Por lá, com ares que soam agora proféticos, os murais do CURA encheram de cor o Edifício Novo Rio, em 2019, como se anunciassem que algo estava mudando. Na lateral do mesmo prédio, o artista Zé D. Nilson dava a letra em um chamado à ação: “Vida à Lagoinha”, escreveu. A poucas quadras dali, instalado na rua além da Antônio Carlos, o Órbi ICT parece ecoar esse chamado, começando a transformar o desejo ali manifesto em estratégia.
. Criado por MRV, Inter e Localiza, e, hoje, reconhecido como um dos hubs de inovação mais dinâmicos do país, o Órbi vive uma fase de reposicionamento ousada: tornar a Lagoinha um polo de tecnologia, educação e economia criativa. À frente desse movimento está o advogado e empreendedor Christiano Xavier, que assumiu a direção do instituto neste 2025 com a meta explícita de combinar impacto social, inovação em larga escala e respeito às potências culturais do território.
. - QUEM É: Christiano Xavier
- ORIGEM: Itabira, radicado em Belo Horizonte
- CARREIRA E FORMAÇÃO: Empreendedor, investidor, sócio e CEO do Órbi ICT; sócio-fundador da edtech Future Law, da agência LSD (Legal Sensory Design), do Hub e Comunidade Inverso e da Blue Tape, empresa de tecnologia e IA; atuou por 10 anos como executivo da Localiza e passou por grandes escritórios de advocacia no Brasil e no exterior; mestre em Direito dos Negócios pela FGV, especialista em Finanças e em Direito Tributário; reconhecido pelo prêmio Corporate Ninja, concedido pelo Cubo, por auxiliar startups na conexão com grandes organizações; liderou mais de 400 projetos de inovação em empresas e escritórios; capoeirista, batuqueiro de maracatu e apaixonado por artes, design, arquitetura e cultura popular brasileira.
O plano – batizado de Montanha Digital – é ambicioso, integrado e plural. Ele prevê desde a atração de startups e empresas de tecnologia até a criação de uma governança territorial robusta, passando por formações em inteligência artificial, laboratórios de inovação, articulação com universidades, editais públicos e parcerias com organizações comunitárias como a CUFA (Central Única das Favelas) e o Viva Lagoinha. A ideia é construir um ecossistema enraizado na realidade local, onde a tecnologia sirva de ferramenta e não de imposição, e onde a população tenha protagonismo e voz.
. Para Xavier, CEO e advogado que gosta de se apresentar também como capoeirista, inovação só faz sentido se gerar pertencimento. Ele fala de inclusão produtiva, de acesso real à qualificação, de oportunidades que não expulsem ninguém. “Não adianta querermos transformar o mundo sem olhar primeiro para nós mesmos”, resume. É dessa equação – entre tradição e futuro, vulnerabilidade e potência, memória e experimentação – que nasce a tentativa de reposicionar a Lagoinha como a morada de uma nova identidade: a de uma montanha digital construída a partir da cultura, da escuta e da criatividade mineira.
. Neste ano, aliás, a entidade liderada por ele deu um novo e importante passo rumo a seus objetivos ao ganhar um novo status, sendo reconhecida como Instituição de Ciência, Tecnologia e Inovação. A denominação favorece o trabalho de um tipo de organização sem fins lucrativos que faz pesquisa científica, gera conhecimento e desenvolve soluções tecnológicas, atuando como ponte entre a academia e o mercado para impulsionar a inovação e o desenvolvimento econômico – tudo a ver com os planos do Órbi, que estão para lá de sintonizados com os rumos que Belo Horizonte vem trilhando nos últimos anos.
. Para se ter uma ideia, a capital mineira alcançou em 2025 o posto de quarto ecossistema de tecnologia que mais cresce no mundo. Somando um total de 458,20 pontos no novo relatório do Global Tech Ecosystem Index 2025 da Dealroom.co, a cidade aparece como um destaque global em tecnologia e inovação ao lado de lugares como Lagos, Istambul, Pune e Mumbai. Na América Latina, BH aparece como primeiro ecossistema de tecnologia da América Latina na categoria “Rising Stars” (Estrelas em Ascensão).
. O relatório Global Tech Ecosystem Index 2025 leva em consideração, para medir os ecossistemas de inovação e tecnologia com crescimento mais acelerado no mundo, fatores como o crescimento no valor de mercado das empresas, o volume de startups em expansão, a criação de empresas unicórnios, a maturidade de fundos de investimento locais e o aumento de atração de capital internacional.
. Nesta conversa com a Encontro, o gestor do Órbi ICT apresenta um panorama da Montanha Digital, o sonho grande deste itabirano apaixonado pela Lagoinha, que, alinhado aos horizontes da capital de Minas, vê na tecnologia um caminho para o desenvolvimento social.
. Para começar, quem é Christiano Xavier – e o que é hoje o Órbi ICT ?
Sou capoeirista, advogado, empreendedor e investidor. Neste ano, eu assumi como CEO do Órbi, um hub de inovação e impacto criado há sete anos pelas empresas MRV, Inter e Localiza. O Órbi é mais do que um espaço físico: é um ecossistema que conecta empresas, startups, governos e universidades, reunindo pessoas “fora da curva”. Atuamos em tendências, em dores reais do mercado e da educação, desenvolvendo soluções tecnológicas, formação em IA (inteligência artificial), laboratórios e impacto social. Recentemente, ampliamos nossa natureza jurídica: além de associação, somos agora um Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) e também uma empresa, para gerar inovação profunda, valor social e retorno para investidores e patrocinadores.
. E qual é sua relação com Belo Horizonte e com a Lagoinha?
Tenho uma relação de amor com BH. Sou itabirano, mas vim para cá jovem: fiz amigos, me casei, tive filhos, vivi a cultura da cidade – teatro, dança, circo, bares, shows no Viaduto Santa Tereza, Obra, Brasil 41, Bolão, Mineirão. Fiz capoeira por duas décadas, e isso moldou minha visão de mundo. A Lagoinha, por sua vez, é uma oportunidade. É berço de Belo Horizonte, tem patrimônio, tradições, riqueza cultural e uma vocação enorme. A inovação precisa acontecer onde há necessidade, e esse território diverso tem grande potencial de transformação. Com as parcerias certas, teremos muitas histórias para contar juntos.
. Existe um projeto concreto para transformar a Lagoinha em um polo de tecnologia e economia criativa?
Sim. É o nosso sonho grande: a Montanha Digital. Construímos um plano de transformação territorial em parceria com Fundação Dom Cabral, Tropos Lab, DTG, Janayna Bhering e com ampla escuta de atores como Viva Lagoinha, Direito na Favela, CUFA-MG, founders da nossa rede de startups e mineiros que hoje atuam em São Paulo. Queremos que a Lagoinha se torne um polo de tecnologia, educação e economia criativa, integrando inovação, cultura e impacto social. Já somos um ICT voltado ao desenvolvimento de soluções em IA, automação e tecnologias emergentes, o que permite captar recursos e realizar projetos com empresas, como no edital Compete Minas 008/2025. Também estamos reposicionando o Órbi Academy, nossa escola de metodologias ativas, que já inicia com um curso tailor made (personalizado) de IA para executivos e educadores. A proposta é transformar a região em um laboratório urbano vivo, onde arte, cultura e tecnologia caminham juntas – e onde quem vive ali tenha oportunidades reais. Não adianta idealizar mudar o mundo sem olhar primeiro para nós mesmos.
. Por que a Lagoinha foi escolhida para sediar um projeto desse porte?
Porque reúne fatores estratégicos e simbólicos. É uma região central, bem conectada, mas historicamente marcada por desigualdades e desvalorização econômica – justamente onde projetos de desenvolvimento com inclusão fazem sentido. Também é um território de forte expressão cultural. É berço do Congado, de artistas fundamentais para BH e de uma memória que compõe a identidade da cidade. Criatividade e inovação caminham juntas; valorizar a Lagoinha é valorizar o que BH é. Queremos aproveitar esse capital social e cultural para criar um modelo de desenvolvimento à altura de uma cidade realmente criativa. Acreditamos que inovação e tecnologia podem requalificar territórios e gerar oportunidades onde elas são mais urgentes – sempre com a nossa identidade: prosa boa, relações profundas e construção de valor.
. O Porto Digital (um dos maiores e mais importantes parques tecnológicos e ambientes de inovação do Brasil, localizado no Recife Antigo, em Pernambuco) costuma aparecer como referência. O que vocês aprendem com ele – e o que precisa ser diferente aqui?
O Porto Digital é uma inspiração pela capacidade de transformar um centro histórico em um ambiente de inovação, com geração de emprego e governança robusta. O principal aprendizado é a articulação entre poder público, setor privado, academia e sociedade civil, com metas claras e visão de longo prazo. Mas a realidade da Lagoinha é diferente. Lá, eles partiram de uma área portuária com maior densidade empresarial. Aqui, começamos em um território mais vulnerável e diverso. Isso exige estratégias de base: escuta, inclusão de lideranças comunitárias, formações acessíveis e diálogo contínuo. O desafio central é garantir que o desenvolvimento não desloque quem já vive ali, mas gere capacitação, oportunidades e novas possibilidades para a população local.
. Quais atores já estão envolvidos e como o Órbi pretende articular todo esse conjunto?
Temos empresas fundadoras e patrocinadoras, startups, organizações como a CUFA e articulação com a Fundação Dom Cabral, entre outros. Também dialogamos com Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) e com secretarias estadual e municipal de desenvolvimento econômico. A estratégia do Órbi é atuar como conector, não como protagonista. Queremos alinhar interesses do setor privado com políticas públicas, integrar universidades à solução de problemas reais e abrir espaço para participação ativa da comunidade. Estamos estruturando governança com comitês temáticos e fóruns de escuta. O objetivo é construir uma visão compartilhada de futuro para a Lagoinha – e envolver quem vive e atua no território, em vez de impor um projeto de fora para dentro.
. Em que fase o projeto está? Quais são os próximos passos?
Estamos em fase de ativação. Concluímos o planejamento estratégico com a Fundação Dom Cabral, estruturamos o ICT e iniciamos o Órbi Academy com cursos de IA para executivos. Temos startups crescendo e empresas procurando o Órbi. Nosso espaço, modéstia à parte, é lindo e cabe muita gente. Os próximos passos incluem ampliar o engajamento de atores públicos e privados, formalizar parcerias com instituições de ensino e atrair investimentos para infraestrutura e programas de desenvolvimento local. No curto prazo, queremos gerar acesso à qualificação, atrair eventos, aproximar empresas e criar oportunidades de conexão entre talentos locais e o mercado. No longo prazo, buscamos consolidar a Lagoinha como um polo de tecnologia e economia criativa integrado ao ecossistema mineiro. Queremos promover a inclusão produtiva, fortalecer a economia do conhecimento e posicionar BH como referência em desenvolvimento tecnológico com identidade cultural. Quanto mais instituições se unirem ao nosso propósito, mais avanços virão.