Revista Encontro

ENTREVISTA

Dez perguntas para o presidente da Fundação de Arte de Ouro Preto

O ator, professor e jornalista Jefferson da Fonseca decidiu descentralizar os saberes acumulados pela instituição ao longo das últimas cinco décadas

Iêva Tatiana
- Foto: Pádua de Carvalho/Encontro
Fundada em 1968, a Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), unidade da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), vem extrapolando os limites da cidade histórica da região Central de Minas Gerais para fazer história em todos os cantos do estado. A proposta de ampliar o alcance da instituição e, em contrapartida, permutar conhecimento, teve início com a gestão do atual presidente, Jefferson da Fonseca. Diante da pluralidade cultural típica do território mineiro, o ator, professor e jornalista decidiu descentralizar os saberes acumulados pela Faop ao longo das últimas cinco décadas e potencializar a cultura mineira como um todo. Mais do que marcar presença em outros municípios, a fundação está criando novas raízes com a instalação de sedes próprias em Paracatu, no Noroeste mineiro, e em Guaxupé, no Sul do Estado. Nesta entrevista Jefferson conta como tem sido a colheita dessa proposta, que vem sendo semeada desde 2021 e já rende bons frutos.

1) Há cerca de dois anos a Faop está levando suas ações para outras cidades do estado. Como surgiu essa proposta?

Havia muitos conhecimentos na nossa fundação que mereciam ser compartilhados, assim como existem muitas vocações e saberes em outros territórios que podem ser desbravados. Considerando-se a possibilidade de essa pluralidade de artes e ofícios ser explorada, entendemos que poderíamos otimizar cada centavo de recurso público, por meio do nosso trabalho e do nosso pessoal, para dar uma atenção maior a todos os mineiros. Temos trabalhado muito nesse entendimento de que é possível não apenas levar o que foi aprendido durante mais de 50 anos em Ouro Preto, mas também nos apropriarmos de outros saberes.

2) Que ações a Faop está levando para outras cidades?

Desde o ano passado, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult) tem promovido encontros regulares com gestores municipais dessas áreas.
A partir do interesse dos agentes públicos e da nossa força de trabalho, construímos uma pauta de visitas técnicas. Temos ido a muitos municípios, mas também temos recebido diversos representantes de vários municípios em Ouro Preto.

3) Por quantas cidades a Faop já passou depois dessa descentralização de serviços?

Alcançamos 55 cidades que, de algum modo, foram acessadas pela nossa fundação e vice-versa. Nessas localidades, tratamos acervos, realizamos visitas técnicas, levamos nossas oficinas. Na região Central, por exemplo, estivemos em 12 municípios com oficinas de restauro e conservação. Em 2023, estaremos no Vale do Jequitinhonha a partir de Conceição do Mato Dentro para os desdobramentos das visitas que realizamos no ano passado. Vamos passar por novas cidades também, vizinhas às que já estamos. Em fevereiro, chegaremos à região metropolitana de Belo Horizonte a partir de Santa Luzia.

4) O que é o Circuito Faop?

Como sempre estivemos em Ouro Preto, a ideia era levar a Faop ao maior número possível de municípios. O circuito é a circulação do conjunto de saberes acumulados ao longo de mais de 50 anos de existência da fundação. É um circuito de ações formativas, de promoção pelo patrimônio histórico e artístico de Minas Gerais. A proposta é fazer com que a fundação saia do seu território de origem para ressignificar os múltiplos saberes de todas as regiões mineiras.

5) Em 2021, a Faop inaugurou a sua primeira sede fora de Ouro Preto, em Paracatu. Quais atividades são desenvolvidas ali?

Nosso trabalho vem se modificando e se consolidando a partir da relação com a comunidade: há 11 quilombolas lá e isso nos traz para mais perto da mineiridade. Estamos no interior, nas comunidades, sendo afetados de modo muito positivo. A cidade tem sido uma escola para a fundação.
Entendemos as forças individuais e a força do coletivo, identificamos artistas locais e estamos promovendo a arte deles por meio de exposições, trabalhos de formação e de promoção dos valores locais. Em um intercâmbio, os artistas de Paracatu também frequentam a nossa fundação em Ouro Preto.

6) Existem propostas de abrir sedes em outras cidades?

Estamos trabalhando na nova sede em Guaxupé. Na medida em que a gente firma um termo de cooperação técnica com os municípios, passamos a atuar em espaços pertencentes e cedidos pelas prefeituras.

7) Quais os planos para Belo Horizonte?

Na capital, temos um termo de cooperação com o Centro de Arte Popular, na rua Gonçalves Dias. Vamos potencializar o nosso trabalho em BH, mas a proposta também vai potencializar o interior. A ideia é identificamos forças e trazê-las para que a capital a conheça ainda mais. Os belo-horizontinos têm que conhecer a riqueza do nosso Estado. Esperamos, a partir de março, dar início a uma exposição no Centro de Arte Popular, que deverá ser um espaço que valoriza a arte de toda Minas Gerais.

8) Qual era o orçamento da fundação quando você assumiu e qual é o deste ano?

Atualmente, é de 4 milhões de reais para manutenção, pessoal, ações de promoção e a escola. Somam-se a isso os valores que estão sendo fechados com os municípios. O orçamento da fundação é específico, e as ações nos municípios são cobertas por eles. Portanto, com a expansão para outras cidades, dobramos a nossa capacidade sem alterarmos orçamento do Estado.
Utilizando recursos privados e públicos dos municípios, estamos falando da ordem de 8 ou 9 milhões de reais.

9) Todos os anos Ouro Preto sofre com as chuvas. O caso mais grave foi o desmoronamento, no início de 2022, de um morro que destruiu um casarão do século XIX. O que está sendo feito para evitar outras tragédias como essa?

Os desastres naturais existem, e nós lamentamos profundamente a perda de cada equipamento, unidade e casarão. O governo do Estado tem ações pontuais nessa defesa, como o edital Calhas e Telhados, lançado em 2022. Temos encontrado prefeitos e secretários muito atentos a essa questão do cuidado com o patrimônio. Tenho acompanhado todas as ações de responsabilidade que a Secult tem tomado, a publicação de editais para o patrimônio, a presença do Iepha . Tenho muito orgulho desse grupo, dessa equipe à qual me juntei em 2021, formada por técnicos muito capacitados.

10) Você é ator, professor e jornalista. Como a sua formação ajuda no trabalho na presidência da fundação?

Venho de uma família muito humilde: sou filho de sapateiro com cabeleireira da região Leste de Belo Horizonte. A arte me salvou, me deu tudo o que eu tenho, e eu aprendi cedo que ninguém a escolhe, ela tem os seus escolhidos, não tolera desaforo, e define se você vai estar em cena como protagonista ou se vai ser um agente técnico que vai ajudar outras pessoas a terem o seu lugar. Nesse momento, eu sou um artista de bastidor. Quem passa pela arte e não tem uma visão melhor do mundo, do outro ou de si mesmo não entendeu o que a arte quis dizer. É muito bom poder trazer a minha experiência de 30 anos de carreira no cinema, no teatro e no jornalismo. Hoje, vivo a soma dos meus conhecimentos e o que eu tenho tentado oferecer de melhor na Faop é a escuta que a arte e o jornalismo me deram.
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