A seguir, revisitamos oito clássicos que ajudam a contar a história gastronômica de BH.
Bar do Orlando — Fundado em 1919
Consagrado com o bar mais antigo de BH, o Bar do Orlando é Patrimônio Histórico e Cultural de Belo Horizonte. Com mais de um século, já funcionou como venda de artigos para pescaria e, hoje, é endereço obrigatório para os apaixonados pelo verbo botecar. Localizado na esquina de uma rua sem saída, no bairro mais boêmio da cidade, Santa Tereza, o Bar do Orlando já atendeu pelo nome de Bar dos Pescadores. Isso porque pela região corria o rio Arrudas e era ponto de encontro de pescadores que, além de comprar anzóis, iscas e varas, usavam o bar para preparar os peixes recém-pescados. Com a urbanização, poluição e canalização do rio, a pescaria perdeu a importância. Foi hora de se adaptar, permanecendo um espaço de convivência dos moradores e frequentadores do bairro.
. Orlando, o atual dono, cresceu nesse ambiente. Em 1980, comprou o bar do seu tio Pedro e, logo, a turma passou a chamar o espaço com o nome do novo proprietário. O Bar do Orlando atrai gente de tudo quanto é jeito. “São 106 anos e desde a década de 1970 na nossa família. A gente tem a responsabilidade de preservar a história”, diz Orlando Júnior, o Orlandinho, que atualmente toma conta do balcão.
. A tradição está impregnada no ambiente, desde as prateleiras que mantém objetos antigos e artigos divertidos como rolos de papel higiênico, até a estufa, local onde bate o coração de um verdadeiro boteco. O Torresmão é o prato mais famoso, assim como o Trio Roça (torresmo de barriga, linguiça e mandioca frita). Sob uma árvore, as mesas espalhadas pela calçada abrigam velhas e novas gerações.
. Cantina do Lucas — 1962
O restaurante está instalado onde um dia funcionou o extinto bar do Grande Hotel, onde se hospedaram as grandes personalidades que visitaram BH na primeira metade do século XX. Aglutinador cultural e boêmio, por ali aconteceram muitas reuniões políticas, intelectuais e saraus literários. Seguindo essa mesma vocação, em fevereiro de 1962, nasce a Cantina de Lucas, primeiro batizada como Chopplândia e, um ano depois, Trattoria di Saatore. Em 1983, o restauranter Antônio Edmar Roque adquire o estabelecimento e o administra até 2017, quando sua filha Maria Leonor Roque se torna proprietária. “Desde o início, a Cantina caiu no gosto do belo-horizontino e, em especial de quem produz cultura. Não só pela comida farta, mas também por ter criado um espaço plural, onde os frequentadores encontram um ambiente acolhedor e cordial”, explica Maria Leonor.
. O espaço atravessou ditadura, noites universitárias, movimentos culturais e transformações urbanas. Durante mais de meio século, mantém seu cardápio emblemático, marcado pelo filé à parmegiana servida com purê de batata e arroz branco e pelo atendimento que parece saído de outra época. Frequentada por jornalistas, artistas, intelectuais e personagens noturnos, a Cantina de Lucas segue como um dos símbolos do espírito democrático do Maletta.
. Tip Top — 1929
O cardápio preserva a origem alemã, mas incorpora pontualmente influências mineiras. Entre os destaques, estão a tradicional salada de batata, o rosbife artesanal, o famoso joelho de porco (schnitzel) e, claro, chope gelado – símbolo do restaurante ao longo dos anos. Muitos dos funcionários fizeram carreira ali, o que contribui para a continuidade da experiência oferecida, já que a equipe conhece de perto a história da casa e os clientes pelo nome. É o tipo de lugar em que pais levam filhos para repetir o ritual do passado, com pratos simples, bem servidos e carregados de memória. Um retrato vivo da BH anterior aos grandes centros comerciais.
. Xodó — 1962
Durante 63 anos instalado no mesmo local, na Praça da Liberdade, em maio de 2025, ele precisou mudar de endereço. O novo Xodó fica ali pertinho, a menos de 500 metros, na Rua Alagoas. A relocação foi motivada por uma inviabilidade financeira. Segundo Juliana, os custos de manutenção e o aluguel ficaram muito altos. O cardápio, no entanto, continua o mesmo e clássicos como o beirute de rosbife, montado no pão árabe, queijo muçarela, presunto, alface, tomate e orégano; e a banana split, com três bolas de sorvete (morango, creme e chocolate), banana, marshmallow, biju, castanha de caju e calda de morango e chocolate. O milkshake de Ovomaltine tem uma legião de fãs, assim como o sundae de abacaxi.
. Casa dos Contos — 1975
Com seu salão de madeira, paredes repletas de fotografias e quadros de artistas locais que podem ser adquiridos pelos clientes, o restaurante oferece um cardápio gigantesco, com mais de 60 opções de pratos, que vão de Bacalhau à Lagareira à Costelinha à mineira. O mais pedido é o Filé Surprise, filé recheado com presunto e muçarela, arroz à piemontese, batata frita, ovos fritos e banana à milanesa.
. Maria das Tranças — 1958
Dona Maria era uma mulher de fibra e viu no restaurante a chance de sustentar a família. Era ela mesma que fazia as compras, administrava as contas e comandava a cozinha. Nos primeiros anos, a experiência era única: o cliente ia até o quintal para escolher o frango que seria abatido na hora. Enquanto esperava o preparo, aguardava na companhia de uma boa cachaça, rapa de angu e alguns dedos de prosa. Com o tempo, o restaurante mudou de nome em homenagem às tranças que a fundadora usava diariamente. “A casa cresceu, mas a essência continua a mesma, os pratos continuam sendo preparados com a receita original”, diz Ricardo Rodrigues, neto de Maria Clara, e que hoje vê suas filhas, Ana Luiza e Maria Clara, no comando do negócio. É a quarta geração que faz com que a casa, com 75 anos de idade, continue sendo referência quando o assunto é molho pardo.
. Café Nice — 1939
“Os clientes estão gostando, não vi nenhum reclamar. Foi uma reforma bonita, sem grandes mudanças, mas que deu uma vida nova ao Café Nice. Tem gente que estava afastada do Centro e está vindo aqui para matar a saudade”, explica Renato. Entre as novidades, instalação de bancos, onde a turma pode se sentar para tomar o famoso cafezinho com pão de queijo, clássico mais pedido da casa. A turma chega aqui e sempre fala: “Esse é o verdadeiro pão de queijo de Minas”, afirma o proprietário.
. Inaugurado em 1939, o Café Nice tornou-se um ponto de encontro para intelectuais, políticos e artistas da cidade. Por ali passaram personalidades que se debruçavam sobre o balcão para tomar um café coado no filtro de pano na hora. As fotos antigas penduradas nas paredes evidenciam a história de um dos endereços mais queridos pelos belo-horizontinos. E quando estiver por lá, peça o creme de maisena com ameixa. Um clássico que atravessa décadas.
. Sorveteria Universal – 1928
Desde a sua criação, a Universal aposta em ingredientes frescos, naturais e um modo de produção fiel às origens italianas. São mais de 50 sabores. Entre os mais procurados estão o de doce de leite e baunilha com caramelo salgado e pedaços de chocolate. O queimadinho (coco queimado) é uma receita de família e é preparado exatamente como na época da inauguração. Alguns maquinários antigos ainda são usados. “Fazemos exatamente como aprendemos, com leite fresco, fruta de verdade, panela no fogo e tempo. Porque sabor não se apressa”, afirma Aline.