor ter mais presença do digital, para mostrar o corte de um prisma, um cone”, explica.

Professores: facilitadores remotos

Aleluia Heringer, diretora do Santo Agostinho Contagem: "A escola está sofrendo uma mutação. Algumas velhas roupagens não mais servirão, em termos de práticas, métodos, referência" - Foto: Plan B Comunicação/DivulgaçãoO meio por onde o ensino acontece mudou, e muitas das estratégias que funcionavam na sala de aula física não fazem sentido na educação remota. Por isso, os professores têm tido trabalho a mais para replanejar as aulas de forma a que funcionem no universo online e digital.  Atrair a atenção dos estudantes pode ser mais desafiador, assim como compartilhar os conteúdos, ter o retorno em exercícios, motivação etc. Sem a experiência da pandemia, talvez esses desafios não ficassem tão evidentes. Agora, puderam ser encarados pela equipe de professores, que têm bolado maneiras criativas e inventivas de fazer seu trabalho no contexto da crise.
O ensino híbrido do pós-pandemia ganha com isso.

Maria Luiza Borges, coordenadora pedagógica do ensino fundamental 2 e do ensino médio do Santa Marcelina, ressalta que a presença física e o olho no olho fazem muita falta na prática docente. "Às vezes o professor nota justamente algo que está no plano do não dito pelo aluno”, diz. Por isso, os desafios também têm passado por evitar que o remoto seja sinônimo de distante, frio. "Tem sido trabalho árduo nesse sentido de não perder aspectos que são da relação, da humanidade, da acolhida.” Para Alessandra Dias, do Coleguium, educadores têm se esforçado para se adaptar. "O momento pediu uma ação rápida e o professor não se intimidou”, afirma.

Novos aprendizados para os alunos

Maria Luiza Borges, do Santa Marcelina, diz que os alunos têm se informado mais antes das aulas: "Quando chegam no momento da videoconferência, não estão rasos daquele assunto, têm dúvidas mais elaboradas" - Foto: DivulgaçãoSe ainda não se sabe, de fato, o quanto os alunos têm aprendido do conteúdo disciplinar durante o isolamento, os educadores veem outros aprendizados e experiências valiosos da parte dos estudantes. Eles falam de crianças e jovens mais participativos, responsáveis e descobrindo novas habilidades. Segundo Catarina Song Chen, da Escola Americana, eles estão aprendendo como regular os próprios horários (se fazem a aula toda primeiro e descansam depois, ou se fazem um intervalo no meio, retornam em seguida, etc). "Temos visto uma reflexão sobre o estilo de trabalho que funciona melhor para cada um”, afirma. Maria Luiza Borges, do Santa Marcelina, diz que os alunos têm trabalhado com o material da escola, as referências externas sugeridas, e buscado mais. "Quando chegam no momento da videoconferência, não estão rasos daquele assunto, têm dúvidas mais elaboradas”, diz. Aleluia Heringer, do Santo Agostinho, ressalta que alunos estão aprendendo de um jeito diferente e adquirindo habilidades diferentes, como autonomia, concentração, responsabilidade e organização do tempo.

Para os pequenos, educação ainda é sinônimo de aulas presenciais

De maneira geral, a experiência das instituições indica que o ensino infantil é o mais difícil - muitos dizem até impossível - de ser transposto para o digital. Por isso, algumas escolas até têm proposto brincadeiras, rodas virtuais e atividades, mas sem a regularidade ou objetivo do ensino que existe para os mais velhos. A ideia é tentar manter o vínculo e orientar os pais com sugestões do que fazer em casa à luz do que o colégio propunha no ambiente físico, mas sem intenção de cumprir currículo. O ensino fundamental, especialmente anos iniciais, também tem sido apontado como uma etapa difícil de abordar, de forma sistemática, pela via remota. "Quanto menor o estudante, menos a aula a distância se mostra eficaz. Somos seres sociais. Gostamos e precisamos do outro para nos constituirmos como sujeitos”, diz Aleluia Heringer. 

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