Revista Encontro

Elas no comando

Conheça 5 chefs que ampliam o protagonismo feminino na gastronomia de BH

Bruna Martins, Juliana Duarte, Ana Gabi Costa, Gabriella Guimarães e Ana Clara Valadares expandem negócios e consolidam liderança feminina na cozinha

Carolina Daher
Bruna Martins, Ana Clara Valadares, Ana Gabi Costa, Ju Duarte e Gabriella Guimarães (da esq. para a dir.): além de boas cozinheiras, gestoras de mão cheia - Foto: Pádua de Carvalho
Jornadas exaustivas. Estresse. Pressão. Chefiar uma cozinha envolve tudo isso. E para as chefs, há ainda a necessidade constante de provar capacidade e talento. Se muito já foi dito sobre as barreiras que dificultam a carreira feminina dentro de uma cozinha, é também preciso falar sobre elas. Sim, as mulheres que não desistem e não abaixam a cabeça para as dificuldades que o mercado impõe. Com muitos anos de carreira, cinco chefs de Belo Horizonte conquistam cada vez mais espaço na cena gastronômica. 
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Sabe o que Bruna Martins, do Birosca, Florestal e Gata Gorda; Juliana Duarte, da Cozinha Santo Antônio e Puxadinho; Ana Gabi Costa, do Trintaeum, Coreto e Broa; Gabriella Guimarães, do Okinaki e Paral.lel; e Ana Clara Valadares, do TOM, têm em comum? Todas abriram algo novo na cidade no último ano. Mais do que grandes chefs, elas se mostram capazes de serem boas gestoras, interessadas em discutir sustentabilidade financeira, posicionamento de marca e longevidade dos negócios. “Existe um ceticismo silencioso quando uma mulher inova. Colocam o pé atrás, duvidam da consistência do projeto, esperam que seja passageiro”, diz a chef Ana Gabi. “E cada resultado sólido, cada projeto que se sustenta, ajuda a quebrar essa lógica e abrir espaço para que outras mulheres não precisem começar sempre do zero em termos de credibilidade.”
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Pois esse time prova que gastronomia é palavra feminina. Elas enxergam o futuro como um lugar de responsabilidade, no qual a cozinha está conectada à cadeia produtiva real. O olhar também vai além do cardápio: estão preocupadas com quem está ao seu lado na trincheira. Porque todas sabem que não chegaram aqui sozinhas e não estão dispostas a deixar nenhuma pelo caminho. Conheça a seguir as histórias dessas cozinheiras de mão cheia, que prometem brilhar ainda mais em 2026. Pode ter certeza de que em algum momento do ano você será feliz experimentando a comida feita por elas. 
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Bruna Martins, 35 anos. Birosca S2, Florestal, Gata Gorda 

A chef Bruna Martins - Foto: Pádua de CarvalhoAos 15 anos, quando a maioria das meninas sonha com festas e bailes, Bruna Martins já estava na cozinha. Na verdade, até antes disso. Na época da escola, ela adorava passar o recreio na cantina, ajudando no preparo da merenda. Em casa, a cozinha sempre foi seu esconderijo, lugar de preferência e permanência. E continua sendo. Depois de estagiar no Taste-Vin e no finado Vecchio Sogno, com o curso de cozinheira do Senac e uma faculdade de gastronomia abandonada pelo caminho, Bruna é dona de três restaurantes dos mais badalados de BH: Florestal, um gastrobar com protagonismo vegetal; Gata Gorda, espaço que aposta na gastronomia espanhola; e Birosca, seu primeiro empreendimento, que acaba de trocar Santa Tereza por Lourdes. “Tenho orgulho de tudo que construí. Foi muita luta, muitos percalços. Tive sérios problemas financeiros durante a pandemia e sinto que fui conquistando admiradores e a confiança do mercado. Ver os restaurantes cheios é o maior sucesso que eu poderia ter”, diz Bruna, que tem seus restaurantes mencionados em listas importantes como o 50 Best Discovery, que reúne restaurantes, bares e hotéis ao redor do mundo. 
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Sua história como chef-empresária começa em 2013, aos 22 anos, quando alugou uma casinha geminada de esquina em Santa Teresa, seu bairro de coração. Era algo despretensioso. Bruna, que na época cursava bacharelado em música na UFMG, com habilitação em saxofone, só queria um lugar onde os clientes pudessem prestigiar artistas mineiros e, de quebra, ter uma comidinha boa sobre a mesa. Apostou todas as suas fichas em uma cozinha afetiva, baseada em receitas de família. Com o tempo, o Birosca foi ganhando a identidade da dona – que se tornou moderna, disruptiva e ousada diante dos olhos do público. O restaurante cresceu e virou um grande laboratório de ideias da chef. O patamar de Bruna também mudou. Seu amadurecimento pessoal se refletiu em sua gastronomia. Logo de cara percebeu o quanto ser uma mulher à frente de um restaurante era uma tarefa árdua. Logo, montou uma cozinha totalmente feminina. “Acho que fui a primeira a fazer isso em BH. Depois, vieram outras chefs, muitas delas, inclusive, trabalharam comigo. Hoje, a cena de BH está mais heterogênea”, afirma.
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Em 2022, abriu o Florestal, no bairro Floresta. Com um cardápio que tem o vegetal como espinha dorsal, o restaurante traz um tanto de comidas de rua do mundo para o prato. Algumas receitas fazem muito sucesso, como a berinjela asiática com coalhada e a couve-flor frita lambuzada. Dois anos depois, foi a vez de chegar na região Centro-Sul da capital. No Gata Gorda, na Savassi, a chef flerta abertamente com a Espanha, inclusive na decoração com cores fortes, azulejos pintados a mão e um quê de bodega moderna. Entre tapas e pintxos, o de atum fresco servido com ovo de codorna no brioche crocante faz sucesso desde o primeiro dia. 
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Já 2025 foi marcado por grandes decisões. Em setembro, Bruna se viu diante de um grande dilema: deixar o bairro onde tudo começou e levar o Birosca para Lourdes. Isso não representava apenas uma mudança de endereço, mas também o fantasma de perder a identidade da casa. “Esse novo espaço é o contraponto entre o passado que emociona e o futuro que inspira”, resume. Ela trouxe consigo a decoração com uma pegada kitsch, cheio de peças garimpadas em brechós e antiquários. No cardápio, manteve alguns clássicos como a torta de camarão com catupiry, que agora também vem recheada com lagostim. A Galinhada Mentirosa, feita com risoni, galinha caipira, coraçãozinho e gema de ovo também está lá. Minas Gerais continua sendo um dos eixos centrais de inspiração, mas o estado é apresentado de um jeito que foge de desenhos caricatos. Está na curadoria dos ingredientes, na valorização de produtores locais e em um olhar mais contemporâneo para a comida mineira. É o caso do churros de polvilho com creme de queijo e paçoca de carne de sol na entrada e o escondidinho de pato com laranja, feito com purê de batata-doce laranja, cenoura, suco de laranja, ragu de pato e queijo Canastra. “O que me faz permanecer na cozinha são as conquistas, a minha trajetória. Sinto que ainda tenho muito para crescer. No futuro, vejo uma gastronomia mais pop, criativa e acessível, com jovens chefs fazendo uma comida mais elaborada e com técnica em seus bares”, afirma. “Isso é muito legal, porque vai mudando a cultura alimentar da cidade.” 

Os hits de 2026, segundo a chef

Aposta: bares pops e pequenos restaurantes com gastronomia criativa assinada por chefs. 
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Ingrediente: vegetais fermentados 
Tendência: gastronomia espanhola, que está em altíssima 
Tempero: limão e páprica 
Bebida: Vermute 

Ju Duarte, 60 anos. Cozinha Santo Antônio e Puxadinho 

A chef Ju Duarte - Foto: Pádua de CarvalhoA primeira formação de Ju Duarte é em História, na UFMG. Mal sabia ela que o curso, feito no início da idade adulta, ia ser essencial na carreira que ela viria abraçar depois dos 50 anos. “À medida que fui adentrando na culinária, entendi a importância de conhecer a história da nossa comida. Cozinhar em Minas Gerais é lidar com as tradições da nossa cultura alimentar, conhecer ingredientes, modos de fazer, gestos, rituais, saber fazer e receber”, explica ela, que comanda o restaurante Cozinha Santo Antônio desde 2020. Um dos seus “pratos-assinatura” é o Maria da Cruz, uma homenagem à mulher que liderou os protestos contra a cobrança do quinto em 1736. Como historiadora, Ju adora fazer perguntas às tradições e se inquietava com a lenda de que mineiro só come frango e carne de porco. Sabia que no Norte de Minas come-se carne de boi, principalmente de sol ou serenada. Foi então beber nas águas do Velho Chico e durante uma viagem de pesquisa pelo sertão de Guimarães Rosa resolveu criar uma receita que combina peito de boi Angus assado lentamente após um processo de cura, com mandioca na manteiga de garrafa e requeijão moreno, milho tostado, pequi e pimenta de passarinho.
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No ano passado, inaugurou o Puxadinho. O novo negócio, como o nome indica, fica bem ao lado do restaurante e funciona como um bar de quintal, lugar para tomar cerveja gelada e beliscar bobagens gostosas, como ela mesmo costuma definir. Tem alguns clássicos da Cozinha como o jiló empanado e torresmo. 
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Até fincar de vez os pés na cozinha, Ju caminhou. Por décadas, foi diretora de uma importante agência de publicidade na capital. Em 2015, deu os primeiros passos na gastronomia profissional. Fez cursos com chefs, viagens gastronômicas e visitas a escolas de gastronomia na França, até que começou a fazer comida para vender e assinava pequenos eventos para amigos. Foi então fazer o curso de gastronomia na UNA, onde se formou em 2019. “Sempre fui de pesquisar, fazer anotações, sempre sonhando em ter meu próprio restaurante”, diz. Foi quando viu uma casinha de esquina no bairro Santo Antônio com uma placa de aluga-se na porta. “Foi como um chamado. Eu tinha que abrir exatamente ali! Estava apaixonada pela cozinha e queria me expressar por meio da comida. Fiz pensando, mas nada me segurou até abrir as portas”, completa. Ju tinha tudo na cabeça. Queria um restaurante que servisse comida boa e sem frescura, onde as pessoas se sentissem em casa e não precisasse escolher uma roupa especial para frequentá-lo. E é exatamente assim que a chef quer que as pessoas vejam o seu trabalho: “Faço uma comida sincera. Todo prato tem um porquê de estar no cardápio, conta uma história e provoca uma reflexão.” Juliana não se alimenta do que está na moda; serve o que está no dia a dia da maioria das pessoas, feita com preciosismo e técnica. É caprichosa e atenta.
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Juliana acredita que, em um futuro breve, as pessoas vão buscar na comida uma experiência não só de sabor, mas de cultura, história e sociabilidade. Cada vez mais os clientes têm interesse no que vai no prato – de onde vem e quem produziu o alimento. “Acredito na simplicidade como um atributo a ser cada vez mais valorizado. O excesso no prato cansa”, afirma. Para este ano, a ideia é fazer uma extensão da Cozinha, mas, como boa mineira, ela prefere não passar o boi na frente da carroça, e deixa os detalhes para quando as coisas já estiverem acertadas. 
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Os hits de 2026, segundo a chef

Aposta: qualidade, padrão e irreverência
Ingrediente: frutas no prato 
Tendência: simplicidade e elegância  
Tempero: pimenta 
Bebida: drinques sem álcool 

Ana Gabi Costa, 38 anos. Trintaeum, Broa e Coreto 

A chef Ana Gabi Costa - Foto: Pádua de CarvalhoAna Gabi Costa não tem dúvidas ao responder como gostaria que as pessoas enxergassem seu trabalho: “Como uma cozinha verdadeira, que respeita Minas, mas não fica parada no tempo. Quero que as pessoas reconheçam sabor, técnica e intenção. Que entendam que ali tem estudo, escolha, risco e muito trabalho”. Comandando hoje três espaços na cidade (Trintaeum, Broa e Coreto), a chef tem como principal missão jogar luz sobre a cultura alimentar do estado. São casas diferentes entre si, mas que dialogam com a mesma lógica de território e curadoria. “A expansão que me interessa é crescer com coerência, sem diluir identidade. Não penso em abrir algo apenas por abrir ou seguir um ritmo imposto pelo mercado. Cada novo projeto precisa fazer sentido dentro de uma narrativa da Minas contemporânea que venho construíndo”, diz.
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Nos últimos dois anos, ela não parou. Em dezembro de 2024, inaugurou o Trintaeum. O restaurante, que fica dentro do hotel Tribe, na Savassi, é uma cozinha autoral onde quase 100% dos produtos e ingredientes utilizados vêm de Minas. Com um menu que respeita a tradição, mas trabalha técnica e apresentação de uma forma atual, um dos pratos que mais faz sucesso é o frango com quiabo, feito com sobrecoxa grelhada, caldo de galinha, angu de milho verde e gema. Os vinhos são 100% mineiros. “O que me fez querer ter um restaurante foi a necessidade de contar uma história com começo, meio e fim. Sentia vontade de apresentar Minas Gerais do meu jeito, sem concessões, sem adaptar discurso ou sabor para caber em expectativas externas”, conta. Já em setembro e outubro de 2025, vieram o Bar Coreto e o Broa. O primeiro é um bar de alta coquetelaria e o segundo, um café onde as quitandas são as grandes estrelas, como a broa de tabuleiro com queijo Minas e o tostex de pamonha, queijo Minas, tomate seco e bacon. E a ideia não é parar por aí. A chef já faz planos de expansão, o que deve acontecer a partir do meio do ano.
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Comandando uma equipe de 105 colaboradores, Ana Gabi serve só no Trintaeum mais de 5,5 mil pratos por mês. Para Bruna, é essencial que um restaurante tenha clareza sobre o que é e o que entrega. Isso passa pelo atendimento, pelo ritmo da cozinha, pela forma como o cardápio é pensado, pelo cuidado com o ingrediente e pelo respeito com quem está trabalhando ali. Quando tudo conversa, comida, serviço, ambiente e gestão, o cliente percebe. E é isso que faz com que as pessoas queiram voltar. “A boa comida é o ponto de partida, mas ela só se sustenta quando vem acompanhada de uma equipe bem treinada, com consistência no dia a dia. Não adianta um prato brilhante se a experiência muda a cada visita.”
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Os hits de 2026, segundo a chef

Aposta: uma gastronomia mais consciente, menos performática e muito mais verdadeira. Vejo um movimento claro de retorno ao essencial, mas com técnica e pensamento contemporâneo. Não é sobre simplificar por falta de repertório e, sim, sobre escolher melhor
Ingrediente: milho, em todas as suas formas, do mais simples ao mais elaborado
Tendência: valorização real do produtor, não só discurso
Tempero: refogado bem construído, feito com tempo e técnica
Bebida: vinhos mineiros 

Gabriella Guimarães, 37 anos. Okinaki e Paral.lel
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A chef Gabriella Guimarães - Foto: Pádua de CarvalhoTudo perfeito. Gabriella Guimarães parecia ter conquistado o que todo jovem chef sonha na vida. Em 2013, junto com o marido, o também chef Guilherme Furtado, foi para a Espanha onde desenhou uma carreira bonita e bem-sucedida. Durante os 7 anos que viveu em Barcelona, Gabi fez uma especialização em Cultura e Gastronomia Espanhola; trabalhou no Moments de Came Ruscalleda, duas estrelas Michelin; integrou a equipe dos irmãos Adrià; foi subchef do restaurante Nikkei Pakta; e comandou a cozinha do rooftop The Barcelona Edition. O casal, no entanto, resolveu voltar para Belo Horizonte. “Foi uma decisão pessoal. Durante o período que estava fora, perdi meu pai e não consegui estar presente para uma última despedida. Percebemos o quanto estávamos ausentes da família”, diz.
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Além de toda experiência, Gabriella trouxe na mala também sua paixão pela comida oriental, especialmente pela culinária caseira do Japão. Ao chegar no Brasil, eles estavam prontos para abrir um negócio. Veio a pandemia e a reboque das regras sanitárias impostas pela Covid, frearam os planos e investiram no delivery Gui & Gabi, que já deixou claro o que viria pela frente. Sucesso. Assim nasceu o Okinaki, bar asiático focado em street food que conquistou os belo-horizontinos quase que imediatamente. “Sou alguém que gosta de trazer novidades, provocar curiosidade e oferecer experiências diferentes para o público local. Muitas pessoas não têm a possibilidade de viajar e conhecer outras culturas, e meu desejo foi sempre aproximar essa vivência por meio da comida”, explica. Gabriella é inquieta e tem dificuldade em definir qual prato ter sua cara. “Aprendi que um prato nunca está terminado, sempre pode melhorar. Mudo o tempo todo.” Talvez, se tivesse que escolher um, seria o Ssäm de atum, que está no menu do Okinaki desde o primeiro dia. Divertido e colorido, é a combinação de tartar de atum, maionese de Gochujang e arroz crocante, numa base de alface e conserva de cenoura caseira. 
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No ano passado, Gabriella e Guilherme resolveram trazer para a capital um pouco do que viveram na Espanha. Inauguraram o Paral.el, quase em frente ao Okinaki. O nome é uma homenagem a Avinguda del Paral.lel, que atravessa bairros tradicionais de Barcelona e é um reduto cultural e gastronômico. A avenida também foi o endereço do casal na cidade catalã. O menu traz receitas tradicionais espanholas com um olhar contemporâneo. Os clientes ainda têm a chance de experimentar um marco da culinária mundial já que há uma versão da famosa oliva esferificada servida no El Bulli, um clássico da gastronomia molecular difundida pelos irmãos Ferran e Albert Adrià.
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Mãe de Antônia, de 1 ano e 10 meses, Gabriella está grávida. Com uma carga horária pesada de trabalho e dando expediente praticamente de domingo a domingo, a chef precisa fazer um verdadeiro exercício físico e mental para encontrar equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. “É pesado conciliar ser mãe, empresária, gestora e ainda encontrar tempo para a gente. Fico louca algumas vezes durante o dia”, ri.
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Apesar de acreditar que a gastronomia será cada vez mais inclusiva e menos engessada, a chef também lembra que passamos por um momento estranho, “com muitas pessoas buscando atalhos rápidos e deixando de lado o ato de compartilhar a comida, o tempo à mesa e a convivência.” Hoje, ela aposta que seu maior desafio é a formação de equipe, com profissionais engajados e comprometidos. “Esse é um ponto central para a sustentabilidade do setor.” 

Os hits de 2026, segundo a chef

Aposta: comida boa, simples e bem-feita 
Ingrediente: produtos regionais com sazonalidade 
Tendência: bebidas sem álcool mais elaboradas e sofisticadas; técnicas asiáticas, principalmente japonesas. Todos os chefs, jornalistas e influencers estão com viagem agendada para o Japão
Tempero: sal, acidez e refrescância  
Bebida: drinques e fermentados sem álcool
 
Ana Clara Valadares, 30 anos, TOM Cozinha de Herança

A chef Ana Clara Valadares - Foto: Pádua de CarvalhoFoi no final de junho de 2025 que Ana Clara Valadares abriu o TOM, na Galeria São Vicente, no Centro. O sobrenome do espaço, Cozinha de Herança, logo chamou atenção. A chef achou o termo em um estudo sobre a história da alimentação brasileira. “Embora tenha surgido em um contexto acadêmico, acabou sendo uma expressão que ajuda a traduzir a essência de um cozinheiro ou de um cardápio, ambos marcados por suas raízes, sejam elas étnicas, raciais, geográficas ou ainda determinadas por diferentes recortes temporais”, afirma. Essa compreensão acabou inspirando Ana a criar um cardápio que abraça e celebra sua própria trajetória: uma mineira do interior, que teve os primeiros contatos com a cozinha ainda em casa, nas panelas da família, e, mais tarde, nas festas de Congado, onde o ato de cozinhar carrega um sentido coletivo, ritualístico e afetivo. 
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Das celebrações às cozinhas profissionais, cada etapa foi uma escola. “Os saberes, técnicas e repertórios se manifestam na minha comida”, diz. “Hoje, todas essas referências se encontram em um espaço de diálogo com técnicas contemporâneas que conheci nos restaurantes em que trabalhei”, completa ela, que passou por grandes casas belo-horizontinas como os extintos Trindade e Alma Chef, além de Cozinha Tupis, Florestal e Birosca. Ana define o TOM como um restaurante contemporâneo, sem amarras. Ela enxerga o novo no movimento da gastronomia belo-horizontina como um processo que mescla turismo e identidade, sem perder de vista as tradições, valorizando a ocupação de espaços urbanos emblemáticos. “Vejo o TOM como parte de um movimento, de uma cidade criativa, que não aceita mais caber nos próprios estereótipos e que não tem medo de avançar”, afirma ela, que tem entre suas criações mais queridas o Ahimi, tomate curado, maionese, ovas de salmão e brioche frito.
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Ana começou a carreira no final do ensino médio, quando as incertezas da escola da profissão e uma depressão a levaram para o curso de gastronomia. Logo, começou a estagiar no Meet Me e confirmou que era aquilo que queria fazer pelo resto da vida. 
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Mãe de duas crianças de 1 e 4 anos, Ana Clara faz malabarismos para dar conta do recado. Para este ano, sua meta é conseguir fazer pelo menos uma hora de exercício físico por dia. Com jornadas que vão de 6 a 14 horas diariamente, as segundas-feiras são dedicadas aos filhos. Nesse dia, as pendências são resolvidas por telefone. Mesmo com a falta de rotina que um restaurante impõe, a chef não consegue se ver longe da cozinha. “O desafio, a paixão, a colaboração coletiva, o constante amadurecimento, o dinamismo, a evolução diária e o convívio intenso com quem está fazendo acontecer funciona como uma engrenagem que não tem como parar. É viciante”, diz ela, que lembra que durante o desenvolvimento da carreira a vontade de se aperfeiçoar era seu maior desejo. Agora, também quer dividir, ter a chance de passar para as pessoas que trabalham ao seu lado tudo que teve a oportunidade de aprender. “Para que elas também voem alto.”

Os hits de 2026, segundo a chef

Aposta: conexão cultural por meio da comida, uma mistura de herança com criatividade e autenticidade 
Ingrediente: maria-gondó e taioba 
Tendência: culinária asiática 
Tempero: cítrico 
Bebida: low ABV drink, bebida com baixo teor alcóolico  


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