Revista Encontro

MINEIROS DE 2025 - HOMENAGEM

Lô Borges: o legado de um gênio da música popular brasileira

Artista mineiro deixou uma obra atemporal, marcada por delicadeza, invenção e canções que atravessam gerações da música brasileira

Neide Magalhães
Lô Borges (1951-2024), cantor, compositor e instrumentista mineiro - Foto: Flávio Charchar/Divulgação
Nos fins de tarde, ele costumava sair de casa, a um quarteirão da Praça da Liberdade, para ir à cafeteria no Centro Cultural Banco do Brasil. Lá, tomava o café em sua mesa preferida, um ritual que adotara desde que se mudou para a região e que cumpriu, sem fazer alarde algum, nos últimos anos. Sexto dos 11 filhos de dona Maricota e Salomão Borges, o cantor, compositor e instrumentista Lô Borges estava vivendo um momento de intensa criatividade – e novas canções surgiam com frequência em seu vasto repertório. O artista deixou uma legião de fãs de luto, com a morte em novembro, aos 73 anos, menos de um mês depois de ser internado em um hospital de BH por conta de uma intoxicação medicamentosa acidental. A repercussão foi tamanha que até quem conhecia a dimensão do talento e do sucesso deste artista se comoveu com a comoção que se espalhou pelo Brasil e até fora daqui. Mensagens de fãs de gerações diferentes lotaram as redes sociais e ainda se fazem ver e ouvir, ao som de Sonho Real, A Via Láctea ou Chuva na Montanha, só para citar algumas. 
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QUEM É
  • Nascido em Belo Horizonte (MG), em 10 de janeiro de 1952, morreu em 2 de novembro de 2025 
  • Em 53 anos de carreira, lançou 23 discos, além de três DVDs e um documentário 
  • Coautor e intérprete de músicas como “Trem Azul”, “Um Girassol da Cor de seu Cabelo”, “Clube da Esquina 2”, “Nuvem Cigana”, “Para Lennon & McCartney” e “Paisagem da Janela”, deixou várias canções inéditas para discos que serão lançados postumamente até 2029
 
Seu único filho, o publicitário e estudante de jornalismo Luca Borges, de 27 anos, conta que o legado de Lô é o “do companheirismo, da sua doçura como pessoa. Meu pai era muito feliz, alegre, contagiante, apesar de ser um pouco introvertido. Ser pai e músico é muito difícil, e ele foi o melhor pai que um pai pode ser. Nunca falhou comigo”, diz. Com um misto de saudade, dor e orgulho, Luca afirma ainda que vai cuidar muito para preservar a obra do artista – “ele era inquestionável”. Um dos tios de Luca, Yé (Marcos) Borges, de 72 anos, também tenta processar a perda: “Crescemos juntos e fomos criados muito próximos. Descobrimos as coisas da vida juntos”, conta. Os dois irmãos (e mais Beto Guedes e Márcio Aquino) formaram “a primeira banda cover dos Beatles do mundo”, os Beavers. Enquanto Lô traçou uma rica trajetória na música popular, o violonista e compositor Yé passou a trabalhar com jingles e música para teatro e audiovisual. Sobre a imensa repercussão da morte recente de seu irmão, ele diz: “Víamos a genialidade do Lô, mas não tínhamos noção de sua amplitude. Ele não tinha aquela aura de ídolo”. 
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O economista Marcelo Pianetti, produtor e administrador da carreira de Lô Borges, vive um luto duplo porque perdeu também o pai, três dias depois da partida do amigo e sócio de mais duas décadas: “Nossa convivência era muito intensa e conversámos muito”, diz, lembrando que o artista estava vivendo um momento especial e faria 14 shows nos últimos dois meses de 2025, incluindo a turnê com Zeca Baleiro e a primeira participação no Réveillon da Praça da Liberdade. “Ele estava muito entusiasmado”, diz. Foi Samuel Rosa, nos tempos do Skank, quem apresentou os dois, em 1999. Fã que se tornou um dos maiores incentivadores do músico e um parceiro musical frequente, Samuel ficou muito abalado com a morte do amigo e escreveu, com “reverência”, na Folha de S. Paulo: “Poucos artistas lidaram com seu ofício com o comprometimento que ele tinha. Era um compositor compulsivo, de trajetória invejável... Lô soube ser inventivo e popular na medida certa.” Juntos com Nando Reis eles criaram Dois Rios, música do repertório de Lô mais tocada nos últimos cinco anos, segundo o Ecad. 
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A longa e profícua estrada musical de Lô passou por várias estações e, depois da estreia triunfal com Milton Nascimento em 1972, aos 20 anos, no álbum duplo “Clube da Esquina”, vieram muito mais gravações. O último disco, “Céu de Giz”, foi feito em parceria com Zeca Baleiro. Lô deixou ainda canções inéditas para a produção de mais três ou quatro CDs, o primeiro deles somente com letras de seu irmão Márcio, que completa 80 anos em 2026 e será homenageado com o disco “A Estrada”. A ideia, segundo Pianetti, é que os outros três sejam lançados posteriormente. Em 10 de janeiro, data em que completaria 74 anos, Lô foi lembrado com o lançamento de um vídeo de seis minutos, porque sua música não vai morrer nunca. Nem a saudade.

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