Revista Encontro

Gastronomia

Conheça oito estabelecimentos em BH que ostentam décadas de servir bem

Entre botecos, restaurantes e sorveterias históricas, espaços atravessam gerações preservando receitas e afetos que moldam a memória gastronômica da cidade

Carolina Daher
Bar do Orlando é o mais antigo de BH - Foto: Geraldo Goulard
Em Belo Horizonte, tradição não é palavra de vitrine, é prática cotidiana. A capital mineira é feita de encontros: na mesa, no balcão, no boteco, no cafezinho que se estende a perder a hora. Com o cenário aquecido e novos estabelecimentos surgindo a cada ano, alguns endereços se mantêm firmes, resistindo às modernidades e assumindo o papel de guardiões da memória. São restaurantes, bares, lanchonetes e sorveterias que ultrapassam meio século de atividade — e seguem vivos, pulsantes, amados. O que une esses lugares não é apenas o tempo, é o afeto. Cada um deles guarda discussões políticas, viradas de madrugada, celebrações e despedidas. São parte da cultura viva da cidade.
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A seguir, revisitamos oito clássicos que ajudam a contar a história gastronômica de BH.

Bar do Orlando — Fundado em 1919

Consagrado com o bar mais antigo de BH, o Bar do Orlando é Patrimônio Histórico e Cultural de Belo Horizonte. Com mais de um século, já funcionou como venda de artigos para pescaria e, hoje, é endereço obrigatório para os apaixonados pelo verbo botecar. Localizado na esquina de uma rua sem saída, no bairro mais boêmio da cidade, Santa Tereza, o Bar do Orlando já atendeu pelo nome de Bar dos Pescadores. Isso porque pela região corria o rio Arrudas e era ponto de encontro de pescadores que, além de comprar anzóis, iscas e varas, usavam o bar para preparar os peixes recém-pescados. Com a urbanização, poluição e canalização do rio, a pescaria perdeu a importância. Foi hora de se adaptar, permanecendo um espaço de convivência dos moradores e frequentadores do bairro. 
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Orlando, o atual dono, cresceu nesse ambiente. Em 1980, comprou o bar do seu tio Pedro e, logo, a turma passou a chamar o espaço com o nome do novo proprietário. O Bar do Orlando atrai gente de tudo quanto é jeito. “São 106 anos e desde a década de 1970 na nossa família. A gente tem a responsabilidade de preservar a história”, diz Orlando Júnior, o Orlandinho, que atualmente toma conta do balcão.
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A tradição está impregnada no ambiente, desde as prateleiras que mantém objetos antigos e artigos divertidos como rolos de papel higiênico, até a estufa, local onde bate o coração de um verdadeiro boteco. O Torresmão é o prato mais famoso, assim como o Trio Roça (torresmo de barriga, linguiça e mandioca frita). Sob uma árvore, as mesas espalhadas pela calçada abrigam velhas e novas gerações. 
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Cantina do Lucas — 1962

Durante mais de meio século, a Cantina do Lucas mantém seu cardápio emblemático - Foto: DivulgaçãoNo livro Histórias da Rua Bahia e da Cantina de Lucas, o músico Fernando Brant dá o seguinte depoimento: “É um refúgio para quem gosta da noite e de uma conversa inteligente. Diria mais, é o bar de todos os mineiros, estejam eles na província ou em qualquer outro lugar do planeta. Um lugar de aconchego para os mineiros universais.” Localizado no icônico Edifício Maletta, lugar da primeira escada rolante da capital, a Cantina do Lucas é Patrimônio Cultural municipal desde 1997. 
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O restaurante está instalado onde um dia funcionou o extinto bar do Grande Hotel, onde se hospedaram as grandes personalidades que visitaram BH na primeira metade do século XX. Aglutinador cultural e boêmio, por ali aconteceram muitas reuniões políticas, intelectuais e saraus literários. Seguindo essa mesma vocação, em fevereiro de 1962, nasce a Cantina de Lucas, primeiro batizada como Chopplândia e, um ano depois, Trattoria di Saatore. Em 1983, o restauranter Antônio Edmar Roque adquire o estabelecimento e o administra até 2017, quando sua filha Maria Leonor Roque se torna proprietária. “Desde o início, a Cantina caiu no gosto do belo-horizontino e, em especial de quem produz cultura. Não só pela comida farta, mas também por ter criado um espaço plural, onde os frequentadores encontram um ambiente acolhedor e cordial”, explica Maria Leonor. 
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O espaço atravessou ditadura, noites universitárias, movimentos culturais e transformações urbanas. Durante mais de meio século, mantém seu cardápio emblemático, marcado pelo filé à parmegiana servida com purê de batata e arroz branco e pelo atendimento que parece saído de outra época. Frequentada por jornalistas, artistas, intelectuais e personagens noturnos, a Cantina de Lucas segue como um dos símbolos do espírito democrático do Maletta.
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Tip Top — 1929 

Fundado em 1929 pela tcheca Paula Hven, o Tip Top rapidamente se tornou um marco gastronômico na capital - Foto: Victor Schwaner/DivulgaçãoPoucos são os restaurantes que podem dizer que viram a cidade mudar em quase um século de vida. Fundado em 1929 pela tcheca Paula Hven, o Tip Top rapidamente se tornou um marco gastronômico na capital. Foi o primeiro a apresentar aos moradores a culinária alemã, trazendo embutidos, chocolates, vinhos e outros insumos raros naquela época. A trajetória do restaurante se entrelaça com a própria história da capital. Após um período no bairro Floresta, a casa se estabeleceu na Rua Espírito Santo. Na década de 1970, mudou-se para Lourdes, onde permaneceu por anos até ser adquirida, nos anos 1980, pelo empresário Luiz Otávio, então dono da cervejaria Kaiser. Já no início dos anos 2000, percebeu-se a necessidade de modernização e, em 2013, sob nova administração, iniciou um processo de transformação, culminando em 2024, com um novo endereço na Savassi. “Sempre tivemos um público fiel, então qualquer mudança precisava respeitar a tradição. Nossa intenção nunca foi alterar a alma da casa, mas criar um ambiente onde tanto os clientes antigos quanto as novas gerações se sentissem a vontade”, explica a proprietária Ludmilla Carneiro. 
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O cardápio preserva a origem alemã, mas incorpora pontualmente influências mineiras. Entre os destaques, estão a tradicional salada de batata, o rosbife artesanal, o famoso joelho de porco (schnitzel) e, claro, chope gelado – símbolo do restaurante ao longo dos anos. Muitos dos funcionários fizeram carreira ali, o que contribui para a continuidade da experiência oferecida, já que a equipe conhece de perto a história da casa e os clientes pelo nome. É o tipo de lugar em que pais levam filhos para repetir o ritual do passado, com pratos simples, bem servidos e carregados de memória. Um retrato vivo da BH anterior aos grandes centros comerciais.
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Xodó — 1962

Xodó foi a primeira hamburgueria de Minas Gerais - Foto: Geraldo Goulart Neto/DivulgaçãoÉ a primeira hamburgueria de Minas Gerais. Nascida em 1962, rapidamente se tornou um dos principais pontos de encontro da cidade, tanto para a turma mais jovem, ávida pela novidade do fast-food em estilo norte-americano, quanto para famílias inteiras. Criado com a proposta de oferecer sanduíches e sobremesas, o Xodó atravessou gerações mantendo a essência “de um lugar que mistura afeto, boas lembranças e comida feita com carinho”, diz Juliana Motti, que em 2019, junto com outras duas sócias, assumiu o negócio com o desafio de preservar a tradição e, ao mesmo tempo, modernizar a operação. 
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Durante 63 anos instalado no mesmo local, na Praça da Liberdade, em maio de 2025, ele precisou mudar de endereço. O novo Xodó fica ali pertinho, a menos de 500 metros, na Rua Alagoas. A relocação foi motivada por uma inviabilidade financeira. Segundo Juliana, os custos de manutenção e o aluguel ficaram muito altos. O cardápio, no entanto, continua o mesmo e clássicos como o beirute de rosbife, montado no pão árabe, queijo muçarela, presunto, alface, tomate e orégano; e a banana split, com três bolas de sorvete (morango, creme e chocolate), banana, marshmallow, biju, castanha de caju e calda de morango e chocolate. O milkshake de Ovomaltine tem uma legião de fãs, assim como o sundae de abacaxi. 
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Casa dos Contos — 1975 

Casa dos Contos oferece um cardápio gigantesco, com mais de 60 opções de prato - Foto: DivulgaçãoA mais novinha da lista, a Casa dos Contos está comemorando esse ano meio século de vida. Foi fundada em 1975 pela Dona Derna, mãe do chef Memmo Biadi, que morreu em 2020. Como uma boa casa italiana, o cardápio contava com massas e pizzas. Em 1984, o restauranter Antônio Edmar Roque compra o restaurante e fica no comando até sua morte, em 2017. Sua filha Maria Leonor Roque assume o negócio. “A tradição está na essência da nossa família. Contudo, isso não nos isenta da necessidade de estarmos atentos e prontos a nos adaptar às constantes mudanças do mercado sem abrir mão do que nos trouxe até aqui”, diz Maria Leonor. Muitos funcionários são antigos, como o Cleverson e Bia, líderes da cozinha há mais de duas décadas. O serviço à inglesa faz toda diferença. “No mundo corrido em que vivemos atualmente, o serviço a inglesa é uma arte, que vem se perdendo ao longo dos anos. A dificuldade de encontrarmos novos profissionais que dominam a técnica de servir com duas colheres fazendo um alicate é cada vez maior”, completa a proprietária.
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Com seu salão de madeira, paredes repletas de fotografias e quadros de artistas locais que podem ser adquiridos pelos clientes, o restaurante oferece um cardápio gigantesco, com mais de 60 opções de pratos, que vão de Bacalhau à Lagareira à Costelinha à mineira. O mais pedido é o Filé Surprise, filé recheado com presunto e muçarela, arroz à piemontese, batata frita, ovos fritos e banana à milanesa. 
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Maria das Tranças — 1958

Maria das Tranças foi fundado em 1958 - Foto: Rayana Almeida/DivulgaçãoO bairro São Francisco era uma grande roça com casinhas ostentando hortas e galinheiros. Era nesse cenário que dona Maria Clara Rodrigues recebia os clientes para comer seu famoso frango ao molho pardo em uma casa de fazenda adaptada. Eram os anos 1950 e a ida ao Bolero – então nome do Maria das Tranças – significava deixar a cidade para trás em busca de comida boa. E por lá passaram grandes personalidades como Juscelino Kubitschek, Elis Regina, Vinícius de Moraes e Marília Mendonça. 
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Dona Maria era uma mulher de fibra e viu no restaurante a chance de sustentar a família. Era ela mesma que fazia as compras, administrava as contas e comandava a cozinha. Nos primeiros anos, a experiência era única: o cliente ia até o quintal para escolher o frango que seria abatido na hora. Enquanto esperava o preparo, aguardava na companhia de uma boa cachaça, rapa de angu e alguns dedos de prosa. Com o tempo, o restaurante mudou de nome em homenagem às tranças que a fundadora usava diariamente. “A casa cresceu, mas a essência continua a mesma, os pratos continuam sendo preparados com a receita original”, diz Ricardo Rodrigues, neto de Maria Clara, e que hoje vê suas filhas, Ana Luiza e Maria Clara, no comando do negócio. É a quarta geração que faz com que a casa, com 75 anos de idade, continue sendo referência quando o assunto é molho pardo. 
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Café Nice — 1939

Inaugurado em 1939, o Café Nice tornou-se um ponto de encontro para intelectuais, políticos e artistas da cidade - Foto: Geraldo Goulart NetoO dia 23 de setembro de 2025 tem um lugar especial no coração do Renato Moura Caldeira. “Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, admite. Essa data marcou a reabertura do Café Nice, que passou por uma revitalização graças a mobilização do município e de iniciativas privadas, que conseguiu arrecadar cerca de R$ 300 mil para a reforma. “Foi a oportunidade de dar sequência a um trabalho que eu e meu irmão estamos desenvolvendo há mais de 50 anos”, diz Renato, referindo-se a Tadeu Moura Caldeira. A revitalização foi pensada para preservar elementos históricos do estabelecimento – como os azulejos originais e o balcão clássico – e ao mesmo tempo incorporar novidades para atrair mais público. 
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“Os clientes estão gostando, não vi nenhum reclamar. Foi uma reforma bonita, sem grandes mudanças, mas que deu uma vida nova ao Café Nice. Tem gente que estava afastada do Centro e está vindo aqui para matar a saudade”, explica Renato. Entre as novidades, instalação de bancos, onde a turma pode se sentar para tomar o famoso cafezinho com pão de queijo, clássico mais pedido da casa. A turma chega aqui e sempre fala: “Esse é o verdadeiro pão de queijo de Minas”, afirma o proprietário. 
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Inaugurado em 1939, o Café Nice tornou-se um ponto de encontro para intelectuais, políticos e artistas da cidade. Por ali passaram personalidades que se debruçavam sobre o balcão para tomar um café coado no filtro de pano na hora. As fotos antigas penduradas nas paredes evidenciam a história de um dos endereços mais queridos pelos belo-horizontinos. E quando estiver por lá, peça o creme de maisena com ameixa. Um clássico que atravessa décadas. 
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Sorveteria Universal – 1928 

Desde a sua criação, a Universal aposta em ingredientes frescos, naturais e um modo de produção fiel às origens italianas - Foto: Victor Schwaner/DivulgaçãoA história da Universal começa com Arthur Spina, imigrante siciliano que se instalou em Belo Horizonte com o sonho de trazer a tradição da gelateria italiana para a capital. Ele inaugurou a primeira loja – e a primeira sorveteria da capital - em 1928, na Praça Sete, Centro. Em 1932, no bairro Floresta tudo ganhou forma. As filhas, Conceição e Ida, herdaram o negócio e ensinaram os sobrinhos e outros familiares a usarem o maquinário para darem continuidade ao ofício. Em 1994, um incêndio atingiu todo o quarteirão, onde estava instalada a loja. “Quase apagou toda a nossa história, mas com coragem e apoio dos clientes a sorveteria foi reerguida”, diz Aline Lacôrte, que hoje comanda o negócio ao lado da irmã, Liliane. As duas são bisnetas de Arthur, o fundador. 
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Desde a sua criação, a Universal aposta em ingredientes frescos, naturais e um modo de produção fiel às origens italianas. São mais de 50 sabores. Entre os mais procurados estão o de doce de leite e baunilha com caramelo salgado e pedaços de chocolate. O queimadinho (coco queimado) é uma receita de família e é preparado exatamente como na época da inauguração. Alguns maquinários antigos ainda são usados. “Fazemos exatamente como aprendemos, com leite fresco, fruta de verdade, panela no fogo e tempo. Porque sabor não se apressa”, afirma Aline. 

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