Revista Encontro

MINEIROS DE 2025 - EDUCAÇÃO

Washington Cunha, o doutor que desafiou a lógica do "mais" na IA

Pesquisador da UFMG venceu seis prêmios de tese em 2025 ao propor métodos mais eficientes, acessíveis e sustentáveis para a inteligência artificial

Daniela Costa
Washington Cunha defende que a tecnologia só faz sentido quando amplia o acesso e reduz desigualdades - Foto: Pádua de Carvalho
Egresso de escola pública e primeiro da família a chegar à graduação, Washington Cunha se formou doutor pelo Departamento de Ciência da Computação da UFMG e encerrou 2025 com um feito raro mesmo em um campo movido a rankings e métricas: seis prêmios nacionais de tese, todos conquistados neste ano. Aos 31 anos, casado e prestes a se tornar pai, ele resume a sua trajetória: anos de pesquisa, métodos desenvolvidos do zero e uma aposta científica que contrariava a direção dominante da área. Sua tese exigiu 233 dias de computação ininterrupta - cerca de 5.600 horas - porque não havia bases prontas na literatura para executar o que propunha. Justamente por isso, ele empacotou seus métodos desenvolvidos e os disponibilizou como referência, com o objetivo de reduzir custos e ampliar o acesso de outros pesquisadores.
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Nascido e criado em Conselheiro Lafaiete, Washington se divide hoje entre Belo Horizonte, onde dá aulas, e São João del-Rei, onde mora. A travessia geográfica dialoga com sua própria trajetória. “Quando cheguei à universidade, percebi que minha realidade era muito diferente da dos colegas”, conta. Filho de um encarregado elétrico e de uma profissional da limpeza, ele lembra que, enquanto outros falavam de carro, ele pensava em como chegar à aula. “Eu ia a pé”. Bolsista ao longo da formação, afirma que as políticas públicas de fomento à educação foram determinantes para chegar onde está.
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QUEM É
  • Doutor pelo Departamento de Ciência da Computação da UFMG, pesquisador conquistou seis prêmios em 2025 ao defender uma inteligência artificial mais responsável, sustentável e acessível 
  • Professor firmou projeto com a Google com foco em desempenho e representatividade do português brasileiro 
  • Especialista defende que a tecnologia só faz sentido quando amplia e melhora o mundo, não quando o estreita 
 
O interesse pela área surgiu cedo, com afinidade por matemática e um curso técnico em eletrônica ainda na adolescência. A virada veio quando percebeu que a computação era o caminho definitivo. Depois do Enem, ingressou na UFSJ, onde a iniciação científica consolidou a sua vocação. O mestrado e o doutorado vieram da UFMG, com período de doutorado-sanduíche na Itália. O eixo central da pesquisa de Washington enfrenta um dilema contemporâneo da área: a corrida por modelos cada vez maiores, treinados com volumes massivos de dados, alto custo financeiro e impacto ambiental crescente. Ele chama esse movimento de “lei do mais”: mais dados, mais infraestrutura, mais gastos. Sua tese segue na direção oposta. “Não é só o mais. A gente não tem infraestrutura para tratar tudo isso”, afirma.
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A alternativa proposta está em tratar dados com mais inteligência, reduzindo drasticamente o volume necessário para treinar modelos, sem perda de qualidade. Uma das técnicas desenvolvidas comprime dados em média em 40%, podendo chegar a 70%, e acelera o treinamento em até seis vezes. O impacto é duplo: ambiental, ao reduzir consumo energético e emissões, e social, ao tornar a IA mais acessível a universidades, pequenos grupos e empresas com menos recursos. O reconhecimento veio de diferentes frentes, incluindo os primeiros lugares dos Concursos de Teses e Dissertações do WebMedia, do Simpósio Brasileiro de Banco de Dados (SBBD), do Simpósio Brasileiro de Sistemas de Informação (SBSI) e do Congresso Brasileiro de Inteligência Computacional (CBIC). Além do segundo lugar geral em um prêmio nacional de teses da computação e uma menção honrosa ligada ao Prêmio Maria Carolina Monard (ICMC/USP).
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Após a defesa de sua tese, Washington firmou um projeto com a Google, ligado ao modelo Gemini, com foco em desempenho e representatividade do português brasileiro. O aporte de US$ 100 mil foi destinado à universidade pública e ao financiamento de bolsas. “Foi uma forma de devolver à sociedade um pouco do que recebi”, diz. Para além da academia, ele alerta sobre os riscos do uso irresponsável da IA, especialmente em contextos como o próximo ciclo eleitoral. Deepfakes, informações falsas e respostas geradas sem checagem já fazem parte do cotidiano. “O risco é achar que a tecnologia dispensa o ser humano da responsabilidade”, afirma. Em um campo marcado por excessos, o pesquisador sustenta uma ideia simples e potente: a tecnologia só faz sentido quando amplia e melhora o mundo, não quando o estreita.

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